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Fetichização

Atribuição de desejos sexuais obsessivos ou estereotipados a membros de um grupo específico baseado em sua raça, etnia ou características físicas, tratando o outro como um fetiche exótico em vez de uma pessoa.

Raça e etniaGênero e sexualidadeHipersexualizaçãoFeminismo negroDireitos humanos

Definição

A fetichização é o processo de reduzir um indivíduo ou um grupo social a uma característica específica, geralmente baseada em raça, etnia ou traços físicos, transformando-os em objetos de desejo estereotipados e "exóticos". Diferente do interesse genuíno, a fetichização despoja a pessoa de sua humanidade, intelecto e subjetividade, tratando-a como uma fantasia preenchida por preconceitos históricos. Nas relações raciais, o fetiche opera como uma ferramenta de controle que mantém a distância social enquanto consome o corpo do outro.

No Brasil, o conceito é central na obra de Lélia Gonzalez, que discute como a "mulata" foi construída como o fetiche da nação — um objeto de desejo para o turismo e para o prazer masculino, mas desprovida de direitos e dignidade no cotidiano. O pensamento de Frantz Fanon também é fundamental para entender como o colonizador projeta no corpo colonizado seus próprios desejos reprimidos e medos, criando uma imagem do outro que serve apenas para satisfazer a psique de quem detém o poder.

Como funciona

A fetichização funciona através da desumanização seletiva. O agressor projeta na vítima uma série de características pré-estabelecidas — como a hipersexualidade "natural" ou a "exoticidade" mística — e busca interagir apenas com essa projeção, ignorando a vontade real e a complexidade da pessoa. É uma forma de violência simbólica que se mascara de "elogio" ou "preferência sexual", tornando difícil a percepção de que se trata de um mecanismo de exclusão e objetificação.

Nas redes sociais e aplicativos de relacionamento, o fetiche manifesta-se em filtros e padrões de busca que tratam identidades como categorias de consumo ("as latinas", "os negros", "as asiáticas"). Esse mecanismo reforça a ideia de que esses grupos pertencem a uma categoria biológica ou comportamental estanque, onde o indivíduo desaparece em favor do estereótipo que o fetiche deseja consumir.

Exemplos

  • O mito da "mulata exportação": A promoção turística do Brasil focada na sensualidade das mulheres negras, tratando-as como atrativo para visitantes estrangeiros.

  • O elogio condicional: Dizer a uma pessoa negra que "você é bonito para um negro" ou "eu sempre quis ficar com uma pessoa como você", reduzindo a atração a uma categoria racial.

  • O "yellow fever": A preferência obsessiva e estereotipada de homens brancos por mulheres asiáticas, baseada na imagem de que elas são submissas e hiperfemininas.

  • Fetichização trans em apps: Homens cisgêneros que buscam mulheres trans apenas para satisfazer uma curiosidade sexual secreta, mas se recusam a assumir qualquer vínculo público ou afetivo com elas.

Quem é afetado

As principais afetadas são mulheres negras, indígenas e asiáticas, cujos corpos foram historicamente hipersexualizados ou exotizados pelo olhar colonial e patriarcal. Homens negros também são alvo de fetichização através da animalização e da redução de sua masculinidade a atributos puramente genitais e de força física, o que apaga sua sensibilidade e intelecto.

Também são afetadas pessoas trans e pessoas com deficiência, que muitas vezes encontram parceiros que não as buscam pela afinidade afetiva, mas pela curiosidade mórbida de "experimentar" um corpo considerado fora da norma. O impacto é uma sensação constante de ser um "item de coleção" ou uma experiência passageira, nunca um parceiro legítimo ou um sujeito digno de amor integral.

Por que é invisível

A fetichização é invisibilizada pela sua roupagem de "desejo". Como a sociedade tende a tratar o gosto sexual como um terreno sagrado e inquestionavelmente privado, qualquer crítica ao fetiche é lida como "patrulhamento" ou "falta de humor". Alega-se que "é apenas um elogio" ou "uma preferência", ocultando o fato de que essas preferências são moldadas por séculos de pornografia racista e literatura colonial.

Além disso, a pornografia de massa lucra diretamente com a categorização fetichizada, tornando essas imagens tão onipresentes que elas passam a ser o único referencial de beleza para certos grupos. A falta de representação de pessoas negras ou indígenas em papéis de ternura, liderança e cotidiano normal reforça o fetiche como o único lugar possível para esses corpos no imaginário social.

Efeitos

  • Desumanização profunda: A pessoa deixa de ser vista como sujeito de direitos e passa a ser tratada como um acessório para o prazer de terceiros.
  • Isolamento afetivo: Dificuldade em estabelecer relacionamentos duradouros e baseados no respeito mútuo, já que o parceiro está interessado apenas na fantasia estereotipada.
  • Adoecimento mental: Crises de autoestima, ansiedade e depressão decorrentes da percepção de que sua presença só é validada através do desejo sexual alheio.
  • Vulnerabilidade à violência: A crença de que certos corpos são "naturalmente" mais sexuais ou resistentes diminui a empatia e aumenta o risco de agressões físicas e abusos, que são vistos como "parte da natureza" daquela relação.

Autores brasileiros

  • Osmundo Pinho
  • Laura Moutinho

Autores estrangeiros

  • bell hooks
  • Patricia Hill Collins

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