Dermatologia eurocentrada
Viés histórico e estrutural na dermatologia que prioriza o estudo, diagnóstico e tratamento de condições em peles claras, negligenciando as particularidades da pele negra. Resulta em diagnósticos inadequados, subnotificação de doenças, tratamentos ineficazes e invisibilidade de médicos e pacientes negros, perpetuando o racismo na saúde.
Definição
A dermatologia eurocentrada refere-se ao viés estrutural na medicina dermatológica que utiliza a pele branca como o padrão universal para o estudo, diagnóstico e tratamento de doenças cutâneas. Esse fenômeno manifesta-se desde a formação acadêmica — onde a maioria dos atlas e livros didáticos ilustra patologias quase exclusivamente em pessoas de pele clara — até a prática clínica, resultando em dificuldades para identificar manifestações de doenças em peles retintas, onde a vermelhidão (eritema), por exemplo, pode se apresentar de forma acinzentada ou violácea.
No Brasil, dermatologistas como a dra. Katleen Conceição e o dr. André Moreira são referências na denúncia desse modelo e na promoção da "dermatologia para pele negra", termo utilizado para destacar que a pele retinta possui fisiologia, cicatrização e necessidades específicas que são ignoradas pelo ensino tradicional. Internacionalmente, organizações como a Skin of Color Society lutam para incluir a diversidade étnico-racial nos currículos médicos, combatendo o racismo institucional que compromete a saúde de bilhões de pessoas ao redor do mundo.
Como funciona
A dermatologia eurocentrada funciona por meio de um processo de invisibilidade pedagógica. Médicos são treinados para buscar padrões visuais (como o "tom rosado" de uma inflamação) que não se aplicam a peles escuras. Isso cria um gap de conhecimento onde o profissional, diante de um paciente negro, pode subestimar a gravidade de uma lesão ou prescrever tratamentos laser e químicos que funcionam em peles claras, mas que causam manchas (hiperpigmentação) ou cicatrizes permanentes em peles com mais melanina.
Além disso, a indústria farmacêutica e de cosméticos reforça esse viés ao desenvolver e testar produtos em sua maioria em populações europeias ou norte-americanas brancas. A falta de representatividade em estudos clínicos faz com que a segurança e a eficácia de muitos tratamentos para a pele negra sejam desconhecidas, perpetuando uma medicina de "tentativa e erro" para pacientes não brancos.
Exemplos
Atlas médicos monocromáticos: Livros de dermatologia amplamente usados em universidades onde 95% das imagens de doenças são de pele branca, deixando o estudante sem referência para identificar as mesmas patologias em negros.
O erro do diagnóstico de micose: Confundir manchas de vitiligo ou lepra (hanseníase) em peles negras com simples micoses devido à alteração de cor que não segue o padrão "clássico" ensinado.
Negligência em áreas periféricas: Não examinar as unhas, palmas e solas de pacientes negros em busca de manchas suspeitas, sob a falsa premissa de que negros "não têm câncer de pele".
Marketing de protetor solar: Produtos que deixam um resíduo esbranquiçado ("white cast") na pele negra, tornando-os esteticamente inviáveis para uso diário e desestimulando a fotoproteção nesse público.
Quem é afetado
As pessoas negras (pretas e pardas) são as principais afetadas, enfrentando diagnósticos tardios de doenças graves, como o câncer de pele (melanoma acral), que em peles negras costuma aparecer em áreas menos expostas ao sol, como as palmas das mãos e solas dos pés, e é frequentemente confundido com simples manchas ou hematomas. Pessoas indígenas e asiáticas com fototipos mais altos também sofrem com a falta de protocolos específicos para suas peles.
O impacto se estende à saúde mental desses pacientes, que muitas vezes não se sentem acolhidos pelo sistema de saúde ou sofrem danos estéticos irreversíveis por erros médicos básicos. Médicos negros também são afetados, pois precisam buscar especialização fora do currículo padrão para atender adequadamente sua própria comunidade, enfrentando a resistência de um campo acadêmico que ainda vê a pele negra como um "anexo" ou uma "exceção" ao padrão branco.
Por que é invisível
A dermatologia eurocentrada é invisibilizada pela crença de que a medicina é uma ciência "neutra" e "objetiva". Alega-se que as doenças são as mesmas, independentemente da cor da pele, ignorando que os marcadores visuais dessas doenças mudam drasticamente conforme o tom de pele. Como a brancura é a norma invisível, a falta de fotos de peles negras nos livros não é questionada pela maioria dos estudantes.
Além disso, a narrativa de que "câncer de pele é coisa de quem toma muito sol e é clarinho" cria uma falsa sensação de segurança em pessoas negras e uma negligência ativa em profissionais de saúde. Essa desinformação faz com que sinais de alerta em peles escuras sejam ignorados tanto pelo paciente quanto pelo médico, tornando o racismo médico um assassino silencioso travestido de "falta de casuística" ou "raridade estatística".
Efeitos
- Mortalidade elevada por câncer de pele: Pessoas negras morrem mais de melanoma do que brancas devido ao diagnóstico em estágios avançados.
- Danos iatrogênicos: Queimaduras e manchas causadas por procedimentos estéticos (como laser e peeling) realizados sem considerar a sensibilidade melanínica da pele negra.
- Tratamentos ineficazes: Prescrição de cremes e pomadas que não penetram adequadamente ou que não tratam as causas específicas de doenças comuns em peles negras, como a pseudofoliculite da barba.
- Afastamento do sistema de saúde: Perda de confiança do paciente negro na dermatologia, levando à automedicação ou ao agravamento de condições tratáveis.
Autores brasileiros
- Katleen Conceição
- André Moreira
- Cauê Cedar
Autores estrangeiros
- Skin of Color Society
