Isso tem nome
Voltar para o catálogo

Mononormatividade

Padrão social que estabelece a monogamia como a única forma legítima e moral de relacionamento afetivo.

SistêmicoRelações afetivasGêneroCulturaDecolonialidade

Definição

A mononormatividade é o sistema de normas e crenças que estabelece a monogamia (exclusividade afetiva e sexual entre duas pessoas) como a única forma natural, ética e legítima de se relacionar. Esse conceito descreve como a sociedade é estruturada para privilegiar casais monogâmicos, tratando qualquer outra forma de convívio — como o poliamor, as relações livres ou as redes de afeto comunitário — como disfuncionais, imorais ou meras fases de imaturidade.

No Brasil, a psicóloga e escritora Geni Nuñez é uma das principais vozes a discutir a mononormatividade sob uma perspectiva decolonial. Ela argumenta que a imposição do modelo monogâmico foi uma ferramenta de colonização para destruir as formas coletivas de organização indígena e africana, substituindo-as pela lógica da "propriedade privada" aplicada aos corpos e aos sentimentos. A mononormatividade, assim, opera como um braço do patriarcado que visa o controle da reprodução e da herança através do isolamento do casal.

Como funciona

A mononormatividade funciona através da naturalização do ciúme como prova de amor e da exclusividade como requisito de valor. Desde a infância, somos socializados através de contos de fadas, músicas e filmes que reforçam o mito da "alma gêmea", sugerindo que a felicidade plena só é possível ao encontrar uma única pessoa que supra todas as necessidades emocionais, sexuais e práticas. Esse isolamento do par romântico enfraquece as redes de amizade e o suporte comunitário, tornando os indivíduos mais dependentes de uma única estrutura de afeto.

Nas instituições, ela funciona por meio de benefícios legais e burocráticos. O sistema jurídico é desenhado para reconhecer apenas o binômio do casal em planos de saúde, heranças, seguros e declarações fiscais. Qualquer tentativa de incluir mais de duas pessoas em uma parceria de cuidado enfrenta barreiras legais severas, demonstrando que o Estado atua como um regulador da moralidade afetiva para manter a ordem social monogâmica.

Exemplos

  • A pergunta sobre "o namorado": Em festas de família, o interesse constante em saber se a pessoa solteira "arrumou alguém", ignorando suas conquistas profissionais ou relações de amizade.

  • Inexistência de planos de saúde para triais: A impossibilidade de registrar mais de um parceiro como dependente em benefícios corporativos ou seguros de vida.

  • O estigma da "outra": A culpabilização exclusiva da terceira pessoa em casos de quebra de acordo, poupando o parceiro que descumpriu o pacto para tentar preservar a imagem do casal "sagrado".

  • Casamento como critério de maturidade: A ideia de que uma pessoa só é plenamente adulta ou "de confiança" quando estabelece uma relação monogâmica formal perante a sociedade ou a igreja.

Quem é afetado

As principais afetadas são as pessoas que praticam a não-monogamia ética (poliamor, relações abertas, anarquia relacional), que enfrentam estigma social, julgamento familiar e falta de amparo jurídico. Mulheres, em particular, sofrem mais com a mononormatividade, pois são cobradas pela "pureza" e pela dedicação exclusiva, enquanto a infidelidade masculina é frequentemente tolerada como um "desvio biológico", reforçando a posse do homem sobre o corpo feminino.

Também são afetadas as pessoas solteiras e as que valorizam mais os laços de amizade do que o romance, pois são vistas como "incompletas" pela lógica mononormativa. O sistema afeta, inclusive, as pessoas em relações monogâmicas, que vivem sob o estresse constante de atender a uma expectativa inalcançável de perfeição e exclusividade, muitas vezes permanecendo em relações tóxicas por medo do isolamento social que a quebra do casal representa.

Por que é invisível

A mononormatividade é invisibilizada pela sua onipresença. Como quase todas as estruturas sociais são montadas sobre o casal monogâmico, os indivíduos raramente percebem que o modelo é uma construção cultural e não uma verdade biológica absoluta. O ciúme possessivo é tratado como "tempero" da relação, e a solidão é usada como uma ameaça para quem ousa questionar a exclusividade, tornando o sistema autodestrutivo mas difícil de ser nomeado.

A invisibilidade também ocorre através do silenciamento de alternativas históricas. O apagamento das formas de organização familiar não-nucleares e das redes de afeto coletivo de comunidades tradicionais faz com que a não-monogamia pareça uma "invenção moderna" ou um "atentado à família". Ao tratar a monogamia como sinônimo de ética, a sociedade desqualifica automaticamente qualquer outra forma de amor como sendo baseada apenas no sexo ou na falta de compromisso.

Efeitos

  • Isolamento social do casal: A tendência de afastar-se de amigos e da comunidade para focar exclusivamente no parceiro, gerando sobrecarga emocional sobre o par.
  • Hierarquização do afeto: A amizade e o cuidado comunitário são sempre colocados em segundo plano em relação ao romance, empobrecendo o tecido social.
  • Vulnerabilidade jurídica e econômica: Pessoas em arranjos não-monogâmicos não possuem os mesmos direitos sucessórios ou de previdência, ficando desamparadas em casos de falecimento ou separação.
  • Adoecimento mental por ciúme e posse: A naturalização do controle sobre o outro como prova de amor gera insegurança, ansiedade e é a base de muitos casos de feminicídio e violência doméstica.

Autores brasileiros

  • Geni Nuñez

Autores estrangeiros

  • Adrienne Rich

Temas relacionados