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De "Mascote" a "Ameaça" (Pet to Threat)

Um fenômeno estudado especificamente sobre a trajetória de mulheres negras no corporativo. Inicialmente, a profissional é vista como "mascote": recebe mentoria, é elogiada por ser "articulada" e recebe apoio paternalista. No momento em que ela demonstra autonomia, competência real ou discorda da chefia, ela deixa de ser "mascote" e vira instantaneamente uma "ameaça" (lida como agressiva, ingrata ou insubordinada), sofrendo retaliação rápida.

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Definição

O fenômeno De "Mascote" a "Ameaça" (ou Pet to Threat) descreve a trajetória profissional tortuosa enfrentada por muitas mulheres negras e outras minorias em ambientes corporativos e acadêmicos. O conceito, sistematizado pela Dra. Kecia Thomas, detalha como essas profissionais são inicialmente acolhidas como "mascotes" — figuras vistas como inofensivas, que servem para validar a diversidade da empresa e que recebem apoio enquanto permanecem em posições juniores ou de suporte. Entretanto, assim que demonstram alta competência, ambição e começam a disputar espaços reais de poder, a percepção da liderança branca e masculina muda drasticamente, passando a vê-las como uma "ameaça" ao status quo.

No Brasil, levantamentos realizados em 2024 com executivas negras mostram que este padrão é uma barreira invisível para a ascensão ao C-Level. A transição ocorre quando a profissional deixa de ser a "aprendiz promissora" (que não desafia ninguém) para se tornar a "concorrente qualificada". Nesse momento, o suporte e a mentoria que ela recebia desaparecem, sendo substituídos por um escrutínio excessivo, isolamento e sabotagem institucional.

Como funciona

O processo de transformação de mascote em ameaça opera de forma sutil e devastadora. Na fase "mascote", a mulher negra é celebrada pela sua história de superação e usada como símbolo de marketing da empresa. Ela é frequentemente chamada para fotos institucionais e eventos de diversidade, mas suas opiniões estratégicas ainda não são levadas a sério. Enquanto ela se mantém dócil e aceita as orientações da liderança, o ambiente parece ser inclusivo e meritocrático.

A ruptura ocorre quando a profissional atinge um nível de excelência que a coloca no mesmo patamar de decisão de seus gestores. De repente, sua confiança é lida como "arrogância", seu rigor técnico como "dificuldade de relacionamento" e sua liderança como "agressividade". O ambiente torna-se hostil: ela deixa de ser incluída em reuniões informais decisivas, suas vitórias são minimizadas e qualquer pequeno erro é amplificado para justificar por que ela "ainda não está pronta" para o próximo passo na carreira.

Exemplos

  • A promoção negada: Uma gerente negra que triplicou os resultados de sua área ter sua promoção barrada por "não ter perfil de liderança", enquanto um colega branco com resultados inferiores é promovido por ser "mais carismático".

  • A mentoria que vira vigilância: Um gestor que antes dava dicas de carreira e que, após a profissional se destacar, passa a exigir relatórios minuciosos de cada minuto de seu dia e a criticar seus emails.

  • Exclusão de forças-tarefa: Quando são criados novos comitês estratégicos ou de inovação e a mulher negra, que é a maior especialista no tema, é deixada de fora para dar lugar a "novos talentos" brancos menos experientes.

  • A crítica à voz: Receber feedback negativo por falar de forma direta e assertiva nas reuniões, sendo orientada a ser "mais suave", algo que nunca é exigido dos homens brancos na mesma posição.

Quem é afetado

As principais afetadas são as mulheres negras que ocupam posições de destaque em setores majoritariamente brancos e masculinos, como tecnologia, finanças e alta gestão. O fenômeno atinge aquelas que possuem alta qualificação acadêmica e técnico-profissional, justamente porque sua capacidade técnica é o que acende o sinal de alerta para as estruturas de poder tradicionais que não desejam ser compartilhadas.

Também são afetadas as organizações, que perdem talentos de alta performance devido ao turnover causado pelo esgotamento dessas profissionais. Quando uma mulher negra percebe que atingiu o teto do "mascotismo" e que qualquer tentativa de subir será punida, ela tende a abandonar a empresa ou a empreender por conta própria para fugir da perseguição institucional.

Por que é invisível

A invisibilidade do Pet to Threat reside na falsidade do acolhimento inicial. Como a empresa ofereceu um "bom começo" e mentoria na fase júnior, ela usa esse histórico para negar o racismo quando a fase de hostilidade começa. Gerentes podem dizer: "como podemos ser racistas se fomos nós que a contratamos e a apoiamos no início?". Isso confunde a vítima e dificulta a denúncia, já que a mudança de comportamento da liderança é gradual e muitas vezes atribuída a questões de "fit cultural".

Além disso, a sociedade tende a culpar a mulher negra pela sua "mudança de atitude". Se ela assume uma postura mais firme para defender seus projetos, é acusada de ter se tornado "difícil", ocultando o fato de que ela só está exercendo a mesma autoridade que seus pares homens brancos exercem sem qualquer questionamento. Essa inversão de culpa mantém o ciclo de sabotagem operando sob uma máscara de avaliação técnica e comportamental.

Efeitos

  • Esgotamento e burnout: O impacto psicológico de passar de "queridinha da empresa" a "alvo de perseguição" causa crises graves de ansiedade e depressão.
  • Estagnação de carreira: Profissionais qualificadas ficam presas em cargos de gerência média por anos, sem perspectivas de promoção, apesar de entregarem resultados superiores aos seus pares.
  • Isolamento profissional: A perda repentina da rede de apoio e mentoria deixa a profissional vulnerável, sem ninguém para defendê-la em fóruns de decisão onde sua reputação está sendo sutilmente minada.
  • Adoecimento físico: O estresse crônico da vigilância constante e da necessidade de ser "duas vezes melhor" se manifesta em insônia, problemas gástricos e outras patologias vinculadas ao ambiente de trabalho tóxico.

Autores brasileiros

  • Cida Bento
  • Valkiria Nobue Yoshimura

Autores estrangeiros

  • Dr. Kecia M. Thomas

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