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Exclusão digital

A exclusão digital é a desigualdade no acesso, uso e apropriação das tecnologias de informação e comunicação. Ela não se resume à falta de conexão, mas inclui a precariedade dos dispositivos, a falta de habilidades digitais e a conexão limitada que impedem o pleno exercício da cidadania no século XXI.

Definição

Exclusão digital refere-se ao abismo que separa aqueles que têm acesso pleno às tecnologias digitais daqueles que não têm, ou que possuem um acesso precário e limitado. No Brasil, o conceito evoluiu para além da simples dicotomia "conectado vs. desconectado". Pesquisadores como Sérgio Amadeu apontam para a existência de uma "segunda classe" de usuários, que acessam a rede exclusivamente por celulares com planos de dados limitados (franquias), o que restringe severamente sua capacidade de busca, produção de conteúdo e aprendizado.

Dados do Cetic.br (TIC Domicílios 2024) mostram que, embora 85% dos domicílios urbanos tenham acesso à rede, apenas uma fração da população possui "conectividade significativa" — ou seja, acesso estável, veloz, com dispositivos adequados (computadores) e letramento digital. A exclusão digital é, portanto, um reflexo e um amplificador das desigualdades sociais, raciais e regionais já existentes no país, afetando desproporcionalmente as classes D e E e as regiões Norte e Nordeste.

Como funciona

A exclusão funciona através de barreiras econômicas, estruturais e cognitivas que se retroalimentam. A principal delas é a barreira econômica, onde o alto custo de equipamentos como computadores e de planos de banda larga fixa obriga a população de baixa renda a depender exclusivamente de dispositivos móveis com planos de dados limitados. Essa dependência compromete atividades complexas, como a redação de documentos ou a participação em cursos online, que exigem telas maiores e conexões estáveis.

Somam-se a isso as barreiras de infraestrutura, com empresas de telecomunicações investindo preferencialmente em áreas de maior poder aquisitivo e deixando periferias e zonas rurais como "desertos digitais". Práticas comerciais como o zero rating — onde o uso de redes sociais não consome dados — aprofundam a exclusão ao criar uma internet restrita para os mais pobres, que conseguem consumir entretenimento mas ficam impedidos de acessar fontes diversificadas de informação e educação, o que acaba por fomentar a propagação de desinformação.

Exemplos

  • Um estudante que precisa digitar um trabalho escolar inteiro no celular porque não tem computador em casa ou na escola.

  • Moradores de favelas que não conseguem pedir carro por aplicativo porque o GPS não mapeia suas ruas ou as classifica como "áreas de risco" bloqueadas pelo sistema.

  • A dificuldade de idosos ou analfabetos funcionais em sacar o Auxílio Emergencial porque o processo era inteiramente dependente de um aplicativo (Caixa Tem).

  • Planos de internet móvel pré-pagos que cortam o acesso a tudo quando a franquia acaba, exceto ao WhatsApp, prendendo o usuário em um ecossistema fechado de informação.

Quem é afetado

Os principais afetados são as populações de baixa renda, negros e moradores de áreas rurais e periféricas. O recorte racial é evidente: segundo o IBGE, embora o acesso tenha crescido, a população negra ainda enfrenta maiores barreiras de qualidade de conexão. Idosos também sofrem com a exclusão devido à falta de letramento digital, encontrando dificuldades para realizar tarefas básicas que migraram para o digital, como prova de vida do INSS ou agendamento de consultas. Estudantes de escola pública são outro grupo crítico, como visto na pandemia, onde a falta de computadores impediu o acompanhamento das aulas.

Por que é invisível

A exclusão digital é invisibilizada pelo mito de que "todo mundo tem celular". A onipresença dos smartphones cria a falsa sensação de inclusão universal. A sociedade e os governos digitalizam serviços essenciais (Gov.br, bancos, inscrições em concursos) assumindo que o acesso é garantido, ignorando que preencher um formulário complexo em uma tela de 5 polegadas com internet instável é uma tarefa quase impossível. Além disso, a exclusão é técnica: quem está fora da rede não é visto pelos algoritmos, não gera dados e, portanto, "não existe" para o mercado digital e para muitas políticas públicas baseadas em Big Data.

Efeitos

Os efeitos são a marginalização econômica e a precarização da cidadania. Sem acesso pleno, o indivíduo tem menos chances de conseguir emprego (já que vagas são divulgadas online), menos acesso à educação e cultura, e maior vulnerabilidade a golpes e fake news. A "cidadania digital" torna-se restrita: quem não domina a tecnologia não consegue reivindicar seus direitos. Tarcízio Silva também alerta para o racismo algorítmico, onde a tecnologia não só exclui pelo acesso, mas discrimina quem a usa, reproduzindo vieses contra a população negra em sistemas de reconhecimento facial e crédito.

Autores brasileiros

  • Sérgio Amadeu
  • Tarcízio Silva
  • Silvio Meira
  • Ivana Bentes

Autores estrangeiros

  • Mark Warschauer
  • Pippa Norris

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