Duplo padrão parental
Disparidade de expectativas sociais aplicadas a pais e mães, onde a ausência paterna é normalizada enquanto a ausência materna é severamente condenada e estigmatizada.
Definição
O duplo padrão parental é a disparidade estrutural entre as expectativas, cobranças e julgamentos sociais direcionados a pais (homens) e mães (mulheres). Esse fenômeno estabelece um "piso" muito baixo para a paternidade, onde qualquer envolvimento básico do homem é celebrado como heroísmo, e um "teto" inalcançável para a maternidade, onde qualquer falha ou necessidade de autonomia da mulher é punida com estigmatização e culpa. O duplo padrão naturaliza o cuidado como um destino biológico feminino e a provisão financeira como o único dever masculino.
No Brasil, a socióloga Heleieth Saffioti e a psicóloga Valeska Zanello discutem como o patriarcado e o capitalismo se beneficiam da exploração do trabalho doméstico gratuito das mulheres, sustentada por esse duplo padrão. Zanello destaca o "dispositivo materno" como uma tecnologia de gênero que faz com que as mulheres se sintam ontologicamente obrigadas ao sacrifício, enquanto a paternidade é vivida por muitos homens como um "acessório" da identidade, e não como sua essência.
Como funciona
A dinâmica funciona por meio de uma assimetria de reconhecimento. Quando um pai leva o filho ao parquinho ou troca uma fralda em público, ele recebe elogios e é visto como um "super pai". Quando uma mãe faz o mesmo (e todas as outras centenas de tarefas diárias), ela não recebe reconhecimento, pois está apenas "cumprindo sua obrigação". O mecanismo inverte-se na falha: se uma criança se machuca ou vai mal na escola, a sociedade pergunta "onde estava a mãe?", raramente questionando a ausência do pai.
O duplo padrão parental também opera no mercado de trabalho e nas leis. Licenças-paternidade curtíssimas (em contraste com as de maternidade) reforçam a ideia de que o homem é um estranho no ninho do cuidado. Essa estrutura empurra a mulher para a sobrecarga da "carga mental" (gerenciar consultas, vacinas, uniformes), enquanto o homem, na melhor das hipóteses, ocupa o lugar do "ajudante" que só age sob comando, eximindo-se da responsabilidade estratégica pela criação dos filhos.
Exemplos
A pergunta seletiva em entrevistas: Perguntar para uma candidata a emprego "com quem ficarão seus filhos?", uma pergunta que quase nunca é feita a candidatos homens.
O pai de parquinho: Um homem receber aplausos por levar os filhos para brincar no domingo, enquanto a mãe que faz o mesmo no restante da semana é invisível ou criticada se a criança estiver com a roupa suja.
O "ajudante" de casa: Homens que dizem "eu ajudo minha esposa nos fins de semana", tratando a responsabilidade pelos filhos como um favor prestado à mulher, e não como um dever próprio.
O julgamento do lazer materno: Uma mãe ser criticada por viajar ou sair com amigas "sem as crianças", enquanto viagens de negócios ou lazer de pais são vistas como naturais e necessárias.
Quem é afetado
As mães são as principais afetadas, sofrendo de exaustão crônica, perda de oportunidades de carreira (penalidade da maternidade) e um sentimento constante de insuficiência (a "mãe culpada"). O duplo padrão parental é um dos principais motores do adoecimento mental feminino. Mulheres solo (muitas vezes erroneamente chamadas de "mães solteiras") enfrentam a versão mais cruel desse padrão, carregando sozinhas a responsabilidade que deveria ser partilhada, enquanto o genitor ausente frequentemente circula socialmente sem sofrer grandes sanções morais.
As crianças também são afetadas, pois crescem em um ambiente que reproduz a desigualdade de gênero e as priva de um vínculo afetivo profundo e responsável com o pai. Os homens também perdem ao serem desencorajados de exercer uma paternidade ativa e afetuosa, ficando restritos ao papel frio de provedor ou "disciplinador", o que limita seu próprio desenvolvimento humano e emocional e empobrece suas relações familiares no longo prazo.
Por que é invisível
O duplo padrão parental é invisibilizado pela romantização da maternidade. Discursos que celebram o "amor de mãe que tudo suporta" servem para mascarar a falta de políticas públicas e de divisão igualitária de tarefas. Ao transformar a sobrecarga materna em um "dom divino", a sociedade retira a responsabilidade dos homens e do Estado de prover suporte real, tornando a reclamação feminina um sinal de que ela "não nasceu para ser mãe".
Além disso, a invisibilidade é mantida pela linguagem. Usamos expressões como "ele ajuda muito" ou "ele é um paizão só porque leva na escola", o que reforça a ideia de que o cuidado não é um dever inerente ao homem. Como essas percepções são compartilhadas não apenas por homens, mas por outras mulheres e pelas próprias mães (devido à socialização de gênero), o duplo padrão é reproduzido diariamente sem ser nomeado como uma injustiça estrutural.
Efeitos
- Sobrecarga física e mental materna: Esgotamento decorrente da jornada tripla e da gestão solitária do lar e dos filhos.
- Disfunção na carreira feminina: Mães são preteridas em promoções devido ao preconceito de que seriam "menos comprometidas" com o trabalho remunerado.
- Normalização do abandono afetivo-paterno: Aceitação social de pais que não conhecem a rotina dos filhos ou que só os veem em horários de lazer.
- Perpetuação do ciclo de desigualdade: Filhos que crescem vendo esse modelo tendem a reproduzi-lo em suas futuras famílias, repetindo o padrão de "mãe heroína/exusta" e "pai ausente/celebrado".
Autores brasileiros
- Heleieth Saffioti
- Valeska Zanello
Autores estrangeiros
- Sylvia Walby
- Judith Butler
