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Lápis Cor de Pele

Expressão e prática que estabelece o tom rosado como a 'cor de pele' padrão em materiais didáticos e artísticos, marginalizando a diversidade de tons de pele e reforçando o eurocentrismo. Esta imposição simbólica contribui para a desvalorização da identidade de crianças não-brancas e para a naturalização da norma branca na sociedade.

Raça e etniaEducaçãoRacismo estruturalInfânciaViolência simbólica

Definição

A expressão lápis cor de pele refere-se à prática histórica e pedagógica de nomear um lápis de cor de tom rosado ou bege claro como o único representante da "cor da pele" humana. Esse fenômeno não é apenas um equívoco de nomenclatura, mas uma forma de violência simbólica que estabelece a branquitude como o padrão universal de humanidade. Ao naturalizar esse termo em salas de aula e materiais artísticos, o sistema educacional envia uma mensagem silenciosa mas poderosa: de que as peles negras, indígenas e de outros tons não são consideradas "normais" ou dignas de serem nomeadas como tal.

No Brasil, pesquisadoras como Erivânia Brito e Nilma Lino Gomes analisam como essa prática impacta a construção da identidade de crianças negras. A impossibilidade de se desenhar com o "lápis cor de pele" gera um sentimento de inadequação e exclusão desde a primeira infância. O debate sobre o lápis cor de pele é, portanto, um debate sobre o eurocentrismo no currículo escolar e a urgência de uma educação antirracista que reconheça a pluralidade cromática da população brasileira.

Como funciona

O mecanismo do lápis cor de pele funciona através da repetição e da autoridade institucional. Na escola, o professor ou o material didático validam a ideia de que o bege é a norma. Quando uma criança negra pede o "lápis cor de pele" e recebe um lápis que não corresponde ao seu espelho, ocorre uma microagressão que desvaloriza sua própria existência física. Essa prática ensina às crianças brancas que elas são o centro do mundo, enquanto ensina às crianças negras que elas são uma "variação" ou um desvio do padrão aceitável.

Embora o mercado de papelaria tenha começado a produzir caixas de lápis com diversos tons de pele nos últimos anos, o termo ainda persiste no senso comum. O funcionamento dessa opressão é sutil porque se esconde em um objeto aparentemente inofensivo e lúdico. No entanto, é através desses pequenos detalhes do cotidiano escolar que o racismo estrutural é internalizado, moldando quem as crianças acreditam que pode ser protagonista de histórias e desenhos.

Exemplos

  • A criança que se pinta de rosa: Crianças negras que, ao serem instruídas a pintar a pele de um personagem, escolhem o lápis bege claro por acreditar que aquela é a única cor "certa" para representar um humano.

  • Nomenclatura em catálogos: Lojas ou sites de arte que catalogam o tom bege claro como "Skin Color" ou "Nude", reforçando o privilégio branco na linguagem comercial.

  • O silêncio do professor: Um educador que ouve um aluno pedir o "lápis cor de pele" e entrega o rosa sem fazer qualquer intervenção pedagógica sobre a diversidade de tons de pele.

  • A caixa de 12 cores tradicional: A limitação histórica das caixas de lápis que continham apenas um tom próximo ao humano (o rosa), forçando a exclusão de qualquer representatividade racial nos desenhos escolares.

Quem é afetado

As principais afetadas são as crianças negras e indígenas em fase de alfabetização e descoberta artística. O impacto psicológico de ser invisibilizado pelo material que deveria servir para a expressão de sua identidade pode levar à baixa autoestima e ao fenômeno do "branqueamento" nos desenhos, onde crianças não-brancas se pintam de rosa ou branco para serem aceitas ou para se sentirem "bonitas" conforme o padrão vigente.

Crianças brancas também são afetadas, pois crescem em um ambiente que reforça seu narcisismo racial e as impede de desenvolver uma compreensão empática da diversidade humana. Professores e educadores também são parte desse ciclo, muitas vezes reproduzindo o termo por vício de linguagem, sem perceberem que estão exercendo um papel fundamental na manutenção da hierarquia racial dentro do ambiente escolar.

Por que é invisível

Esta prática é invisibilizada por ser tratada como um "detalhe sem importância" ou uma "questão de frescura". Muitos adultos, que cresceram usando o termo, têm dificuldade em enxergar a carga ideológica por trás da caixa de lápis. Alega-se que "é só um nome", ignorando que nomes constroem mundos e definem quem pertence a eles. A invisibilidade é garantida pelo fato de que o racismo no Brasil é, muitas vezes, sutil e focado na desqualificação simbólica antes de se tornar agressão direta.

Além disso, a indústria de materiais escolares por décadas ignorou a diversidade brasileira, reforçando o apagamento através da oferta limitada de cores. Quando a norma branca é a única disponível nas prateleiras e nos estojos, ela deixa de ser uma escolha e passa a ser a única realidade visível, tornando o questionamento do termo um ato de resistência que parece "interromper" a normalidade do desenho infantil.

Efeitos

  • Dano à autoimagem infantil: Crianças que se sentem "erradas" ou "feias" por não se encaixarem no que é rotulado como cor de pele.
  • Naturalização da norma branca: Fortalecimento da ideia de que o branco é o ser humano padrão e o negro é o "outro" exótico ou marginal.
  • Evasão afetiva da escola: Desenvolvimento de desinteresse por atividades artísticas ou desconfiança em relação ao ambiente escolar como um espaço de acolhimento.
  • Perpetuação do eurocentrismo: Manutenção de um currículo oculto que valoriza apenas as referências estéticas e biológicas europeias.

Autores brasileiros

  • Erivânia Brito
  • Nilma Lino Gomes
  • Renato Noguera

Autores estrangeiros

  • Derald Wing Sue
  • Aníbal Quijano

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