Misoginoir
Termo criado pela acadêmica Moya Bailey e amplamente estudado no Brasil hoje. Descreve a fusão única de racismo e sexismo direcionada a mulheres negras. Diferente da misoginia geral (ódio a mulheres) e do racismo geral, o misoginoir descreve violências que mulheres brancas não sofrem (ex: serem hipersexualizadas como "mulatas") e que homens negros não sofrem (ex: serem estereotipadas como "raivosas" ao se defenderem).
Definição
O misoginoir é um termo cunhado pela escritora e acadêmica negra Moya Bailey em 2008 para descrever a forma específica de misoginia dirigida a mulheres negras, onde o racismo e o sexismo não apenas se somam, mas se fundem para criar uma opressão única e indivisível. O conceito destaca que a experiência de ódio e preconceito enfrentada por mulheres negras não pode ser explicada apenas pela soma de "ser mulher" e "ser negra", pois ela é moldada por estereótipos raciais e de gênero que são aplicados exclusivamente a esse grupo, visando sua desumanização física e moral.
No Brasil, o debate sobre misoginoir é fortalecido por intelectuais como Sueli Carneiro, com seu conceito de "dispositivo de racialidade", e Carla Akotirene, que aprofunda a crítica à interseccionalidade. O termo evidencia como a sociedade brasileira, herdeira da escravidão, ainda projeta sobre a mulher negra imagens que oscilam entre a hipersexualização ("mulata exportação") e a servidão ("mãe preta" ou "doméstica"), negando-lhes a proteção e a dignidade conferidas às mulheres brancas.
Como funciona
O misoginoir funciona através da criação e manutenção de tropos culturais violentos que justificam a exclusão e a agressão. Diferente da misoginia contra mulheres brancas, que muitas vezes é acompanhada de um desejo de controle e proteção paternalista, o misoginoir despoja a mulher negra de qualquer presunção de fragilidade ou inocência. Ela é vista como "naturalmente" forte para suportar dor física e emocional, o que fundamenta negligências médicas e abusos institucionais.
Nas redes sociais e na cultura pop, o misoginoir manifesta-se no assédio coordenado contra mulheres negras que ocupam espaços de poder ou visibilidade. O ataque nunca é apenas sobre suas ideias, mas invariavelmente foca em seus traços fenótipos (cabelo, nariz, cor da pele) e na desqualificação de sua feminilidade, buscando "empurrá-las de volta" para a base da pirâmide social.
Exemplos
O estereótipo da "angry black woman": Rotular qualquer reivindicação ou expressão de descontentamento de uma mulher negra como "agressividade", visando invalidar seu discurso e silenciá-la.
Ataques racistas a jornalistas e artistas: Campanhas de ódio que comparam mulheres negras a animais ou que focam em ofensas estéticas para desmoralizá-las publicamente.
Hipersexualização no carnaval: A redução do corpo da mulher negra a um objeto de entretenimento sexual temporário para turistas, sem qualquer reconhecimento de sua subjetividade ou intelecto.
Negligência na busca por desaparecidas: A diferença de cobertura mediática e de empenho policial na busca por meninas negras desaparecidas em comparação com meninas brancas ("Síndrome da Mulher Branca Desaparecida").
Quem é afetado
As únicas afetadas pelo misoginoir são as mulheres negras (pretas e pardas). O impacto é sistêmico e atinge desde a infância, onde meninas negras são mais cedo adultizadas e sofrem punições escolares mais severas, até a vida adulta, onde enfrentam as maiores taxas de feminicídio, violência obstétrica e precarização salarial.
O misoginoir também afeta a saúde mental de forma devastadora, pois a mulher negra vive sob o estresse constante de ter que performar a "perfeição" para evitar os estereótipos da "mulher negra raivosa" (angry black woman). Esse mecanismo de vigilância interna retira o direito ao erro e à vulnerabilidade, levando a quadros crônicos de exaustão e burnout.
Por que é invisível
O fenômeno é invisibilizado pelo mito da democracia racial brasileira, que se recusa a admitir que o racismo é um componente essencial na construção do machismo nacional. Quando uma mulher negra é agredida, a sociedade tende a analisar o fato apenas sob o prisma do crime comum ou da violência doméstica, ignorando que o fator racial foi determinante para a escolha do alvo e para a intensidade da agressão.
Além disso, o feminismo hegemônico (majoritariamente branco) muitas vezes falhou em identificar o misoginoir, tratando "mulher" como uma categoria universal e invisibilizando as demandas específicas de quem sofre com o recorte racial. Essa cegueira deliberada perpetua a ideia de que a dor da mulher negra é "esperada" ou "menos grave", tornando o preconceito um ruído de fundo aceitável na cultura brasileira.
Efeitos
- Violência obstétrica: Mulheres negras recebem menos anestesia e menor acolhimento em partos, fruto da crença sanista e racista de que possuem maior resistência à dor.
- Feminicídio e impunidade: Estatisticamente, enquanto a mortalidade de mulheres brancas tende a cair no Brasil, a de mulheres negras aumenta, demonstrando que o valor da vida negra feminina é sistematicamente menor para o sistema de segurança.
- Diferença salarial abissal: Mesmo com a mesma escolaridade, mulheres negras ocupam os cargos de menor prestígio e recebem os menores salários do mercado, sendo vítimas de um teto de vidro reforçado pelo racismo estético.
- Exclusão nos padrões de beleza: A marginalização de traços negroides na mídia e no mercado de cosméticos, gerando uma constante sensação de inadequação e baixa autoestima forçada.
Autores estrangeiros
- Moya Bailey
