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Invalidação por TPM

Uso pejorativo da tensão pré-menstrual para desqualificar emoções, opiniões ou comportamentos de mulheres, silenciando suas vozes e deslegitimando suas experiências.

SaúdeGêneroPoderSociedadeCorpo

Definição

A invalidação por TPM (Tensão Pré-Menstrual) é uma prática de desqualificação e silenciamento de mulheres que utiliza o ciclo biológico menstrual como pretexto para invalidar suas emoções, opiniões ou comportamentos. Trata-se de uma forma de gaslighting biológico onde qualquer manifestação de descontentamento, raiva ou assertividade feminina é sumariamente atribuída a "fatores hormonais", retirando a legitimidade da causa que gerou aquela emoção. Ao transformar um protesto social ou pessoal em um "sintoma médico", a sociedade desonera o homem e a estrutura de poder da responsabilidade de ouvir e negociar com as demandas das mulheres.

No Brasil, a psicóloga Valeska Zanello analisa como a cultura patriarcal utiliza a biologia para patologizar o sofrimento das mulheres, ignorando as causas sociais da exaustão e da raiva. Internacionalmente, a antropóloga Emily Martin e a psicóloga social Carol Tavris discutem como o diagnóstico de TPM funciona como um "depósito cultural" para as emoções negativas que as mulheres são proibidas de expressar em outros momentos. A lógica da invalidação por TPM reforça o estereótipo da mulher como um ser emocionalmente instável e irracional, em contraposição ao homem, visto como o padrão de neutralidade e razão.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da redução do sujeito à biologia. Quando uma mulher expressa uma crítica legítima no trabalho ou em casa, o interlocutor desvia o foco do conteúdo da crítica para o calendário menstrual dela. O mecanismo opera através de perguntas sarcásticas ou comentários aparentemente "preocupados", como "você está naqueles dias?", que servem para encerrar o debate sem que o homem precise mudar seu comportamento. Essa manobra retira a agência da mulher, transformando-a em uma "refém dos próprios hormônios", cujas palavras não devem ser levadas a sério até que o ciclo termine.

O mecanismo utiliza também a internalização da dúvida. De tanto serem invalidadas, muitas mulheres passam a questionar a própria percepção, perguntando-se se estão realmente bravas por um motivo justo ou se é "apenas a TPM". Esse processo de auto-gaslighting é extremamente eficiente para o controle social, pois faz com que a mulher se auto-censure e se desculpe por sentimentos que são reações adequadas a injustiças reais. A TPM torna-se, assim, uma ferramenta de regulação do comportamento feminino, onde a "mulher boa" é aquela que permanece dócil mesmo diante de estímulos estressores.

Exemplos

  • A interrupção em reuniões de trabalho: Uma mulher apresenta um ponto de vista contrário ao da maioria e ouve de um colega: "Calma, você está nervosa por quê? Está na TPM?", desvirtuando completamente o assunto técnico.

  • O desfecho de discussões de casal: Um homem que comete um erro e, ao ser cobrado, responde: "A gente conversa quando você estiver mais calma e seu período passar", evadindo-se da responsabilidade.

  • A publicidade de chocolates e doces: Marcas que vendem produtos como "kit sobrevivência para TPM", reforçando a ideia de que a mulher nesse período é um ser instável que só pode ser apaziguado por açúcar.

  • O diagnóstico médico superficial: Médicos que, diante de queixas de irritabilidade severa ou dor, não investigam as condições de vida da paciente (trabalho, dupla jornada, assédio) e prescrevem apenas anticoncepcionais para "regular o humor".

Quem é afetado

As mulheres em idade fértil são as principais afetadas, sofrendo o monitoramento constante de seu humor e a perda de credibilidade em ambientes profissionais e acadêmicos. Mulheres que ocupam cargos de liderança enfrentam uma vigilância ainda maior, onde qualquer decisão firme pode ser lida por subordinados ou pares como "instabilidade hormonal". Profissionais de saúde também podem ser agentes dessa invalidação ao ignorarem queixas graves de saúde física ou mental de mulheres, tratando-as apenas como complicações do ciclo menstrual.

A sociedade como um todo perde ao silenciar a crítica feminina. Muitas vezes, a raiva expressa por mulheres no período pré-menstrual não é uma "loucura", mas um transbordamento de tensões que foram contidas e suportadas silenciosamente durante todo o mês. Ao invalidar essa expressão, a sociedade perde a oportunidade de identificar e corrigir dinâmicas de sobrecarga, assédio e desigualdade. O foco na biologia impede que as relações interpessoais evoluam para um patamar de respeito mútuo e escuta ativa, mantendo um equilíbrio baseado na repressão e não no diálogo.

Por que é invisível

A invalidação por TPM é invisibilizada por estar camuflada sob o manto da "ciência e do senso comum médico". Como é um fato biológico que o ciclo menstrual altera níveis hormonais, a sociedade utiliza essa verdade parcial para construir uma mentira total: a de que a mulher perde sua capacidade de julgamento durante esse período. A indústria farmacêutica e a publicidade reforçam essa invisibilidade ao venderem remédios para "controlar o gênio" ou "acalmar a fera", tratando a subjetividade feminina como algo a ser medicado e não ouvido.

Além disso, a invisibilidade é mantida pelo humor e pela normalização cultural. Piadas sobre TPM são onipresentes em programas de TV, filmes e conversas de bar, criando uma atmosfera onde a desqualificação da mulher é vista como algo "leve" e "divertido". Essa banalização do desrespeito impede que a prática seja identificada como uma forma de violência psicológica. A invisibilidade só é rompida quando o debate se desloca da ginecologia para a sociologia, revelando que a TPM é menos um problema de hormônios e mais um problema de como a sociedade reage ao poder e à voz das mulheres.

Efeitos

  • Erosão da autoconfiança feminina: Sentimento de inadequação e medo de expressar opiniões fortes para não ser rotulada.
  • Manutenção da sobrecarga doméstica e profissional: Como a queixa da mulher é ignorada, as causas do seu estresse (excesso de trabalho, falta de ajuda) permanecem inalteradas.
  • Degradação de relacionamentos: Falta de comunicação real entre parceiros, onde o homem se recusa a ouvir as demandas da mulher por considerá-las "passageiras".
  • Medicalização do descontentamento social: Uso excessivo de ansiolíticos e antidepressivos para tratar o mal-estar que é decorrente da estrutura desigual de gênero.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Emily Martin
  • Carol Tavris

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