Cultura do estupro
A cultura do estupro é um termo usado para descrever um ambiente social no qual a violência sexual é normalizada, banalizada e justificada através de atitudes, normas e práticas que culpabilizam as vítimas e objetificam os corpos femininos.
Definição
Cultura do estupro é o conceito sociológico que descreve uma sociedade onde a violência sexual é sistêmica e culturalmente tolerada. Diferente da ideia de que o estupro é apenas um ato isolado de um indivíduo doente, a teoria da cultura do estupro postula que o crime é o resultado lógico de um ambiente que encoraja a agressão masculina e desvaloriza a autonomia feminina. No Brasil, a socióloga Heleieth Saffioti foi pioneira ao analisar como o patriarcado fornece a "legitimidade" para que homens exerçam poder sobre os corpos das mulheres, transformando a sexualidade em um campo de dominação.
A filósofa Marilena Chauí complementa essa visão ao explicar que a violência de gênero é sustentada por mitos que a tornam invisível ou aceitável. Se a sociedade acredita que "homem não consegue controlar seus instintos" ou que "mulheres dizem não querendo dizer sim", o estupro deixa de ser visto como uma violação de direitos humanos e passa a ser interpretado como um "mal-entendido" ou uma fatalidade biológica. Essa estrutura cultural retira a responsabilidade do agressor e a transfere para o comportamento, a roupa ou o histórico sexual da vítima.
Como funciona
A cultura do estupro opera através de um ciclo de normalização que começa na linguagem e termina na impunidade jurídica. Funciona através de "piadas" que ridicularizam a violência, da objetificação na mídia e da educação de meninos para serem sexualmente agressivos como prova de virilidade. Quando o ato ocorre, o mecanismo social de defesa do agressor é ativado automaticamente: questiona-se a veracidade do relato da vítima, sua sanidade mental e sua moralidade.
O funcionamento dessa cultura depende da manutenção do medo. Debora Diniz aponta que o medo constante da violência sexual restringe a liberdade de movimento das mulheres, impedindo-as de ocupar o espaço público com a mesma segurança dos homens. Além disso, o sistema de justiça frequentemente atua como um braço dessa cultura, submetendo vítimas a interrogatórios humilhantes que focam em julgar sua "honra" em vez de investigar o crime, processo conhecido como revitimização institucional.
Exemplos
Comentários em redes sociais ou rodas de conversa que questionam "o que ela estava vestindo" ou "por que ela estava bêbada" ao saberem de um caso de estupro.
A "zona cinzenta" do consentimento em festas universitárias, onde abusar de alguém inconsciente ou alcoolizado é tratado como uma conquista e não como crime.
A romantização de cenas de violência sexual em novelas, filmes e livros, onde o protagonista masculino força a mulher ao sexo e isso é retratado como uma "paixão incontrolável".
A desqualificação da palavra da vítima no tribunal, onde advogados de defesa utilizam fotos de redes sociais da mulher para provar que ela "não é santa" e, portanto, não poderia ter sido estuprada.
Quem é afetado
Embora mulheres e meninas sejam as vítimas primárias (no Brasil, dados de 2024 indicam que a maioria absoluta das vítimas são do sexo feminino e mais da metade tem menos de 13 anos), a cultura do estupro também afeta homens e meninos, que também podem ser vítimas de violência sexual e sofrem com o silenciamento imposto pela masculinidade tóxica. O recorte racial é fundamental para entender o fenômeno: mulheres negras sofrem taxas desproporcionalmente maiores de violência sexual e encontram barreiras ainda mais rígidas para acessar a justiça e o acolhimento, sendo frequentemente hipersexualizadas desde a infância devido ao racismo estrutural.
Por que é invisível
A cultura do estupro é paradoxalmente visível e invisível. Ela é visível nos números alarmantes de casos anuais, mas invisível em suas causas profundas porque a violência sexual é frequentemente romantizada ou naturalizada. A invisibilidade é garantida por eufemismos: assédio é chamado de "cantada", coerção é chamada de "persistência" e estupro conjugal é tratado como "dever matrimonial". A sociedade recusa-se a enxergar o estuprador como um "cidadão comum" (o pai, o tio, o amigo), preferindo a narrativa do "monstro desconhecido no beco escuro", o que mascara o fato de que a maioria dos estupros ocorre dentro de casa e é perpetrada por conhecidos.
Efeitos
Os efeitos são a perpetuação da violência e a destruição da cidadania plena das mulheres. Psicologicamente, as vítimas desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), depressão, ansiedade e dificuldades em relacionamentos futuros. Socialmente, cria-se uma geração de mulheres que vivem em estado de alerta permanente, gerenciando riscos em cada interação cotidiana. A cultura do estupro também corrói o tecido social ao normalizar a falta de consentimento como base das relações, ensinando que o desejo de um vale mais que a integridade do outro.
Autores brasileiros
- Heleieth Saffioti
- Marilena Chauí
- Debora Diniz
- Manoela Miklos
Autores estrangeiros
- Susan Brownmiller
- Emilie Buchwald
