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Culpabilização pelo cansaço

Processo onde indivíduos, frequentemente mulheres, são levados a sentir culpa por expressarem exaustão, como se o cansaço fosse falha pessoal e não consequência de sobrecarga.

Saúde mentalGêneroTrabalhoSociedadeCuidado

Definição

A culpabilização pelo cansaço é o fenômeno psicológico e social no qual a exaustão acumulada por um indivíduo é interpretada não como uma consequência direta de sobrecarga de tarefas ou falta de apoio, mas como uma falha pessoal, falta de organização ou "ingratidão". Esse processo ocorre quando a sociedade, as instituições ou o círculo familiar invalidam o direito ao descanso, sugerindo que sentir-se cansado é um sinal de fraqueza ou de que a pessoa não está sendo "suficiente" em seus papéis sociais.

No Brasil, a psicóloga Valeska Zanello descreve como esse fenômeno atinge desproporcionalmente as mulheres através do "dispositivo materno" e do "dispositivo amoroso", onde o cuidado é visto como uma missão abnegada. Internacionalmente, o filósofo Byung-Chul Han discute a "sociedade do cansaço", onde o indivíduo se torna seu próprio carrasco, sentindo culpa por não ser incessantemente produtivo. Autoras como Silvia Federici também contribuem ao mostrar como o trabalho de cuidado não remunerado é naturalizado como amor, tornando qualquer reclamação de cansaço um "atentado" contra os vínculos afetivos.

Como funciona

O mecanismo funciona por meio da inversão da causa e efeito. Em vez de se questionar por que uma pessoa possui uma jornada tripla de trabalho, questiona-se por que ela não está "aguentando o tranco" com um sorriso no rosto. A cultura do alto desempenho e da positividade tóxica impõe que devemos ser resilientes e gratos por tudo o que temos, transformando o cansaço legítimo em um "problema de mindset".

Essa culpabilização é reforçada por microagressões cotidianas. Quando alguém expressa exaustão, recebe comparativos como "fulana faz mais e não reclama" ou "pense em quem nem tem trabalho". Isso isola a pessoa em seu esgotamento, impedindo-a de pedir ajuda real. No fundo, a culpabilização serve para manter a estrutura de exploração funcionando: se o cansaço é culpa de quem se cansa, quem sobrecarrega não precisa mudar seu comportamento.

Exemplos

  • A comparação de "supermães": Uma mãe desabafa sobre a exaustão do puerpério e ouve de uma parente que "no meu tempo eu criava cinco filhos e a casa estava sempre limpa", invalidando seu cansaço.

  • O lazer vigiado: Sentir culpa ao sentar no sofá para assistir a um filme porque sabe que há pilhas de louça ou e-mails pendentes, sentindo-se uma pessoa "irresponsável".

  • A desvalorização da carga mental: O parceiro dizer "é só você me pedir que eu ajudo" após a mulher explodir de cansaço, ignorando que o esforço de ter que gerir e pedir já é uma forma de exaustão que ele se recusa a compartilhar.

  • Pressão corporativa por "disponibilidade": Empresas que exaltam quem responde mensagens fora de hora e olham com desdém para quem desliga o celular no fim de semana, tachando o descanso de "falta de vestimenta da camisa da empresa".

Quem é afetado

As mulheres são as mais afetadas devido à dupla ou tripla jornada e à expectativa social de serem as "multitarefas" perfeitas. Mães, em particular, enfrentam uma carga pesada de culpa, pois qualquer sinal de que estão cansadas da rotina com os filhos é lido como se não os amassem. Trabalhadores de classes populares, que enfrentam horas de transporte público e subempregos, também são culpabilizados ao serem tachados de "preguiçosos" quando o corpo reclama do desgaste extremo.

As pessoas negras enfrentam uma camada extra de culpabilização por meio do estereótipo do "negro resiliente" ou da necessidade de trabalhar o dobro para serem minimamente respeitadas, o que torna o cansaço um luxo proibido. Até mesmo as crianças podem ser afetadas em ambientes escolares competitivos, onde o esgotamento infantil é tratado como falta de interesse ou déficit de atenção, em vez de sobrecarga cognitiva e emocional.

Por que é invisível

A culpabilização pelo cansaço é invisível porque está camuflada sob o discurso da autoajuda e da produtividade. Frases como "trabalhe enquanto eles dormem" ou "escolha um trabalho que ame e não terá que trabalhar um dia sequer" normalizam o esgotamento crônico. O cansaço é visto como um "badge of honor" (uma medalha de honra) a ser exibida, mas apenas se for vivido em silêncio e sem causar "incômodo" aos outros.

Além disso, a naturalização do papel de cuidadora das mulheres faz com que o trabalho doméstico e emocional nem seja visto como trabalho. Se não é trabalho, por que cansaria? Essa lógica perversa apaga o esforço hercúleo de gerir uma casa e uma família, transformando a exaustão em algo "psicológico" ou "frescura", retirando a seriedade da condição física e mental da pessoa exausta.

Efeitos

  • Quadros graves de Burnout: Colapso físico e mental por ultrapassar os limites do corpo devido à pressão externa e interna.
  • Isolamento social: A pessoa para de expressar como se sente por medo de ser julgada ou comparada, agravando a solidão.
  • Somatização: Aparecimento de doenças físicas (gastrites, dores crônicas, imunidade baixa) como forma de o corpo "gritar" o que a voz foi proibida de dizer.
  • Erosão da autoestima: A crença de que se é incapaz ou "falho" por precisar de descanso, levando a processos depressivos.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Silvia Federici
  • Eva Illouz
  • bell hooks

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