Encobrimento (covering)
Cunhado pelo sociólogo Erving Goffman e atualizado por Kenji Yoshino. Diferente de "fingir ser outro", o Covering é o esforço exaustivo para minimizar características de uma identidade estigmatizada para ser aceito. Exemplo: Uma mãe que nunca fala dos filhos para não parecer menos comprometida; um homem gay que não traz o parceiro nas festas da firma; uma pessoa negra que alisa o cabelo apenas para entrevistas. A empresa diz que "aceita a diversidade", mas exige o covering para a promoção.
Definição
O encobrimento (covering) é um fenômeno sociológico que descreve o esforço consciente e exaustivo de indivíduos pertencentes a grupos estigmatizados para minimizar ou ocultar características de sua identidade para serem aceitos ou evitarem retaliações em ambientes sociais e profissionais. Diferente do "fingir ser outro" (passing), no covering a pessoa não esconde sua identidade, mas "baixa o volume" dela para não incomodar a maioria ou para parecer mais "profissional" conforme os padrões da norma dominante.
Cunhado originalmente por Erving Goffman e significativamente atualizado pelo jurista Kenji Yoshino, o conceito revela que empresas que se dizem "diversas" muitas vezes só aceitam a diversidade sob a condição de que ela permaneça invisível ou assimilada. No Brasil, o debate é relevante em discussões sobre diversidade corporativa, onde profissionais negros, LGBTQIA+, mulheres e pessoas com deficiência sentem que precisam esconder aspectos de sua vida privada, cultura ou aparência para terem acesso a promoções e cargos de liderança.
Como funciona
O encobrimento funciona através de quatro dimensões principais: aparência (mudar o modo de se vestir ou o cabelo), afiliação (evitar ser visto com pessoas do mesmo grupo ou falar de temas do grupo), atuação (mudar trejeitos ou sotaque) e associação (evitar reivindicar direitos específicos do seu grupo). É uma forma de "imposto de identidade" — o custo psicológico e energético que a pessoa paga apenas para circular por espaços que não foram desenhados para ela.
Nas empresas, o covering é estimulado por feedbacks vagos sobre "fit cultural" ou "postura executiva". Quando um gestor diz que um funcionário negro é "agressivo" por ser direto, ou que um funcionário gay é "exibido" por falar da sua vida pessoal, ele está enviando um sinal de que o indivíduo deve cobrir essas características para progredir. O medo da exclusão força a pessoa a performar uma identidade "neutra" (que, na prática, é a norma branca, cis, heterossexual e masculina).
Exemplos
Alisamento de cabelo para entrevistas: Uma mulher negra que usa o cabelo natural no dia a dia, mas decide alisá-lo apenas para o processo seletivo por medo de ser lida como "desleixada".
Omitir a maternidade: Uma executiva que remove fotos dos filhos da mesa de trabalho e evita sair mais cedo para reuniões escolares para não ser julgada como "menos comprometida".
Moderar trejeitos e pronomes: Um homem gay que muda o tom de voz e evita falar do marido em eventos sociais da empresa para não ser rotulado como "o gay do escritório".
Minimizar limitações físicas: Uma pessoa com deficiência auditiva leve que evita pedir que falem mais devagar em reuniões para não ser vista como "um problema administrativo" pela equipe.
Quem é afetado
As principais afetadas são as minorias sociais inseridas em ambientes hegemônicos. Mulheres que escondem a maternidade para não parecerem menos produtivas; pessoas LGBTQIA+ que usam pronomes neutros para se referirem aos parceiros; pessoas negras que alisam o cabelo ou evitam gírias; e pessoas com deficiência que tentam esconder suas limitações para não serem lidas como "fardos".
O impacto atinge também as empresas, que perdem em criatividade e inovação, pois seus funcionários estão gastando uma parte enorme de seu processamento mental apenas para "se encaixarem", em vez de estarem plenamente presentes e autênticos. O covering gera um ambiente de desconfiança e falta de pertencimento que corrói a cultura organizacional a longo prazo.
Por que é invisível
O encobrimento é invisível porque é um processo interno e silencioso. Diferente da discriminação aberta, que pode ser denunciada, o covering é uma escolha forçada feita pela própria vítima sob pressão ambiental. A sociedade ignora o fenômeno porque ele permite que as instituições mantenham uma fachada de diversidade ("temos negros e gays aqui") enquanto suprimem a substância dessa diversidade através da exigência de assimilação total.
Além disso, o covering é muitas vezes confundido com "etiqueta profissional" ou "amadurecimento". A ideia de que "no trabalho precisamos ser outro" mascara a injustiça de que esse "outro" exigido é sempre muito próximo do padrão dominante, o que significa que o esforço para se adaptar não é distribuído de forma igual entre todos os colaboradores. Quem já nasceu na norma não precisa cobrir nada; quem é diferente precisa se esconder para ser reconhecido como igual.
Efeitos
- Esgotamento emocional: O custo psíquico de monitorar cada palavra, gesto e escolha estética diariamente leva a quadros de ansiedade e depressão.
- Falta de representatividade real: Mesmo com diversidade numérica, os modelos de liderança continuam sendo homogêneos, pois quem sobe foi quem mais "se cobriu".
- Disfunção na inovação: Colaboradores evitam trazer perspectivas diferentes por medo de parecerem "específicos demais", mantendo a empresa presa a soluções antigas.
- Corrosão da autenticidade: A perda da conexão com a própria história e valores, gerando uma crise de identidade e desmotivação crônica com a carreira.
Autores brasileiros
- Eduardo Harder
- Ana Elisa Castro Freitas
- Hudson Masferrer
Autores estrangeiros
- Erving Goffman
- Kenji Yoshino
