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Classismo

Preconceito baseado na classe social, atribuindo superioridade moral às classes dominantes.

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Definição

O classismo é o conjunto de atitudes, práticas e sistemas de crenças que discriminam indivíduos com base em sua classe socioeconômica, resultando na marginalização daqueles que possuem menos capital financeiro e cultural. Ele opera através da naturalização das desigualdades, tratando o sucesso ou o fracasso econômico como uma questão de "mérito" ou "competência moral", enquanto oculta as barreiras estruturais que impedem a mobilidade social.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu é uma das principais referências para entender o classismo através do conceito de "capital cultural" e "habitus", demonstrando como as classes dominantes utilizam gostos e comportamentos para distinguir-se e excluir as classes subalternas. No Brasil, o sociólogo Jessé Souza aprofunda essa discussão analisando a "elite do atraso" e como a classe média brasileira reproduz o classismo ao demonizar as classes populares (a "ralé"), transformando a desigualdade social em uma hierarquia de "dignidade moral".

Como funciona

O classismo funciona por meio da criação de barreiras invisíveis de acesso e pertencimento. Ele se manifesta no mercado de trabalho, onde códigos de vestimenta, sotaques e históricos escolares são usados para filtrar quem é "adequado" para cargos de liderança. Nas cidades, opera por meio da segregação espacial, onde áreas nobres são protegidas de qualquer contato com a pobreza por meio de arquiteturas hostis e policiamento seletivo.

A engrenagem do classismo também utiliza a violência simbólica para fazer com que os próprios excluídos se sintam inferiores e culpados pela sua condição. Ao associar a pobreza à falta de inteligência, de higiene ou de esforço, o sistema classista justifica a precariedade dos serviços públicos e a baixas remunerações, tornando aceitável que uma parcela da população viva sem direitos básicos enquanto outra acumula privilégios hereditários.

Exemplos

  • A seleção por "boa aparência": Editais de emprego ou processos seletivos que exigem requisitos que dependem de capital financeiro (roupas de marca, tratamentos estéticos, intercâmbios) para desclassificar candidatos pobres.

  • Hostilidade sonora e espacial: O uso de termos como "favelado" ou "gentinha" para reclamar de manifestações culturais periféricas ou da presença de pessoas pobres em espaços de lazer da classe alta (como shoppings e praias).

  • Tratamento diferenciado no serviço público: O atendimento célere e educado para quem "parece ter dinheiro" em contraste com o atendimento ríspido e burocrático direcionado a quem aparenta ser de classe baixa.

  • O uso do "elevador social" e "elevador de serviço": A manutenção de uma hierarquia física em prédios residenciais de elite para separar moradores e visitantes de trabalhadores domésticos e prestadores de serviço.

Quem é afetado

As classes trabalhadoras e as populações em situação de pobreza ou vulnerabilidade social são as vítimas diretas do classismo. No entanto, o classismo no Brasil é indissociável do racismo: a maioria da população pobre é negra, o que faz com que o classismo funcione como um reforço às opressões raciais. Mulheres pobres também sofrem de forma aguda com a interseção de gênero e classe, sendo frequentemente confinadas ao trabalho doméstico precário e mal remunerado.

Até mesmo a classe média pode ser afetada pelo classismo, ao viver em uma constante ansiedade de perda de status e ao competir agressivamente por símbolos de distinção. No nível sistêmico, o classismo prejudica o desenvolvimento de toda a sociedade ao desperdiçar talentos e potencialidades humanas em prol da manutenção de privilégios de casta, gerando um ciclo de violência e desigualdade que afeta a segurança e o bem-estar coletivo.

Por que é invisível

O classismo é invisibilizado pelo mito da meritocracia. A ideia de que "quem se esforça chega lá" serve para mascarar que os pontos de partida são radicalmente diferentes. Na cultura brasileira, o classismo muitas vezes é confundido com "bom gosto" ou "educação", permitindo que atitudes discriminatórias passem por opiniões estéticas ou refinamento social.

Além disso, o classismo é naturalizado nos meios de comunicação e no entretenimento, onde as classes populares são frequentemente retratadas de forma caricata, violenta ou ignorante. Esse bombardeio de imagens reforça o preconceito inconsciente, fazendo com que o tratamento diferenciado em lojas, hospitais ou tribunais não seja percebido como uma violação de direitos, mas como uma consequência "natural" da diferença de renda.

Efeitos

  • Restrição de mobilidade social: Barreiras invisíveis impedem que pessoas talentosas de classes baixas acessem postos de prestígio e decisão.
  • Adoecimento físico e mental: O estresse da discriminação constante e a privação de recursos geram quadros crônicos de ansiedade, baixa autoestima e redução da expectativa de vida.
  • Segregação urbana e social: Criação de guetos e bairros isolados, rompendo o tecido social e impedindo o diálogo entre diferentes estratos da população.
  • Desumanização e negação de direitos: Justificativa da violência estatal e da precariedade de serviços básicos como saúde e segurança para grupos lidos como "menos valiosos".

Autores brasileiros

  • Jessé Souza

Autores estrangeiros

  • Pierre Bourdieu

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