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Síndrome de Yentl

Fenômeno onde mulheres têm seus sintomas de infarto ou doenças cardíacas ignorados, subestimados ou erroneamente diagnosticados como 'ansiedade' ou 'estresse' por profissionais de saúde, devido a um viés de gênero na medicina e na pesquisa, que historicamente focou em sintomas masculinos. Isso leva a atrasos no diagnóstico, tratamento inadequado e piores desfechos de saúde para as mulheres.

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Definição

A Síndrome de Yentl é um termo cunhado em 1991 pela cardiologista Dra. Bernadine Healy, primeira mulher a dirigir os Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA. O conceito denuncia o viés de gênero sistêmico na medicina cardiovascular, onde as mulheres recebem tratamento menos agressivo e diagnósticos mais tardios do que os homens para as mesmas condições cardíacas. O nome é uma referência à personagem do conto de Isaac Bashevis Singer (adaptado para filme por Barbra Streisand), que precisou se vestir de homem para ter acesso à educação. Na medicina, a metáfora sugere que a mulher precisa "infartar como um homem" — apresentando os sintomas clássicos masculinos — para ser levada a sério.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) reconhece esse fenômeno e alerta que as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres no país. A síndrome expõe como a pesquisa médica foi historicamente conduzida em corpos masculinos, estabelecendo a fisiologia do homem como o padrão universal e a da mulher como "atípica" ou "desviante".

Como funciona

A síndrome opera através de uma lacuna de conhecimento e de estereótipos de gênero no atendimento clínico. Como a maioria dos estudos sobre infarto foi feita com homens, os sintomas ensinados nas faculdades (dor opressiva no peito irradiando para o braço esquerdo) são os sintomas masculinos. Mulheres frequentemente apresentam sintomas "atípicos" como náusea, fadiga extrema, dor no estômago ou falta de ar.

Quando uma mulher chega à emergência com esses sintomas, em vez de ser rapidamente triada para exames cardíacos, ela é frequentemente diagnosticada com ansiedade, estresse ou problemas gástricos. O profissional de saúde, influenciado pelo viés implícito, tende a psicologizar o sofrimento físico feminino ("é nervosismo"), liberando a paciente com calmantes enquanto ela sofre um evento cardíaco.

Exemplos

  • Diagnóstico de Ansiedade: Uma mulher chega ao pronto-socorro com falta de ar e palpitações. O médico prescreve um ansiolítico e pede para ela descansar, sem pedir um eletrocardiograma. Ela sofre um infarto em casa horas depois.

  • Sintomas "Atípicos": Uma paciente relata dor nas costas e queimação no estômago. É tratada para gastrite por meses, enquanto suas artérias coronárias estão obstruídas.

  • Exclusão em Pesquisas: Um novo medicamento para o coração é testado em 1000 pessoas, sendo 800 homens e 200 mulheres, falhando em identificar efeitos colaterais específicos que ocorrem apenas no corpo feminino.

  • Subtratamento: Após um infarto confirmado, uma mulher recebe alta com menos medicamentos para controle de colesterol do que um paciente homem com o mesmo quadro clínico.

Quem é afetado

Todas as mulheres estão sujeitas à Síndrome de Yentl, mas o risco aumenta significativamente após a menopausa, quando a proteção hormonal natural diminui. Mulheres negras enfrentam um risco agravado devido ao racismo médico, tendo suas dores ainda mais subestimadas e recebendo menos analgesia e atenção diagnóstica do que mulheres brancas.

Além das pacientes, o fenômeno afeta a própria ciência médica, que continua produzindo dados enviesados ao não incluir mulheres em proporção adequada nos ensaios clínicos de novos medicamentos e procedimentos cardíacos.

Por que é invisível

A invisibilidade decorre da naturalização da histeria feminina. Historicamente, a medicina associou as queixas das mulheres a instabilidade emocional. Quando uma mulher relata dor difusa ou mal-estar, a primeira hipótese do sistema de saúde tende a ser psiquiátrica, não orgânica.

Além disso, campanhas de saúde pública por décadas focaram na imagem do homem de meia-idade segurando o peito como o rosto do infarto. Isso faz com que as próprias mulheres demorem a procurar ajuda, pois não reconhecem seus sintomas corporais como sinais de perigo cardíaco, acreditando ser apenas cansaço ou indigestão.

Efeitos

Os efeitos são letais. A demora no diagnóstico leva a uma menor taxa de sobrevivência e a danos cardíacos irreversíveis que poderiam ter sido prevenidos. Mulheres têm maior probabilidade de morrer no primeiro ano após um ataque cardíaco do que homens.

Além da mortalidade, há o impacto na qualidade de vida: mulheres recebem menos prescrições de medicamentos preventivos (como estatinas e aspirina) e são menos encaminhadas para procedimentos de alta complexidade, como angioplastias e pontes de safena.

Autores brasileiros

  • Sociedade Brasileira de Cardiologia

Autores estrangeiros

  • Bernadine Healy
  • Emily Lau

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