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Intolerância religiosa

Hostilidade e perseguição contra práticas espirituais, especialmente contra religiões de matriz africana no Brasil.

ReligiãoRaçaDireitos HumanosPoderSociedade

Definição

A intolerância religiosa é a atitude de hostilidade, discriminação, ódio ou violência dirigida contra indivíduos, grupos ou instituições devido às suas crenças ou práticas espirituais. No Brasil, embora o termo seja genérico, a intolerância manifesta-se de forma desproporcional e violenta contra as religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda), configurando o que pesquisadores chamam de racismo religioso. Trata-se de um projeto de manutenção da hegemonia cristã que utiliza a demonização do outro para justificar a depredação de templos, o cerceamento da liberdade de culto e a agressão física contra praticantes, visando o apagamento da herança cultural e espiritual negra no país.

O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva e o babalorixá e professor Sidnei Nogueira são referências centrais ao demonstrarem que a intolerância religiosa brasileira não é um "conflito teológico", mas uma ferramenta de controle racial e social. A laicidade do Estado, embora prevista na Constituição, é constantemente violada por políticas públicas e discursos institucionais que privilegiam a simbologia católica e neopentecostal em detrimento da diversidade. Internacionalmente, José Casanova analisa como a religião é utilizada para traçar fronteiras de "pertencimento" e "exclusão" nas democracias modernas.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da demonização do sagrado alheio. O mecanismo opera transformando elementos litúrgicos (como o atabaque, o bori ou o ebó) em símbolos do "mal" ou de "feitiçaria negativa" no imaginário popular. Essa narrativa é massificada por certas vertentes religiosas que utilizam canais de televisão e redes sociais para promover o pânico moral contra os terreiros. Uma vez que o outro é rotulado como "demoníaco", a violência contra ele passa a ser vista pelo agressor não como um crime, mas como uma "guerra espiritual" necessária, o que gera uma perigosa legitimação moral para o ódio.

O mecanismo opera também na esfera institucional e espacial. O Estado frequentemente falha em garantir a segurança dos terreiros em áreas dominadas pelo crime organizado ou por milícias religiosas, que proíbem o uso de roupas de santo ou a manifestação pública da fé. Nas escolas, a intolerância manifesta-se no currículo que ignora a história das religiões afro-brasileiras e no constrangimento de alunos que utilizam fios de conta. A estrutura de poder silencia as queixas das vítimas, tratando casos de crime de ódio como "briga de vizinho" ou "desentendimento privado", o que garante a impunidade e o avanço da perseguição.

Exemplos

  • A expulsão de mães de santo de favelas: Líderes religiosos que são obrigados a abandonar suas casas e terreiros por ordem do tráfico ou de milícias que se autodenominam "exército de Deus".

  • O bullying religioso nas escolas: Professores ou alunos que discriminam crianças que não participam de orações cristãs ou que usam guias de proteção, rotulando-as como "amaldiçoadas".

  • A tentativa de proibição do sacrifício ritual: Movimentos que, sob a máscara da defesa dos animais, tentam impedir práticas litúrgicas milenares, ignorando que a carne é consumida pela comunidade e que o rito é protegido pela Constituição.

  • O silêncio sobre ataques a terreiros na mídia: Casos de vandalismo e incêndios criminosos contra casas de axé que não recebem a mesma cobertura midiática ou indignação pública que ataques a igrejas ou sinagogas.

Quem é afetado

O povo de santo, composto majoritariamente por pessoas negras e periféricas, é o grupo mais atingido por essa violência sistêmica. A intolerância afeta desde crianças nas escolas — vítimas de bullying religioso e exclusão — até anciãos e lideranças religiosas que veem seus territórios sagrados serem invadidos e destruídos. O impacto é também econômico, atingindo artesãos, produtores de ervas e outros trabalhadores que dependem da economia dos terreiros. Mulheres de axé, que frequentemente são as guardiãs da tradição, sofrem uma dupla desvalorização que une o machismo ao preconceito religioso.

Toda a sociedade brasileira é afetada pelo empobrecimento cultural e pela erosão da democracia. O ataque às religiões de matriz africana é um ataque ao patrimônio imaterial do Brasil e aos direitos humanos fundamentais. Quando a liberdade de crença de um grupo é cerceada com violência, a liberdade de todos os cidadãos entra em risco, pois abre-se precedência para que a força bruta determine qual pensamento ou fé tem direito de existir no espaço público. A intolerância destrói a possibilidade de diálogo inter-religioso e fomenta um clima de vigilância e medo que fragmenta a coesão social.

Por que é invisível

A intolerância religiosa é invisibilizada por ser apresentada como "liberdade de expressão religiosa" do agressor. Quem ataca um terreiro ou insulta um praticante muitas vezes alega estar "pregando sua fé" ou "combatendo o mal", transformando o crime de injúria racial e religiosa em um ato de "devoção". Essa inversão narrativa confunde a opinião pública e dificulta a aplicação das leis. A invisibilidade é reforçada pela subnotificação de casos, já que muitas vítimas temem represálias maiores ou acreditam que o sistema judiciário não as protegerá devido ao racismo estrutural das polícias.

Além disso, a invisibilidade decorre da folclorização do sagrado afro-brasileiro. A sociedade trata elementos do Candomblé e da Umbanda como curiosidades turísticas ou manifestações puramente artísticas, mas recusa-se a reconhecê-los como religiões legítimas e complexas. Ao retirar o status de religião desses sistemas de crença, a sociedade retira deles também a proteção jurídica e o respeito institucional devidos. Essa estratégia de "diminuir" a fé do outro facilita que ataques violentos sejam vistos como menos graves do que se fossem dirigidos a templos cristãos tradicionais.

Efeitos

  • Destruição de patrimônio histórico e cultural: Perda de templos centenários e objetos rituais únicos durante invasões violentas.
  • Trauma psicológico e isolamento social: Praticantes que deixam de usar trajes sagrados na rua ou que escondem sua fé por medo de agressões e demissões.
  • Limitação do direito de ir e vir: Imposição de "currais religiosos" em comunidades dominadas por milícias que proíbem cultos afro-brasileiros.
  • Erosão da laicidade do Estado: Avanço de pautas religiosas exclusivistas na educação e na política, que ignoram a diversidade de crenças do povo brasileiro.

Autores brasileiros

  • Vagner Gonçalves da Silva
  • Sidnei Nogueira
  • Ivanir dos Santos

Autores estrangeiros

  • José Casanova

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