Bônus de paternidade
Vantagem profissional e salarial que homens experimentam após se tornarem pais, em contraste com a penalidade da maternidade, sustentada por estereótipos que associam paternidade à estabilidade e provisão.
Definição
O bônus de paternidade é o fenômeno sociológico e econômico que descreve o aumento salarial e a aceleração de carreira experimentados por homens após se tornarem pais. Diferente das mulheres, que sofrem a "penalidade da maternidade" (perda de renda e prestígio), os homens são frequentemente recompensados pelo mercado de trabalho ao procriarem. Esse bônus baseia-se no estereótipo de que o pai é um trabalhador mais estável, comprometido e merecedor de confiança, pois agora possui uma família para prover.
As pesquisadoras Michelle J. Budig e Shelley J. Correll são as principais referências internacionais nesse debate, demonstrando através de estudos estatísticos que homens casados e com filhos ganham sistematicamente mais do que homens solteiros e sem filhos na mesma função. No Brasil, o conceito é explorado sob a ótica da divisão sexual do trabalho por autoras como Valeska Zanello, que aponta como o privilégio masculino se renova através da imagem do "bom pai", enquanto o cuidado real e exaustivo permanece invisibilizado nos ombros das mães.
Como funciona
O bônus de paternidade funciona através de um viés cognitivo positivo por parte dos empregadores e gestores. Quando um homem anuncia que será pai, ele é lido como alguém que "criou juízo" ou que agora tem um motivo maior para ser produtivo. Por ser visto como o provedor principal da casa, ele recebe mais oportunidades de horas extras, promoções e bônus salariais, sob a lógica de que "ele precisa sustentar a família".
Além disso, o bônus se sustenta no fato de que a sociedade não espera que o pai interrompa sua carreira para cuidar dos filhos. O mercado assume que haverá uma mulher (mãe, avó ou babá) realizando o trabalho de cuidado nos bastidores. Assim, o pai pode manter sua disponibilidade total para a empresa, enquanto colhe os benefícios simbólicos de ser visto como um "homem de família", sem nunca ser questionado sobre como conciliará fraldas e reuniões, uma pergunta que é onipresente para as mães.
Exemplos
A promoção estratégica: Um funcionário que acaba de ter o primeiro filho ser promovido a gerente sob o argumento de que "agora ele é um homem de família e vai se dedicar mais", enquanto uma colega grávida no mesmo nível é preterida por medo de sua licença.
Diferença salarial oculta: Dois analistas com a mesma experiência onde o homem pai recebe um "rejuste de mercado" ou bônus anual superior ao da mulher sem filhos, sob a justificativa de "retenção de talento estável".
O pai herói do escritório: Um gestor ser aplaudido e considerado "fofo" por levar o filho uma vez por ano ao trabalho, enquanto as mães que fazem o mesmo em emergências são vistas como "desorganizadas".
Flexibilidade seletiva: Um pai que pede para sair mais cedo para o pediatra ser visto como "extremamente participativo", enquanto uma mãe que faz o mesmo é tachada de "descompromissada com as metas".
Quem é afetado
Os principais beneficiados são homens cisgêneros brancos e de classes médias ou altas, que conseguem converter a paternidade em capital simbólico de liderança e estabilidade. Por outro lado, o bônus de paternidade acaba por aprofundar o abismo salarial entre gêneros, reforçando a ideia de que o trabalho masculino é "necessário para o sustento", enquanto o trabalho feminino é "complementar" ou "instável" devido aos imprevistos dos filhos.
Mulheres e mães são as mais afetadas negativamente por esse sistema, pois enquanto os pais ganham aumentos, elas enfrentam a desconfiança de seus gestores, são excluídas de viagens e projetos estratégicos e sofrem cortes salariais indiretos. Filhos e o ambiente familiar também são afetados, pois o bônus de paternidade incentiva que o homem se dedique ainda mais ao trabalho remunerado, afastando-o da convivência afetiva e das responsabilidades domésticas, perpetuando o modelo de pai ausente-provedor.
Por que é invisível
O bônus de paternidade é invisibilizado pela sua aparência de "mérito". Como o aumento salarial é frequentemente justificado por "promoções por desempenho" ou "maturidade profissional", raramente se faz a correlação direta com o fato de o homem ter se tornado pai. A sociedade trata o sucesso financeiro do pai como algo natural e desejável, sem questionar as estruturas que punem as mães pelo mesmo evento biológico.
Além disso, o privilégio masculino é tão onipresente que o bônus não é visto como uma injustiça, mas como a "ordem natural das coisas". A falta de transparência salarial nas empresas brasileiras também contribui para ocultar o fenômeno, impedindo que se perceba que, para cada pai promovido por sua "estabilidade familiar", pode haver uma mãe sendo preterida pelo medo de suas "ausências para cuidar da prole".
Efeitos
- Aprofundamento da desigualdade de gênero: O bônus salarial masculino compensa e supera em muito a renda feminina, mantendo a dependência econômica das mulheres no longo prazo.
- Sobrecarga de trabalho para as mulheres: O incentivo para que o homem foque na carreira financeira empurra todo o trabalho de cuidado doméstico para as mulheres, gerando exaustão física e mental.
- Fragilização dos vínculos afetivos: O pai "provedor" acaba passando menos tempo com os filhos, perdendo etapas importantes do desenvolvimento infantil em prol da ascensão corporativa incentivada pelo bônus.
- Perpetuação de estereótipos de gênero: Reforço da ideia de que o lugar do homem é a rua (esfera produtiva) e o lugar da mulher é a casa (esfera reprodutiva).
Autores brasileiros
- Valeska Zanello
Autores estrangeiros
- Michelle J. Budig
- Shelley J. Correll
