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Branquitude

Posição de privilégio sistêmico ocupada por pessoas brancas, caracterizada pela 'invisibilidade' da própria raça como o padrão universal.

Privilégio brancoRacismo estruturalSociologiaPacto narcísicoRelações raciais

Definição

A branquitude é uma posição de privilégio estrutural, social e político ocupada por pessoas brancas em sociedades marcadas pelo racismo. Mais do que a cor da pele, trata-se de um lugar de vantagem que se autoidentifica como o padrão universal de humanidade, inteligência e estética. Enquanto as identidades de grupos marginalizados são sempre lidas como "específicas" (o escritor negro, a diretora mulher), a branquitude opera como a "norma", tornando-se invisível para quem a habita, mas onipresente em suas consequências excludentes.

No Brasil, o estudo da branquitude foi impulsionado por intelectuais como Maria Aparecida Bento (Cida Bento), que cunhou o termo "pacto narcísico da branquitude", e Lia Vainer Schucman, que investiga como a identidade branca se constrói através da negação do privilégio. O debate brasileiro é fundamental para entender como a branquitude se preserva através de mecanismos informais de indicação, pertencimento e proteção mútua, mantendo o controle das instituições e da riqueza nacional.

Como funciona

Funciona através do silêncio e do pacto de lealdade entre iguais. Cida Bento descreve o pacto narcísico como um movimento inconsciente onde pessoas brancas, em posições de liderança, tendem a contratar, promover e confiar em outras pessoas brancas, por verem nelas o reflexo de si mesmas e de seus valores. Esse pacto não precisa ser explicitado; ele se manifesta na "afinidade" cultural, no "alinhamento de perfil" e na naturalização de espaços 100% brancos como se fossem fruto apenas da meritocracia.

Funciona também pela gestão da culpa e da fragilidade. Quando confrontadas com o racismo estrutural, a reação comum da branquitude é o silenciamento, a defensiva ou a negação ("eu não sou racista, sou daltônico para cores"). Essa postura impede o avanço de políticas de reparação e equidade, pois trata o racismo como um desvio moral individual e não como um sistema do qual a branquitude é a principal beneficiária.

Exemplos

  • O painel de liderança unicolor: Fotos de conselhos de administração de grandes empresas onde todos os diretores são brancos, sem que ninguém na organização perceba a anomalia ou a falta de diversidade.

  • O teste do pescoço: Atitude de entrar em um restaurante, universidade ou hotel de luxo e contar quantas pessoas negras estão ali como clientes e quantas estão apenas servindo.

  • Interrupção de falas de pessoas negras: A tendência de membros da branquitude de explicarem conceitos (mansplaining racial) para pessoas negras que vivem e estudam o tema há décadas.

  • Critérios subjetivos de contratação: Escolher um candidato branco menos qualificado porque ele "tem o perfil da empresa" ou "se daria bem com o time", critérios que escondem o pacto narcísico.

Quem é afetado

Os membros da branquitude são os beneficiários do sistema, possuindo o que os teóricos chamam de "dividendos da branquitude": maior acesso à justiça, melhores salários, menor probabilidade de sofrer violência policial e maior liberdade de trânsito social. No entanto, o sistema também os afeta ao empobrecer sua visão de mundo e sua capacidade de empatia radical, confinando-os a uma bolha de privilégios que ignora a realidade da maioria negra do país.

As vítimas reais do funcionamento da branquitude são as populações negras e indígenas, que encontram barreiras intransponíveis de acesso a cargos de decisão e poder, mesmo quando possuem qualificações superiores. A branquitude atua como um teto de vidro opaco: ela impede a ascensão do Outro enquanto projeta para si mesma a imagem de um sucesso conquistado com "esforço próprio", apagando as vantagens hereditárias e sociais da cor da pele.

Por que é invisível

É invisível porque é a "cor da norma". Em uma sociedade racista, ser branco é a condição padrão que não precisa ser nomeada — o que não é nomeado não é discutido. Essa invisibilidade permite que pessoas brancas circulem pelo mundo sem terem que pensar sobre sua raça, acreditando que suas conquistas são puramente individuais e desvinculadas da estrutura racial.

Além disso, a branquitude se mascara através de conceitos como "universalismo" e "neutralidade". Quando se discute cotas ou ações afirmativas, a branquitude costuma acusar esses mecanismos de serem "divisivos", como se a exclusão prévia (que gerou espaços totalmente brancos) fosse um fenômeno neutro e não um ato de segregação contínua. Essa inversão lógica protege o privilégio branco, tornando qualquer tentativa de alterá-lo um ataque à "ordem natural" das coisas.

Efeitos

  • Manutenção do monopólio do poder: Concentração massiva de cargos de diretoria, magistratura e representação política em mãos de pessoas brancas, mesmo em países com maioria negra.
  • Pacto de silenciamento: A dificuldade de se discutir racismo em ambientes corporativos e familiares dominados pela branquitude, onde o tema é rotulado como "mimimi" ou "desconfortável".
  • Desvalorização de saberes não brancos: A tendência de validar apenas a produção intelectual e estética que segue os padrões eurocêntricos, relegando outras culturas ao folclore ou ao "exótico".
  • Privilégio da dúvida e da individualidade: Pessoas brancas têm o direito de serem lidas como indivíduos (se erram, o erro é delas apenas), enquanto negros são lidos como representantes de seu grupo (se um erra, o erro é de "todos os negros").

Autores brasileiros

  • Cida Bento
  • Lourenço Cardoso

Autores estrangeiros

  • Ruth Frankenberg

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