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Epistemicídio

Destruição ou invisibilização dos saberes e produções intelectuais de grupos oprimidos pela hegemonia da ciência ocidental eurocêntrica.

ConhecimentoPoderColonialidadeEducaçãoViolência Simbólica

Definição

O epistemicídio é o processo sistemático de destruição, silenciamento e deslegitimação de formas de conhecimento, racionalidades e saberes que não se enquadram no padrão da ciência ocidental eurocêntrica. Trata-se de uma modalidade de violência simbólica que nega aos grupos subalternizados a capacidade de produzir teoria e conhecimento válido sobre si mesmos e sobre o mundo, reduzindo-os à condição de objetos de estudo e nunca de sujeitos do saber.

No Brasil, o conceito foi consolidado e aprofundado pela filósofa Sueli Carneiro, que em sua obra fundamental demonstra como o epistemicídio age como um braço articulado do racismo estrutural. Para Carneiro, essa violência opera no sistema educacional e nas instituições para alienar a população negra de sua própria herança intelectual e histórica, produzindo o "não-ser" por meio do apagamento de sua capacidade cognitiva e cultural. Essa perspectiva dialoga com o pensamento de Frantz Fanon, ao analisar como a dominação colonial exige a morte psíquica e intelectual do colonizado para se sustentar.

Como funciona

O epistemicídio funciona por meio da imposição de uma monocultura do saber. A academia, o sistema jurídico e os currículos escolares estabelecem que apenas o método científico positivista de matriz europeia é capaz de produzir "verdade". Tudo o que foge dessa norma — como as tradições orais, as medicinas ancestrais, as filosofias africanas ou as cosmovisões indígenas — é classificado como "crença", "folclore", "superstição" ou "conhecimento vulgar".

Esse mecanismo opera em três níveis: a negação (afirma-se que os povos colonizados não possuem intelecto), a desvalorização (afirma-se que seus saberes são inferiores) e a apropriação (saberes tradicionais são capturados pela ciência oficial, que os renomeia e lucra sobre eles após despojá-los de sua origem). No cotidiano acadêmico, o epistemicídio manifesta-se no isolamento de pesquisadores negros e indígenas, cujas produções são frequentemente recebidas com desconfiança ou rotuladas como "militância" em vez de ciência.

Exemplos

  • Currículos universitário brancos: Cursos de filosofia ou sociologia onde 100% da bibliografia obrigatória é composta por autores brancos do Hemisfério Norte, ignorando pensadores africanos, latinos e indígenas.

  • Desqualificação da medicina tradicional: Tratar o uso de ervas e rituais de cura de benzendeiras ou pajés como charlatanismo, enquanto a indústria farmacêutica patenteia as mesmas moléculas extraídas dessas plantas sem remunerar as comunidades.

  • Omissão histórica em livros didáticos: Narrar a história da humanidade como se o Egito não fosse em África ou como se as civilizações pré-colombianas fossem apenas "selvagens" aguardando a civilização europeia.

  • Barreiras linguísticas e acadêmicas: A desvalorização de trabalhos produzidos em línguas nativas ou que utilizam metodologias não-lineares, exigindo que todo pensamento seja traduzido para a lógica cartesiana para ser considerado legítimo.

Quem é afetado

As populações do Sul Global, povos indígenas, comunidades quilombolas e a população negra são as principais vítimas do epistemicídio. Ao serem privadas de referências intelectuais que reflitam sua própria realidade, essas pessoas sofrem um processo de desraizamento cultural. O impacto atinge diretamente estudantes e professores desses grupos, que precisam "se embranquecer" intelectualmente para serem aceitos nos espaços de prestígio académico.

A sociedade como um todo também é prejudicada, pois o epistemicídio limita o horizonte de soluções para problemas globais. Ao descartar saberes milenares sobre biodiversidade, saúde coletiva e organização social que não passam pelo crivo eurocêntrico, a humanidade perde ferramentas essenciais de sobrevivência e inovação. O resultado é um empobrecimento cognitivo mundial em prol da manutenção de uma hegemonia de poder que beneficia apenas uma pequena elite intelectual.

Por que é invisível

O epistemicídio é invisibilizado pela aura de universalidade e neutralidade da ciência ocidental. Quando os currículos escolares apresentam apenas filósofos gregos e iluministas franceses, isso não é percebido como uma exclusão deliberada, mas como a "história natural do pensamento humano". A ideia de que "ciência não tem cor" serve para ocultar o fato de que a ciência foi, e é, usada como instrumento de poder e dominação.

Além disso, o epistemicídio se oculta na linguagem técnica e na burocracia institucional. A exigência de títulos acadêmicos específicos para validar falas sobre determinado território, ignorando a autoridade de anciãos e mestres tradicionais, é uma forma de exclusão que parece ser baseada em "critérios de excelência", quando na verdade é um filtro de classe e raça. Sem a identificação do termo, a ignorância sobre outras formas de vida é tratada apenas como "falta de dados", e não como uma destruição ativa de evidências e memórias.

Efeitos

  • Aniquilação da agência intelectual: Indivíduos de grupos oprimidos passam a acreditar que não são capazes de produzir pensamento crítico original.
  • Perpetuação da dependência epistemológica: O Sul Global continua importando teorias e soluções que não se aplicam à sua realidade social, gerando políticas públicas ineficazes.
  • Morte física e espiritual de comunidades: A desvalorização de saberes ancestrais leva ao abandono de práticas de subsistência e proteção, tornando populações vulneráveis a doenças e invasões.
  • Degradação ambiental acelerada: O descarte de tecnologias indígenas de manejo da terra em favor de modelos industriais eurocêntricos contribui diretamente para a crise climática.

Autores brasileiros

  • Sueli Carneiro

Autores estrangeiros

  • Frantz Fanon

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