Cyberbullying
Extensão virtual da intimidação sistemática, onde a agressão ocorre através de telas e redes, potencializada pela permanência dos registros, o alcance ilimitado da plateia e a sensação de impunidade proporcionada pelo anonimato.
Definição
O cyberbullying transcende a definição de "bullying online". Trata-se de uma violência psicológica sistemática que invade o único espaço onde a vítima costumava estar segura: sua própria casa. Diferente do bullying presencial, que cessa quando o sinal da escola toca, a agressão digital é onipresente (24 horas por dia), replicável (o conteúdo pode ser compartilhado infinitamente) e indelével (o registro digital raramente desaparece por completo).
No Brasil, a Lei 14.811/2024 criminalizou especificamente o cyberbullying, reconhecendo sua gravidade ao prever penas mais duras do que para o bullying tradicional. Isso reflete o entendimento de que a "plateia infinita" da internet amplia o dano psíquico, levando a consequências devastadoras como evasão escolar, transtornos de ansiedade severos e, em casos extremos, ao suicídio. O fenômeno é alimentado pela desinibição online, onde o agressor, protegido por uma tela, perde a empatia por não ver a reação de dor da vítima.
Como funciona
O mecanismo central do cyberbullying é a assimetria de poder gerada não pela força física, mas pelo domínio tecnológico e social. Ele opera através da repetição e da disseminação. Um rumor ou uma imagem humilhante é lançado em grupos de mensagens ou redes sociais e, em minutos, foge do controle do emissor original, sendo compartilhado por "espectadores" que, muitas vezes sem intenção direta de ferir, participam da agressão ao dar likes ou repostar.
As táticas variam desde a exclusão deliberada de grupos sociais online até ataques diretos e coordenados. A percepção de anonimato (seja por perfis falsos ou pela distância física) encoraja o agressor a dizer coisas que jamais diria cara a cara. Além disso, a falta de supervisão adulta eficaz em ambientes digitais cria "zonas sem lei" onde a crueldade é normalizada como "brincadeira" ou "liberdade de expressão".
Exemplos
Perfis Falsos (Fakes): Criação de contas em redes sociais usando o nome e fotos da vítima para postar conteúdo ofensivo ou ridículo, fazendo com que ela pareça a autora das postagens.
Exclusão Digital: Criar grupos da turma no WhatsApp propositalmente deixando apenas um colega de fora para combinar festas e atividades, isolando-o socialmente.
Vazamento de Intimidade: Compartilhar segredos confiados em conversas privadas (prints) ou fotos íntimas para humilhar a vítima perante a escola ou comunidade.
Ataques Coordenados (Raids): Combinar com vários usuários para comentar insultos massivamente em uma foto ou postagem da vítima, tornando sua presença online insuportável.
Sextortion: Ameaçar divulgar fotos íntimas (reais ou montagens) caso a vítima não cumpra determinadas ordens ou envie mais conteúdo.
Quem é afetado
Embora seja frequentemente associado a crianças e adolescentes em idade escolar, o cyberbullying atinge também universitários e profissionais (muitas vezes sob a roupagem de assédio moral ou linchamento virtual). Contudo, o impacto é desproporcionalmente maior em jovens em formação identitária. Grupos minoritários (LGBTQIA+, negros, pessoas com deficiência) são alvos preferenciais, sofrendo ataques que misturam humilhação pessoal com discursos de ódio estruturais (racismo, homofobia, capacitismo).
Por que é invisível
A invisibilidade do cyberbullying reside no fato de que ele ocorre em telas privadas, muitas vezes bloqueadas para os pais e professores. As vítimas tendem a sofrer em silêncio por vergonha ou medo de terem seus dispositivos confiscados pelos responsáveis como forma de "proteção". Diferente de um olho roxo ou uma roupa rasgada, as cicatrizes do cyberbullying são internas. As escolas, muitas vezes, alegam que o que acontece fora de seus portões (na internet) não é de sua responsabilidade, criando um vácuo de acolhimento onde a violência prospera sem intervenção.
Efeitos
Os efeitos são profundos e duradouros. A vítima vive em estado de alerta constante (hipervigilância), temendo a próxima notificação do celular. Isso leva a quadros de depressão, transtornos do sono, queda abrupta no rendimento escolar e isolamento social. O sentimento de impotência é ampliado pela dificuldade em remover o conteúdo ofensivo da rede, gerando uma sensação de condenação perpétua.
Autores brasileiros
- Maria Tereza Maldonado
- Luciene Tognetta
- Ana Beatriz Barbosa
Autores estrangeiros
- Sameer Hinduja
- Justin Patchin
- Dan Olweus
