Comida de macumba
Termo pejorativo e estigmatizante utilizado para se referir a alimentos de origem africana e preparações ritualísticas das religiões de matriz africana. A recusa ou demonização dessas comidas por intolerância religiosa e racismo alimentar desvaloriza a culinária ancestral, ataca a identidade religiosa e perpetua o preconceito contra praticantes de Candomblé e Umbanda.
Definição
O termo comida de macumba é uma expressão frequentemente utilizada de forma pejorativa, sarcástica ou estigmatizante para se referir aos alimentos e oferendas (ebós, adimus) utilizados nos rituais das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda. Essa expressão carrega um histórico de demonização das práticas ancestrais pretas, transformando o ato sagrado de compartilhar o alimento com a divindade e com a comunidade em algo "perigoso", "sujo" ou "maléfico". A recusa ou o nojo manifestado diante dessas comidas é uma forma de racismo religioso e alimentar que ataca a dignidade dos praticantes.
No Brasil, o antropólogo Vagner Gonçalves da Silva e o pesquisador Josimar Silva são referências na análise de como a culinária dos terreiros é um pilar da identidade negra e como sua perseguição reflete o racismo institucional. A comida de santo não é apenas nutrição; é a materialização do axé (força vital), preparada com rigor litúrgico e hierárquico. Quando a sociedade utiliza o termo "comida de macumba" para afastar crianças de merendas escolares ou para justificar ataques a terreiros, ela opera um apagamento da sofisticação técnica e espiritual da culinária afro-brasileira.
Como funciona
A dinâmica funciona por meio da demonização do sagrado do outro. O racismo religioso converte elementos culturais e litúrgicos em alvos de pânico moral. A comida, que no terreiro é símbolo de fartura, hospitalidade e comunhão, é reconfigurada pelo olhar externo como um instrumento de "feitiçaria" focado no mal. Isso cria barreiras sociais onde o simples fato de um alimento ter sido preparado em um ambiente religioso de matriz africana o torna proibido ou "amaldiçoado" para pessoas de outras fés, especialmente no contexto do avanço do neopentecostalismo intolerante.
O mecanismo também opera na esfera pública, como na educação e na política. O termo é usado para criar legislações que proíbem sacrifícios rituais (ignora-se que a carne é consumida pela comunidade) ou para estigmatizar alimentos tradicionais como o acarajé, tentando renomeá-los para "bolinho de Jesus". Essa tentativa de "limpeza" do nome e da origem do alimento visa desvincular a tecnologia gastronômica negra de sua raiz espiritual, permitindo sua apropriação comercial enquanto se mantém o preconceito contra o rito original.
Exemplos
A recusa de acarajé por motivação religiosa: Turistas ou cidadãos que se recusam a provar o bolinho porque a baiana está vestida com trajes de santo, associando o alimento a algo "demoníaco".
Ataques à merenda escolar com azeite de dendê: Pais ou líderes religiosos que protestam contra a inclusão de pratos da cultura afro em escolas alegando que os alunos estão sendo "consagrados à macumba".
Tentativas de mudança de nome: Vendedores que anunciam seus produtos como "acarajé gospel" ou "bolinho de amor" para desvinculá-los da herança de matriz africana e atrair o público cristão intolerante.
Descarte de oferendas em espaços públicos: Pessoas que chutam ou destroem alimentos colocados em encruzilhadas (que são pontos de força religiosa), tratando o sagrado alheio como lixo ou ameaça sanitária.
Quem é afetado
As comunidades de terreiro, o povo de santo e as baianas de acarajé são as principais vítimas desse estigma. O preconceito afeta a viabilidade econômica de trabalhadores que dependem da venda de alimentos tradicionais e gera isolamento social para os praticantes, que muitas vezes precisam esconder sua fé ou a origem de seus banquetes para evitar agressões. Crianças negras em escolas também são afetadas quando o lanche que trazem ou a merenda oferecida é alvo de piadas ou recusas baseadas no medo religioso.
A sociedade como um todo perde ao permitir que o racismo alimentar dite o que é ou não aceitável. O estigma sobre a "comida de macumba" impede que a riqueza nutricional e o patrimônio imaterial da culinária preta sejam reconhecidos como parte fundamental da civilização brasileira. Cria-se um ambiente de segregação onde o alimento, em vez de ser um ponto de encontro e diálogo cultural, torna-se um marcador de exclusão e ódio.
Por que é invisível
A expressão é invisibilizada por estar diluída no cotidiano como uma "opinião pessoal" ou "liberdade religiosa". A pessoa que se recusa a comer algo "porque foi oferecido para o santo" raramente percebe sua atitude como racista, camuflando o preconceito sob o manto de uma restrição espiritual privada. A linguagem cotidiana usa o termo "macumba" como sinônimo de algo genérico, o que ajuda a despolitizar o ataque específico feito à gastronomia litúrgica.
Além disso, a invisibilidade é mantida pelo desconhecimento sistêmico sobre o que acontece dentro de um terreiro. Como a culinária sagrada é cercada de segredos iniciáticos, o imaginário popular é preenchido por mentiras e exageros sensacionalistas propagados por grupos que buscam a hegemonia religiosa no Brasil. Sem uma educação que valorize a diversidade cultural, a "comida de macumba" permanece no lugar do mistério assustador em vez de ser vista pelo que é: uma das cozinhas mais sofisticadas e generosas do mundo.
Efeitos
- Interdição do consumo e insegurança econômica: Queda na venda de produtos de matriz africana por medo infundado dos consumidores.
- Dano à saúde mental de praticantes: Sentimentos de vergonha, medo e necessidade de esconder a própria cultura para evitar bullying e exclusão.
- Apropriação e branqueamento cultural: Tentativas de renomear alimentos ancestrais para que possam ser consumidos pela "moralidade" dominante sem culpa.
- Aprofundamento da intolerância religiosa: O nojo alimentar serve como prelúdio para a violência física contra templos e fiéis.
Autores brasileiros
- Vagner Gonçalves da Silva
- Josimar Silva
