Cissexismo
O cissexismo é a crença sistêmica e a ideologia de que as identidades e vivências cisgêneras são superiores, mais naturais e mais autênticas do que as identidades trans. Diferente da transfobia, que foca no preconceito individual, o cissexismo descreve a estrutura social que produz o privilégio cis ao mesmo tempo em que desqualifica pessoas trans como 'menos reais' ou 'iludidas'.
Definição
O cissexismo é um conceito fundamental para compreender a hierarquia de poder baseada no gênero na sociedade contemporânea. Segundo a pesquisadora brasileira Viviane Vergueiro, o cissexismo funciona como uma colonização dos corpos inconformes, estabelecendo a cisgeneridade como a norma absoluta contra a qual todas as outras identidades são medidas. Enquanto o machismo privilegia o homem sobre a mulher, o cissexismo privilegia a pessoa cis (cuja identidade está em conformidade com o sexo atribuído no nascimento) sobre a pessoa trans ou travesti.
A autora Hailey Kaas, uma das pioneiras na discussão do termo no Brasil, destaca que o cissexismo não é apenas um ato de ódio latente, mas a própria estrutura que torna a existência trans precária e suspeita. Para Berenice Bento, essa ideologia manifesta-se no desejo de assepsia do corpo social, onde a pessoa trans é vista como um erro passível de correção médica ou de punição estatal. O cissexismo opera pela desumanização, pois retira da pessoa trans o direito básico à autodeterminação, tratando sua identidade como um sintoma ou um fetiche, e nunca como uma verdade de si.
Como funciona
A dinâmica do cissexismo opera através da manutenção de privilégios que são tão onipresentes que se tornam invisíveis para quem os detém. O sistema funciona reforçando a ideia de que o gênero cis é "original" e o gênero trans é "construído" ou "artificial". Letícia Carolina Nascimento aponta que essa distinção é uma falácia, pois todos os gêneros são construídos socialmente, mas o cissexismo oculta a construção do gênero cis para que ele pareça natural e inquestionável.
Essa estrutura manifesta-se em microagressões cotidianas e em barreiras institucionais severas. O cissexismo valida o questionamento constante da identidade alheia: é a permissão social para perguntar o "nome real" (morto) de uma pessoa trans, para duvidar se uma mulher trans é "realmente mulher" ou para exigir provas cirúrgicas de masculinidade para um homem trans. Nas instituições, o cissexismo reflete-se na falta de acesso a empregos dignos e na patologização médica, onde pessoas trans precisam convencer médicos de sua identidade para terem acesso a direitos à saúde.
Exemplos
Recusar-se a usar o nome social e os pronomes corretos de uma pessoa mesmo após ser informado, sob a justificativa de que a gramática ou a biologia seriam mais importantes que a dignidade do indivíduo.
A exclusão de mulheres trans de debates feministas sob o argumento de que elas 'não viveram a socialização feminina' desde o nascimento, uma tática clássica de deslegitimação de suas vivências.
Processos seletivos de emprego onde candidatos trans são descartados assim que sua identidade é descoberta, independente de sua qualificação técnica.
A exigência de laudos psiquiátricos e anos de acompanhamento médico para que uma pessoa possa simplesmente alterar seu prenome no registro civil.
Quem é afetado
As pessoas mais profundamente atingidas são travestis, mulheres trans, homens trans e pessoas não-binárias. O cissexismo cria uma cultura de exclusão que afasta essas pessoas do mercado de trabalho e da educação. Pesquisas do Centro de Estudos de Cultura Contemporânea (CEDEC) mostram que mais de 70% das travestis no Brasil sobrevivem através da informalidade ou prostituição, um reflexo direto do cissexismo que as impede de ultrapassar as portas dos processos seletivos. Além disso, o cissexismo binário atinge severamente pessoas intersexo, cujos corpos são submetidos a intervenções mutilatórias desnecessárias na infância apenas para se adequarem à estética cis-esperada.
Por que é invisível
O cissexismo é invisível porque é a base da nossa educação de gênero. A sociedade é ensinada a ver a cisgeneridade como o padrão ouro da humanidade. Para quem é cisgênero, o cissexismo manifesta-se como um conjunto de conveniêncas que nunca são notadas: ter documentos que condizem com sua aparência, poder usar um banheiro público sem medo de agressão ou ser tratado pelo pronome correto automaticamente. A invisibilidade é garantida pelo silenciamento das narrativas trans; quando a voz de travestis e trans não é ouvida, a norma cissexista parece ser a única verdade possível.
Efeitos
Os efeitos do cissexismo são a desumanização sistêmica e a morte civil e física. Relatórios da ANTRA reafirmam que o Brasil é o país onde mais se mata pessoas trans no mundo, uma violência que se sustenta na ideia cissexista de que esses corpos são descartáveis ou "ameaçadores". Socialmente, ele gera o epistemicídio de culturas e identidades dissidentes. No nível pessoal, o cissexismo causa baixa autoestima, ansiedade e dificuldade de acesso ao básico, como moradia e assistência jurídica, uma vez que a identidade da pessoa é constantemente invalidada pelas instituições.
Autores brasileiros
- Viviane Vergueiro
- Letícia Nascimento
- Hailey Kaas
- Berenice Bento
Autores estrangeiros
- Julia Serano
- Paul B. Preciado
