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Injustiça hermenêutica

Um tipo específico de injustiça epistêmica. Ocorre quando a vítima de uma violência dentro da universidade não consegue fazer com que sua experiência seja entendida socialmente porque faltam conceitos coletivos para descrevê-la. A estrutura acadêmica não criou palavras para validar aquela dor. Carla Akotirene em sua obra sobre Interseccionalidade, trabalha muito a questão da nomeação das opressões. Se a academia não nomeia a dor da mulher negra, essa dor "não existe" cientificamente.

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Definição

A injustiça hermenêutica é um tipo específico de injustiça epistêmica que ocorre quando um indivíduo ou grupo não possui os recursos conceituais — palavras, teorias ou categorias sociais — para compreender e comunicar adequadamente uma experiência de injustiça que está sofrendo. Essa "lacuna no entendimento coletivo" não é aleatória; ela é fruto de uma estrutura de poder que impede que as experiências de grupos marginalizados sejam nomeadas e validadas. Sem um nome para a dor, a vítima permanece em um estado de confusão e isolamento, enquanto o agressor se beneficia da invisibilidade do ato.

O conceito foi formulado pela filósofa Miranda Fricker, que exemplifica o termo através do período em que o "assédio sexual" ainda não havia sido nomeado: as mulheres sofriam a violência, mas não tinham como descrevê-la como um padrão de abuso, tratando-a como um "incidente privado". No Brasil, Carla Akotirene e Sueli Carneiro aplicam essa lógica ao racismo, demonstrando como o mito da democracia racial criou uma injustiça hermenêutica profunda: o negro sofre o racismo, mas a sociedade retira dele as ferramentas conceituais para denunciá-lo, tratando a queixa como "vitimismo" ou "mal-entendido".

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da interdição da nomeação. Grupos dominantes controlam a produção do conhecimento, as leis e a mídia, determinando quais experiências são dignas de nome e estudo. O mecanismo opera mantendo uma obscuridade proposital sobre certas relações de poder. Quando uma nova forma de opressão surge ou é identificada, a estrutura hegemônica reage negando a validade do novo conceito (chamando-o de "ideologia" ou "mimimi"), garantindo que a lacuna hermenêutica permaneça aberta e que a experiência da vítima continue sendo lida como algo puramente subjetivo e sem relevância social.

O mecanismo utiliza também a deslegitimação da fala. Quando a vítima tenta descrever o que sente usando os poucos recursos que possui, ela é considerada ininteligível ou "emocionada demais" pela audiência dominante. Essa falta de entendimento mútuo não é uma falha de comunicação passiva, mas ativa: o ouvinte em posição de poder se recusa a expandir seu horizonte conceitual para incluir a realidade do outro. O resultado é que a vítima acaba internalizando a falta de sentido, chegando a duvidar da própria sanidade ou da gravidade do que viveu, já que não encontra ressonância no mundo ao seu redor.

Exemplos

  • A experiência do "assédio moral" antes dos anos 90: Funcionários eram humilhados e isolados, mas acreditavam que era apenas "rigor da chefia" ou "falta de competência", sem entender que viviam um padrão de abuso organizacional.

  • O silenciamento sobre o "trabalho de cuidado": Mulheres que se sentem exaustas e infelizes no lar, mas não conseguem explicar que sua dor vem de uma exploração econômica e emocional sistêmica, sendo rotuladas apenas como "ingratas".

  • A inviabilização do "racismo recreativo": Pessoas que sofrem com piadas racistas mas são impedidas de denunciá-las porque a sociedade as classifica apenas como "humor", retirando o peso da agressão racial do ato.

  • A ausência de nomes para a "violência obstétrica": Mulheres que saem de partos sentindo-se violadas, mas ouvem de familiares e médicos que "o importante é que o bebê está bem", silenciando a experiência de invasão física sofrida.

Quem é afetado

As minorias sociais (mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBTQIA+, pessoas com deficiência) são as mais afetadas, pois suas vivências são historicamente excluídas dos centros de produção de sentido. Mulheres negras, em especial, enfrentam uma injustiça hermenêutica dupla na intersecção de raça e gênero, onde categorias que explicam o machismo nem sempre dão conta do racismo que sofrem, e vice-versa. Estudantes de origens periféricas em universidades de elite também sofrem esse fenômeno ao tentarem descrever dinâmicas de classe que a academia tradicional se recusa a teorizar.

A sociedade como um todo é afetada pelo empobrecimento cognitivo. Quando uma cultura não possui nomes para as violências que ocorrem em seu seio, ela se torna incapaz de produzir justiça real e de evoluir eticamente. A injustiça hermenêutica protege sistemas obsoletos e violentos, impedindo a inovação social e científica. O conhecimento produzido em um ambiente de injustiça hermenêutica é parcial e enviesado, pois ignora as contribuições e as realidades da maioria da população, mantendo um estado de ignorância institucionalizada.

Por que é invisível

A injustiça hermenêutica é invisibilizada porque se manifesta como uma "falta de algo" e não como uma ação direta óbvia. É o silêncio onde deveria haver uma conversa; é a palavra que falta em um dicionário jurídico ou médico. Como a sociedade tende a acreditar que o que não tem nome não existe, a dor sem conceito é tratada como inexistente. O discurso da "neutralidade científica" e da "objetividade" também contribui para essa invisibilidade, ao tratar categorias dominantes como naturais e categorias insurgentes como "políticas" ou "identitárias".

Além disso, a invisibilidade é mantida pela hegemonia da linguagem. Aquele que detém o poder de nomear o mundo detém o poder de definir a realidade. Quando as experiências dos grupos marginalizados são traduzidas para a linguagem do opressor, elas perdem sua carga de denúncia e são suavizadas. A invisibilidade só é rompida quando movimentos sociais e intelectuais orgânicos conseguem, após muita luta, inserir novos termos no debate público (como "feminicídio", "colorismo" ou "lugar de fala"), desafiando o monopólio hermenêutico das elites.

Efeitos

  • Isolamento e confusão mental da vítima: Dificuldade de processar o trauma por falta de validação social e conceitual.
  • Manutenção da impunidade: Inexistência de leis ou protocolos para punir violências que "tecnicamente" ainda não foram classificadas.
  • Inibição da agência política: Grupos que não conseguem nomear sua opressão têm mais dificuldade de se organizar coletivamente para combatê-la.
  • Distorsão da realidade social: Produção de dados estatísticos falsos que sugerem a inexistência de problemas por falta de categorias de coleta.

Autores brasileiros

  • Sueli Carneiro
  • Carla Akotirene

Autores estrangeiros

  • Miranda Fricker

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