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Feminismo branco

Perspectiva feminista que prioriza as experiências de mulheres brancas de classe média, negligenciando as opressões adicionais enfrentadas por mulheres de outras raças, etnias e classes sociais.

RaçaGêneroPoderSistêmicoInterseccionalidade

Definição

O feminismo branco é uma vertente do movimento feminista que, embora lute pela igualdade de gênero, ignora como a raça e a classe social criam desigualdades profundas entre as próprias mulheres. Essa perspectiva tende a universalizar a experiência da mulher branca, ocidental e de classe média como se fosse a experiência de todas as mulheres, tratando o patriarcado como uma opressão isolada e uniforme. O feminismo branco falha ao não reconhecer que a brancura é uma posição de privilégio sistêmico que, muitas vezes, faz com que mulheres brancas sejam cúmplices na opressão de mulheres negras, indígenas e racializadas.

No Brasil, a intelectual Lélia Gonzalez foi pioneira ao criticar o "feminismo latifundiário" e propôs a amefricanidade como uma resposta que une raça, classe e gênero. Sueli Carneiro também é fundamental ao denunciar o "branqueamento" das pautas feministas que ignoram, por exemplo, que enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito ao trabalho fora de casa, mulheres negras nunca tiveram o direito de não trabalhar. Internacionalmente, autoras como bell hooks e Angela Davis demonstram que sem a lente da interseccionalidade (termo de Kimberlé Crenshaw), o feminismo torna-se apenas uma estratégia de mulheres brancas para alcançar o mesmo status de poder dos homens brancos.

Como funciona

O feminismo branco funciona por meio da omissão seletiva. Ele foca em pautas que beneficiam diretamente o topo da pirâmide (como a quebra do "teto de vidro" em grandes corporações ou a representação igualitária em cargos políticos), mas silencia sobre as condições de trabalho das mulheres que limpam essas corporações ou cuidam dos filhos dessas líderes. O mecanismo opera tratando a "Mulher" como uma categoria biológica homogênea, o que acaba por apagar as especificidades históricas de dor e resistência das mulheres da periferia global.

Outro mecanismo central é a fragilidade branca dentro dos movimentos sociais. Quando mulheres negras ou indígenas apontam o racismo em um espaço feminista, a reação comum é o desvio do assunto, o choro defensivo ou a acusação de que estão "fragmentando o movimento". Essa dinâmica mantém a liderança e a agenda nas mãos de mulheres brancas, que ditam quais são as "pautas prioritárias", geralmente deixando o combate ao racismo e à exploração econômica como questões secundárias ou "transversais".

Exemplos

  • A luta pelo "direito ao trabalho": No século XX, feministas brancas focavam no acesso ao emprego qualificado, enquanto ignoravam que as mulheres negras já trabalhavam exaustivamente em empregos braçais e domésticos há séculos, sem direitos.

  • O debate sobre o aborto sem recorte de classe: Focar apenas na legalização como liberdade de escolha, sem discutir como o racismo médico e a falta de saneamento básico matam mulheres pobres em procedimentos, mesmo onde o aborto é legalizado.

  • A sororidade seletiva: Mulheres brancas que defendem irmandade entre mulheres no escritório, mas tratam com desdém ou rispidez a empregada doméstica negra que limpa sua casa.

  • Representatividade de fachada: Empresas ou eventos que convidam mulheres brancas para falar sobre diversidade feminina, mas não possuem nenhuma mulher negra em cargos de decisão.

Quem é afetado

As mulheres negras, indígenas, ciganas e de outras etnias racializadas são as maiores vítimas da miopia do feminismo branco. Elas enfrentam o isolamento dentro dos movimentos, tendo que escolher entre lutar contra o racismo (com homens negros) ou contra o machismo (com mulheres brancas), sem que nenhum dos dois espaços acolha a totalidade de sua existência. Mulheres trans e trabalhadoras domésticas também são frequentemente excluídas ou tratadas apenas como objetos de estudo, e não como protagonistas das pautas feministas hegemônicas.

A sociedade como um todo é afetada pela ineficácia das políticas públicas geradas sob a ótica do feminismo branco. Quando se cria uma lei de proteção à mulher que não considera a vulnerabilidade habitacional ou o racismo institucional das polícias, essa lei acaba protegendo apenas as mulheres que já possuem acesso a recursos. O resultado é um movimento que conquista direitos para algumas, enquanto os índices de feminicídio e violência continuam subindo para as mulheres negras e pobres, revelando a falácia da sororidade universal.

Por que é invisível

O feminismo branco é invisibilizado por ser a norma institucional. Ele é o feminismo ensinado nas academias tradicionais, retratado nos filmes de Hollywood e financiado por grandes ONGs internacionais. Por estar no centro do poder, ele não se vê como "branco", mas apenas como "feminismo", tratando qualquer outra vertente (como o feminismo negro ou decolonial) como uma "especificidade" ou um "adjetivo", enquanto ele próprio se arroga o lugar do universal e do neutro.

Além disso, a invisibilidade é mantida pela ideia de que "todas estamos no mesmo barco". Essa frase ignora que, embora estejamos na mesma tempestade, algumas estão em iates e outras estão agarradas a destroços. A negação do privilégio de raça dentro do gênero permite que mulheres brancas se vejam apenas como vítimas do machismo, bloqueando a autocrítica necessária para perceberem como sua posição de classe e raça reproduz lógicas de dominação colonial sobre outras mulheres.

Efeitos

  • Fragmentação da luta feminista: Perda de força política devido à exclusão e ao silenciamento das bases mais numerosas e vulneráveis do movimento.
  • Políticas públicas excludentes: Criação de soluções para problemas de gênero que apenas funcionam para mulheres com estabilidade financeira e social.
  • Perpetuação do racismo institucional: Instituições feministas que possuem quadros de liderança exclusivamente brancos, reproduzindo a segregação que dizem combater.
  • Colonização do saber: Desvalorização de teorias e práticas produzidas por mulheres do Sul Global em favor de modelos importados da Europa e dos Estados Unidos.

Autores brasileiros

  • Lélia Gonzalez
  • Sueli Carneiro
  • Djamila Ribeiro

Autores estrangeiros

  • bell hooks
  • Angela Davis
  • Kimberlé Crenshaw
  • Audre Lorde

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