Negligência racial na dor
Fenômeno onde pessoas negras recebem tratamento inadequado ou insuficiente para a dor (incluindo anestesia e analgésicos), devido a crenças racistas historicamente enraizadas na medicina, como a falsa ideia de que indivíduos negros possuem maior tolerância à dor ou 'pele mais grossa', resultando em submedicação e piores desfechos em saúde.
Definição
A negligência racial na dor é um fenômeno decorrente do racismo estrutural na medicina e na saúde pública, onde pacientes negros recebem sistematicamente menos tratamento para a dor, menos analgesia em partos e diagnósticos mais tardios do que pacientes brancos. Esse preconceito baseia-se em crenças pseudocientíficas e estereótipos históricos que sugerem que corpos negros seriam "biologicamente mais resistentes" ou possuiriam uma "tolerância maior à dor física", uma herança direta da época da escravidão usada para justificar abusos e experimentos.
No Brasil, as pesquisas de Emanuelle Goes e os dados do estudo Nascer no Brasil 2, da Fiocruz (2024), evidenciam que mulheres negras são as principais vítimas desse descaso. A negligência não é apenas uma falha individual de médicos, mas um viés institucionalizado que desqualifica o relato do paciente negro, tratando sua queixa como exagerada ou inexistente, o que contribui diretamente para as taxas alarmantes de mortalidade materna negra no país.
Como funciona
O mecanismo da negligência racial na dor opera através de um filtro de empatia diminuído por parte dos profissionais de saúde. Experimentos sociológicos mostram que médicos (mesmo aqueles que se consideram não racistas) tendem a subestimar a dor em faces negras em comparação com faces brancas. Isso resulta na prescrição de dosagens menores de opioides e analgésicos, na realização de procedimentos invasivos (como suturas de parto) sem anestesia adequada e na demora em solicitar exames de emergência quando o paciente relata desconforto agudo.
Além disso, funciona pela desumanização do corpo negro, que é visto como um "corpo de trabalho" ou um "corpo perigoso". A ideia de que pessoas negras são mais "fortes" serve como uma justificativa inconsciente para o desleixo no cuidado, permitindo que o profissional se sinta menos culpado por não oferecer o alívio necessário. Essa dinâmica é agravada pela falta de representatividade negra nos currículos médicos, onde a pele branca é tratada como o padrão anatômico universal e as patologias que se manifestam de forma diferente em peles escuras são ignoradas.
Exemplos
Sutura sem anestesia: Realizar a episiotomia ou a sutura pós-parto em uma mulher negra sem o uso de anestésicos locais, sob a justificativa de que "ela aguenta bem".
Subestimação de sintomas cardíacos: Ignorar o relato de dor no peito de um homem negro em um pronto-socorro, tratando-o como ansiedade, enquanto um homem branco com o mesmo relato é imediatamente encaminhado para eletrocardiograma.
Atraso na medicacao de emergencia: Pesquisas que mostram que, em atendimentos de trauma (como fraturas expostas), pacientes negros esperam em média mais tempo do que brancos para receber a primeira dose de analgésico potente.
Negligência na identificação de anemia falciforme: Tratar crises agudas de dor em pacientes com anemia falciforme (mais comum em negros) como "busca por drogas" ou exagero, negando o protocolo de dor intensa recomendado. Planos de saúde que dificultam o acesso a especialistas para condições predominantemente negras.
Quem é afetado
As principais afetadas são as mulheres negras em períodos de pré-natal, parto e pós-parto, enfrentando o que se denomina racismo obstétrico. No entanto, o fenômeno atinge homens e mulheres negros em todas as especialidades, desde a oncologia até o atendimento em prontos-socorros. Crianças negras também sofrem com a subestimação de seus sintomas por pediatras, o que pode levar a um agravamento evitável de quadros clínicos simples.
Impacta também a confiança da população negra no sistema de saúde. Quando uma pessoa percebe que sua dor é sistematicamente ignorada ou tratada com desdém, ela tende a evitar buscar ajuda médica até que o quadro esteja em estágio avançado, alimentando um ciclo de diagnósticos tardios e menor expectativa de vida em comparação com a população branca de mesma classe social.
Por que é invisível
A negligência racial na dor é invisibilizada pelo discurso da "neutralidade científica". A medicina costuma se apresentar como uma área técnica e objetiva, o que mascara os vieses subjetivos dos profissionais. Quando uma mulher negra morre por complicações de parto após ter tido suas queixas de dor ignoradas, a causa mortis é registrada como evento clínico (hemorragia, infecção), mas o fator racial determinante para a falha no atendimento raramente é documentado nos prontuários oficiais.
A invisibilidade também é mantida pela falta de coleta de dados de cor/raça em muitos sistemas de saúde, o que impede a visualização da disparidade nos tratamentos. A sociedade brasileira, sob o mito da democracia racial, muitas vezes interpreta esses casos como "má sorte" ou "falta de recursos do SUS", ignorando que, mesmo dentro do mesmo hospital e sob as mesmas condições financeiras, o paciente branco recebe um protocolo de acolhimento e alívio da dor superior ao paciente negro.
Efeitos
- Alta mortalidade materna negra: Mulheres negras morrem mais de causas evitáveis no parto devido à demora no atendimento e à negligência na identificação de crises.
- Trauma psicológico e obstétrico: Mulheres que passam pelo parto como um momento de tortura física devido à falta de anestesia, desenvolvendo depressão pós-parto e medo de novas gestações.
- Diagnósticos tardios de câncer: Menor empenho na investigação de dores crônicas em pacientes negros, permitindo que doenças graves evoluam silenciosamente.
- Desigualdade na eficácia dos tratamentos: A subdosagem de analgésicos impede que o paciente negro consiga seguir protocolos de recuperação física e fisioterapia de forma adequada.
Autores brasileiros
- Lélia Gonzalez
- Jurema Werneck
Autores estrangeiros
- Adam Rodman
- Adam S. Hoffman
