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Capacitismo

Discriminação e preconceito social contra pessoas com deficiência, baseado na crença de que corpos e mentes 'típicos' são o padrão de normalidade e superiores, tratando a deficiência como uma falha, tragédia ou exceção a ser superada.

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Definição

O capacitismo (tradução do inglês ableism) é a estrutura de opressão que hierarquiza corpos e mentes, privilegiando aqueles considerados "capacitados", "funcionais" ou "normais" em detrimento das pessoas com deficiência. Mais do que atos isolados de preconceito, trata-se de um sistema que permeia a cultura, a arquitetura, a legislação e as relações interpessoais. Ele parte da premissa equivocada de que a deficiência é algo inerentemente negativo, uma tragédia pessoal ou um "erro" biológico que precisa ser consertado, curado ou escondido para que o indivíduo tenha valor social.

Essa lógica inverte a responsabilidade pela exclusão: em vez de reconhecer que a sociedade falha em acolher a diversidade humana, o capacitismo culpa o indivíduo pela sua "falta de capacidade" de se adaptar a um mundo construído apenas para corpos sem deficiência. É indissociável do conceito de Corponormatividade, que estabelece um padrão corporal hegemônico (branco, magro, cisgênero e sem deficiência) como a única forma legítima de existência.

Como funciona

O capacitismo opera em diversas camadas, desde barreiras físicas até atitudes sutis. Historicamente, a deficiência foi vista pelo "Modelo Médico", focando no diagnóstico e na cura do indivíduo. O combate ao capacitismo exige a transição para o "Modelo Social", que entende a deficiência como o resultado da interação entre corpos com impedimentos e barreiras sociais que obstruem sua participação plena. As barreiras atitudinais se manifestam através de estigmas, estereótipos e preconceitos, incluindo a crença de que pessoas com deficiência são assexuadas, infantis, incapazes de trabalhar, de tomar decisões ou de exercer a parentalidade. A invisibilidade e segregação são reforçadas pela falta de acessibilidade em escolas, transportes e locais de trabalho, que empurra pessoas com deficiência para o isolamento ou para instituições segregadas, perpetuando a ideia de que elas "não pertencem" aos espaços públicos comuns.

Exemplos

  • Linguagem Capacitista: Uso de termos que associam deficiência a algo ruim ou inferior no cotidiano, como: "fingir demência", "dar uma de joão-sem-braço", "mais perdido que cego em tiroteio", "retardado", "bipolar" (como xingamento para indecisão), "mancada".

  • Infantilização: Falar com tom de voz de "bebê" com adultos com deficiência intelectual ou dirigir-se ao acompanhante em vez de falar diretamente com a pessoa (ex: perguntar "o que ele vai querer comer?" para o acompanhante de um cadeirante).

  • Acessibilidade de Fachada: Instalar uma rampa íngreme demais apenas para "cumprir a lei", sem funcionalidade real, ou ter elevadores que vivem quebrados, impedindo o acesso.

  • Microagressões: Elogios como "você é tão bonita, nem parece que tem deficiência" (implicando que a deficiência é feia) ou perguntas invasivas sobre a vida íntima e histórico médico feitas por estranhos.

Quem é afetado

As vítimas diretas do capacitismo são pessoas com deficiência física, sensorial (surdos, cegos), intelectual, psicossocial (transtornos mentais) e neurodivergentes (como autistas). No entanto, o capacitismo também intersecciona com outras opressões: mulheres com deficiência sofrem taxas mais altas de violência doméstica e sexual; pessoas negras com deficiência enfrentam maior exclusão do mercado de trabalho e violência policial; e a comunidade LGBTQIAPN+ com deficiência lida com a invisibilização dupla de suas identidades.

Por que é invisível

O capacitismo é frequentemente naturalizado sob a máscara da "boa intenção", da "piedade" ou da "admiração". Tratar a pessoa com deficiência como um "anjo", "sofredor" ou alguém digno de pena desumaniza o sujeito, retirando sua agência e autonomia. Similarmente, a "Pornografia de Inspiração" (termo cunhado pela ativista Stella Young) descreve o uso de pessoas com deficiência realizando tarefas cotidianas como fonte de "inspiração" para pessoas sem deficiência (ex: "se ele, sem pernas, consegue sorrir, qual a sua desculpa?"). Isso objetifica a pessoa com deficiência, reduzindo sua vida a um exemplo de superação para o conforto dos outros.

Efeitos

Os efeitos do capacitismo são profundos e abrangem diversas esferas da vida. Economicamente, o Brasil possui uma forte correlação entre deficiência e pobreza, resultado da exclusão histórica do sistema educacional e do mercado de trabalho, muitas vezes restrito ao cumprimento mínimo da Lei de Cotas. No âmbito psicológico, a internalização do capacitismo gera baixa autoestima, sentimento de inadequação e a crença de ser um "fardo" para a família e sociedade. Socialmente, o capacitismo leva ao isolamento, à dependência forçada e à violação de direitos básicos, como o direito de ir e vir e o acesso à informação.

Autores brasileiros

  • Anahi Guedes de Mello
  • Romeu Kazumi Sassaki
  • Victor Di Marco
  • Aldenize Queiroz de Farias
  • Anna Paula Feminella

Autores estrangeiros

  • Fiona Kumari Campbell
  • Simi Linton
  • Robert McRuer
  • Tobin Siebers

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