Injustiça citacional
Prática sistêmica de excluir ou omitir autores de grupos minorizados (mulheres, negros, Sul Global) nas referências bibliográficas acadêmicas.
Definição
A injustiça citacional refere-se ao desequilíbrio sistemático na atribuição de crédito intelectual em publicações acadêmicas. Ocorre quando pesquisadores (frequentemente homens brancos do Norte Global) tendem a citar preferencialmente outros homens brancos, ignorando contribuições seminais de mulheres, pessoas negras e autores do Sul Global que tratam do mesmo tema. Sara Ahmed define a citação como uma ferramenta de 'memória feminista' — quem citamos define quem consideramos como autoridade no campo e quem permitimos que 'viva' na história do pensamento.
Como funciona
Manifesta-se através de 'cartéis de citação' (grupos que se citam mutuamente), do viés de prestígio e da falta de esforço em diversificar a bibliografia. Isso cria um looping: os mais citados ganham mais prestígio, o que os torna mais citáveis, enquanto acadêmicos negros e periféricos permanecem na zona de sombra.
Exemplos
Um artigo sobre racismo no Brasil que cita apenas autores brancos ou estrangeiros, ignorando obras fundamentais de Lélia Gonzalez ou Sueli Carneiro.
A ocorrência do 'citation gap', onde artigos assinados por mulheres recebem menos citações do que artigos equivalentes assinados por homens em bases de dados como o Web of Science.
O uso de conceitos desenvolvidos por comunidades tradicionais ou periferias sem a devida citação aos autores orgânicos dessas ideias.
Quem é afetado
Mulheres, pesquisadores negros e indígenas, e intelectuais do Sul Global. No Brasil, Lourenço Cardoso analisa como a academia brasileira é um sistema fechado onde brancos citam brancos para manter a hegemonia do pensamento.
Por que é invisível
É justificado como uma questão de 'mérito' ou 'fator de impacto'. Alega-se que se cita quem é 'relevante', sem questionar quem controla as métricas de relevância e os algoritmos de busca de bases de dados acadêmicas.
Efeitos
Morte da memória acadêmica de grupos subalternizados, manutenção da hegemonia eurocêntrica e masculina no saber científico, e barreiras para a progressão de carreira de docentes minoritários.
Autores brasileiros
- Lourenço Cardoso
- Katemari Rosa
Autores estrangeiros
- Sara Ahmed
- Katherine McKittrick
- Molly King
