Extrativismo intelectual
Uma relação parasitária entre orientador e orientando, ou entre pesquisadores do Norte Global e do Sul Global. O pesquisador sênior "extrai" os dados, a força de trabalho e as ideias inovadoras do aluno (ou da comunidade indígena/periférica), coloca seu nome como primeiro autor e devolve pouco ou nada àqueles que produziram o conhecimento. É a lógica colonial aplicada à produção de papers.
Definição
O extrativismo intelectual é uma prática predatória de produção de conhecimento que mimetiza a lógica do extrativismo mineral ou agrícola: retira-se a "matéria-prima" intelectual (ideias, dados, vivências, tecnologias ancestrais ou força de trabalho de pesquisa) de um grupo ou indivíduo subalternizado sem a devida contrapartida, reconhecimento ou benefício para quem originou o saber. Na academia, manifesta-se frequentemente em relações parasitárias entre orientadores e orientandos, ou entre pesquisadores do Norte Global que utilizam o Sul Global como mero campo de coleta de dados, publicando resultados em círculos de prestígio dos quais os produtores originais são excluídos.
Internacionalmente, a pensadora indígena Leanne Betasamosake Simpson descreve o extrativismo intelectual como uma ferramenta da colonialidade que busca "objetificar" saberes ancestrais para que possam ser consumidos pelo mercado acadêmico ocidental. No Brasil, autores como Joazeardino Britto discutem como essa lógica se entranha nas universidades brasileiras, perpetuando o silenciamento de pesquisadores negros, periféricos e indígenas, cujas inovações são frequentemente capturadas por acadêmicos brancos de prestígio que as renomeiam e as apresentam como "descobertas individuais" ou "teorias inovadoras".
Como funciona
O extrativismo intelectual funciona por meio da desapropriação da autoria. O pesquisador ou instituição em posição de poder utiliza sua infraestrutura e prestígio para legitimar um conhecimento que não lhe pertence originalmente. Em um nível institucional, isso ocorre quando universidades financiam pesquisas que exploram comunidades tradicionais, extraindo segredos sobre biodiversidade ou dinâmicas sociais, mas cujos resultados (papers, patentes ou prestígio) nunca retornam para fortalecer a agência daquelas comunidades.
No microambiente acadêmico, o mecanismo opera na exploração da força de trabalho de estudantes de pós-graduação ou pesquisadores juniores. O orientador "extrai" a dedicação exclusiva e as ideias originais do aluno, colocando seu próprio nome como autor principal em publicações, enquanto o aluno é relegado a notas de rodapé ou agradecimentos. Essa dinâmica é normalizada pela "tradição acadêmica", que confunde a função de orientação com o direito de propriedade intelectual sobre o trabalho alheio, criando um ambiente de silenciamento e medo de represálias para quem é explorado.
Exemplos
A "assinatura de cortesia" obrigatória: Casos em que o orientador exige ser o primeiro autor de um capítulo de tese escrito inteiramente pelo aluno, sob o pretexto de que sua supervisão vale mais que a execução e a redação.
Apropriação de saberes em ONGs e Projetos: Profissionais de classe média que coletam métodos de organização de coletivos periféricos e os vendem para empresas como "metodologias de inovação social" sem remunerar os coletivos originais.
Safáris acadêmicos no Sul Global: Pesquisadores europeus ou americanos que vêm ao Brasil para coletar amostras biológicas ou entrevistas e publicam em inglês em revistas fechadas, às quais as comunidades estudadas jamais terão acesso.
O roubo de ideias em reuniões: Situações onde a ideia disruptiva de um pesquisador júnior é ignorada em grupo, para ser repetida minutos depois (ou em um projeto posterior) por um pesquisador sênior como se fosse sua, recebendo o crédito da audiência.规律。
Quem é afetado
Os principais afetados são pesquisadores em início de carreira, estudantes de minorias sociais (negros, indígenas, mulheres, pessoas LGBTQIA+) e comunidades tradicionais que são alvo de biopirataria ou estudos antropológicos extrativistas. Esses indivíduos veem seu capital intelectual ser drenado para sustentar as carreiras de quem já detém o poder simbólico. O impacto é a exclusão permanente de talentos que não toleram esse sistema parasitário, gerando uma fuga de cérebros ou o abandono da carreira acadêmica por esgotamento e sentimento de injustiça.
As comunidades periféricas e indígenas também são afetadas ao serem transformadas em "laboratórios vivos", onde suas soluções para problemas complexos são roubadas e patenteadas por terceiros. Isso impede que esses grupos alcancem soberania intelectual e econômica sobre seus próprios saberes. Além disso, a ciência como um todo sofre, pois o extrativismo intelectual prioriza a produtividade numérica e o prestígio individual em detrimento da colaboração ética e do impacto social real do conhecimento produzido.
Por que é invisível
O fenômeno é invisibilizado pela hierarquia e pela burocracia do prestígio. A ideia de que o "nome de peso" de um professor sênior é necessário para que um artigo seja aceito em uma revista importante mascara o fato de que aquele professor pode não ter contribuído efetivamente para a pesquisa. A estrutura das universidades, que exige métricas de produtividade agressivas, incentiva chefes de laboratório a se tornarem "gerentes de extrativismo", que assinam dezenas de trabalhos produzidos por outros como se fossem seus.
Além disso, o extrativismo intelectual é muitas vezes travestido de "cooperação técnica" ou "oportunidade de aprendizado". O aluno ou a comunidade explorada são levados a acreditar que o acesso ao pesquisador sênior ou à instituição estrangeira é um privilégio que justifica a entrega gratuita de suas ideias. Como o poder de denúncia está nas mãos de quem já é precarizado, o silêncio é mantido pelo receio de perder bolsas, indicações ou o próprio título acadêmico, garantindo que a prática continue sendo um "segrego aberto" nos corredores universitários.
Efeitos
- Erosão da ética acadêmica: Substituição da troca intelectual autêntica por uma lógica de exploração de mão de obra e ideias.
- Injustiça cognitiva: Concentração de capital simbólico e financeiro em mãos que não produziram o conhecimento original.
- Silenciamento de vozes subalternizadas: Desestímulo a pensadores negros, indígenas e periféricos, que veem suas contribuições serem "branqueadas" ou apropriadas.
- Estagnação criativa: O pesquisador explorado perde a motivação para inovar, sabendo que o crédito e os louros da sua criação serão capturados por outrem.
Autores brasileiros
- Joazeardino Britto
- Moisés Lino e Silva
Autores estrangeiros
- Leanne Betasamosake Simpson
- Grosfoguel
