Desvalorização da docência
A desvalorização da docência é um fenômeno multidimensional que envolve a precarização das condições de trabalho, a perda de prestígio social e a baixa remuneração dos professores. Este processo é agravado pela feminização da carreira e por políticas neoliberais que tratam a educação como mercadoria e o professor como técnico executor, retirando sua autonomia intelectual.
Definição
A desvalorização da docência não é um acidente, mas um projeto político e econômico. Ela se manifesta na redução do professor a um mero repassador de conteúdos padronizados, destituído de sua função crítica e intelectual. Autores como Michael Apple chamam esse processo de "proletarização docente", onde o controle sobre o currículo e os métodos é retirado das mãos dos educadores e centralizado em sistemas apostilados ou plataformas digitais geridas por grandes corporações.
No Brasil, esse fenômeno ganha contornos específicos devido à histórica feminização da profissão, especialmente na educação básica. Como aponta a literatura sobre trabalho reprodutivo e cuidado, profissões vistas como "extensão da maternidade" ou "vocação feminina" tendem a ser pior remuneradas e menos prestigiadas socialmente. Valeska Zanello nos lembra que o cuidado é desvalorizado no capitalismo, e a docência, sendo uma forma sofisticada de cuidado intelectual e humano, sofre desse mesmo estigma. A desvalorização, portanto, é também uma questão de gênero.
Como funciona
Funciona através de um ciclo vicioso de sobrecarga e esvaziamento de sentido. A precarização impõe jornadas exaustivas em múltiplas escolas para compor um salário digno, o que impede o professor de se dedicar à pesquisa, ao planejamento de qualidade e ao atendimento individualizado dos alunos. Paralelamente, discursos midiáticos e políticos culpam os professores pelos fracassos educacionais, ignorando a falta de infraestrutura e investimento.
A "tomada de conta" ideológica das escolas, denunciada por Henry Giroux e Michael Apple, transforma a educação em treinamento para o mercado. O professor é vigiado e cobrado por metas de produtividade (notas em exames padronizados) como se estivesse em uma linha de montagem. Isso gera adoecimento (síndrome de burnout) e evasão da carreira, pois o profissional percebe que sua autonomia e sua saúde não importam para o sistema.
Exemplos
O piso salarial nacional do magistério sendo desrespeitado por diversos estados e municípios municipais sob a alegação de falta de verbas.
Professores tendo que comprar materiais didáticos (canetas, papel, livros) com o próprio salário porque a escola não fornece o básico.
A contratação massiva de professores temporários sem direitos trabalhistas plenos ou estabilidade, criando uma classe de "nômades" da educação que não conseguem criar vínculos com a comunidade escolar.
Discursos políticos que incentivam alunos a filmarem e denunciarem professores por "doutrinação", criando um clima de terror e censura em sala de aula (movimento Escola Sem Partido).
Quem é afetado
Os professores são os afetados diretos, sofrendo com baixos salários, doenças laborais (como problemas vocais e psíquicos) e violência nas escolas. Mas a sociedade inteira é afetada. A desvalorização docente afasta os jovens talentos da carreira, criando "apagões" de professores em áreas críticas como física, matemática e química. Os estudantes, especialmente os da escola pública, recebem uma educação fragilizada, ministrada por profissionais exaustos ou sem formação específica, o que perpetua o ciclo da desigualdade social e educacional analisado por Maria Alice Nogueira e Bourdieu.
Por que é invisível
A desvalorização é invisibilizada pelo discurso da "vocação" e do "amor à profissão". A sociedade elogia o professor "herói" que faz milagres com giz e lousa caindo aos pedaços, romantizando a precariedade em vez de exigir dignidade profissional. Esse discurso sentimental serve para justificar a falta de pagamento adequado: "ele não faz pelo dinheiro, faz por amor". Além disso, a precarização é naturalizada como parte da "crise econômica", escondendo que é uma escolha de alocação de recursos públicos que prioriza outros setores (como o pagamento da dívida pública) em detrimento da educação.
Efeitos
Os efeitos são o adoecimento em massa da categoria (o Brasil tem índices alarmantes de afastamento de professores por transtornos mentais), a queda na qualidade do ensino e a desprofissionalização. Ocorre uma "fuga de cérebros" da sala de aula. A longo prazo, a desvalorização da docência compromete a democracia e o desenvolvimento nacional, pois não há nação soberana sem um sistema educacional forte, e não há educação forte com professores humilhados e empobrecidos.
Autores brasileiros
- Maria Alice Nogueira
- Valeska Zanello
- Dermeval Saviani
Autores estrangeiros
- Michael Apple
- Pierre Bourdieu
- Henry Giroux
