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Incompetência estratégica

Comportamento deliberado de simulação de inaptidão para evitar tarefas domésticas, transferindo a carga de trabalho para a parceira e perpetuando a divisão desigual.

Definição

A Incompetência Estratégica (do inglês weaponized incompetence ou incompetência armada) refere-se ao comportamento, muitas vezes manipulativo, de fingir inaptidão ou realizar tarefas domésticas e de cuidado de forma propositalmente inadequada para ser eximido dessas responsabilidades. Em vez de admitir que não quer fazer a tarefa, o indivíduo performa uma incapacidade técnica ("não sei estender a roupa direito", "tenho medo de dar banho no bebê"), transferindo o ônus da execução e do gerenciamento (carga mental) para outra pessoa, quase invariavelmente uma mulher.

Não se trata de uma dificuldade real de aprendizado, mas de uma recusa passivo-agressiva em dividir o trabalho reprodutivo. Ao executar mal uma tarefa simples (como deixar a roupa manchada ou "esquecer" de comprar itens da lista), o indivíduo cria um cenário onde é "mais fácil" para a parceira fazer sozinha do que ensinar ou refazer. Autores como Arlie Hochschild analisam isso dentro da dinâmica do "segundo turno" de trabalho feminino. No Brasil, pesquisadoras como Valeska Zanello conectam esse fenômeno ao "dispositivo amoroso" e à maneira como homens são socializados para serem cuidados, enquanto mulheres são socializadas para cuidar.

Como funciona

A incompetência estratégica opera através de um ciclo de sabotagem e resgate. O ciclo começa com a solicitação de participação nas tarefas domésticas. O indivíduo então executa a tarefa com qualidade inaceitável (ex: lavar a louça mas deixar gordura) ou demonstra uma confusão excessiva e infantilizada, exigindo supervisão constante.

Diante do erro ou da demanda excessiva por instruções ("amor, onde fica o sabão?", "como liga o aspirador?"), a mulher, exausta, assume a tarefa para garantir que seja feita corretamente ou simplesmente para parar de ser interrompida. O comportamento é reforçado quando a parceira desiste de delegar, validando a estratégia do homem de que ele é "inerentemente ruim" em serviços domésticos e, portanto, não deve ser cobrado por isso. É uma tática de manutenção de privilégios que preserva o tempo livre masculino às custas do tempo feminino.

Exemplos

  • Um parceiro que, quando solicitado para ir ao supermercado, compra propositalmente as marcas erradas ou itens estragados para garantir que não será pedido novamente.

  • Dizer "você faz muito melhor do que eu" ao limpar a cozinha, usando a lisonja para mascarar a recusa em fazer o trabalho.

  • Perguntar constantemente onde estão guardados objetos de uso diário (tesoura, toalhas), forçando a mulher a interromper o que está fazendo para agir como um "GPS" da casa.

  • Um pai que "não consegue" fazer o bebê dormir ou parar de chorar e devolve a criança para a mãe após poucos minutos de tentativa, alegando que "ela só quer a mãe".

  • No trabalho, um colega que alega não saber formatar uma planilha simples, forçando a colega ao lado a fazer para não atrasar o projeto da equipe.

Quem é afetado

As principais afetadas são as mulheres (esposas, mães, filhas, irmãs) que acabam acumulando uma dupla ou tripla jornada de trabalho. O fenômeno ocorre predominantemente em relações heterossexuais, onde a socialização de gênero tradicional é mais rígida. No entanto, também pode ocorrer em ambientes de trabalho, onde funcionários fingem não saber usar softwares ou processos burocráticos para que colegas (frequentemente mulheres, vistas como mais "organizadas" ou "prestativas") assumam suas funções.

Ironicamente, a incompetência estratégica também afeta o próprio indivíduo que a pratica, atrofiando suas habilidades funcionais de adulto e criando uma dependência infantilizada em relação às mulheres de sua vida, o que pode gerar ressentimento e crises conjugais a longo prazo.

Por que é invisível

A incompetência estratégica é invisibilizada porque se disfarça de característica de personalidade ou falta de jeito. Frases como "homem é assim mesmo", "ele é muito atrapalhado" ou "ele tenta, mas não consegue" naturalizam a recusa em aprender tarefas básicas de sobrevivência adulta. A cultura popular e a publicidade muitas vezes reforçam esse estereótipo do "pai bobão" que não sabe trocar uma fralda sem causar um desastre, tratando como humor o que é, na verdade, negligência deliberada. Além disso, as próprias mulheres muitas vezes assumem a culpa, acreditando que são perfeccionistas demais ou controladoras ("gatekeeping"), quando na verdade estão reagindo a uma sabotagem sistemática.

Efeitos

Os efeitos a longo prazo são devastadores para a saúde mental das mulheres e para a qualidade dos relacionamentos. Para as mulheres, gera exaustão crônica, burnout, ressentimento e a sensação de solidão na vida a dois, pois percebem que não têm um parceiro, mas "outro filho" para cuidar. O acúmulo de carga mental — a necessidade constante de lembrar, planejar e delegar — é um fator significativo de estresse e ansiedade.

Financeiramente, pode prejudicar a carreira das mulheres, que gastam energia mental e tempo em tarefas domésticas que o parceiro se recusa a dividir, limitando sua disponibilidade para o crescimento profissional. No nível relacional, a incompetência estratégica corrói a admiração e o desejo sexual, transformando a dinâmica de casal em uma dinâmica de cuidadora/cuidado.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Judith Butler
  • Erving Goffman
  • Arlie Hochschild

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