Patriarcado
Sistema social e cultural onde homens detêm o poder, a autoridade e o privilégio sobre as mulheres e outros gêneros, estabelecendo uma hierarquia que privilegia o masculino em esferas como família, política, economia e cultura. Resulta em desigualdades e na subordinação feminina, manifestando-se desde a estrutura familiar até a violência de gênero, sendo uma construção histórica e não natural, presente em diversas culturas ao longo do tempo.
Definição
O patriarcado é um sistema social, político e econômico em que os homens detêm de forma desproporcional o poder, a autoridade e o privilégio, enquanto as mulheres e outras identidades de gênero são subordinadas e marginalizadas. Trata-se de uma estrutura histórica que organiza a sociedade através de uma hierarquia masculina, estabelecendo o homem como o padrão universal de humanidade e o centro de decisão na família, na política, na economia e na cultura.
No Brasil, a socióloga Heleieth Saffioti é a referência fundamental, descrevendo o patriarcado como parte de um "nó" inseparável com o capitalismo e o racismo. Para Saffioti, o patriarcado não é apenas "machismo", mas um modo de produção e reprodução da vida que se sustenta na exploração do trabalho doméstico não remunerado das mulheres e na sua exclusão dos espaços de poder real. O sistema não é biológico ou natural, mas uma construção histórica que se adapta e se renova ao longo do tempo.
Como funciona
O patriarcado funciona através da separação entre o espaço público (o lugar do poder, da razão e do trabalho produtivo e masculino) e o espaço privado (o lugar do cuidado, da emoção e do trabalho reprodutivo e feminino). Essa divisão naturaliza a ideia de que o homem deve prover e governar, enquanto a mulher deve cuidar e obedecer. A manutenção desse sistema ocorre por meio de leis, religiões, educação e, quando necessário, através da violência física e simbólica para punir qualquer transgressão a esses papéis.
O sistema opera também na subjetividade, ensinando homens a buscarem o domínio e mulheres a buscarem a aprovação. A "fraternidade masculina" (ou pacto de masculinidade) é um mecanismo central onde homens protegem os privilégios uns dos outros, mesmo quando não concordam individualmente com certas ações, para garantir que o poder coletivo da classe masculina permaneça intacto.
Exemplos
Sobrenome paterno obrigatório: A tradição de a mulher perder sua linhagem em favor da do marido e dos filhos levarem prioritariamente o nome do pai, simbolizando a posse histórica.
O "padrão masculino" na medicina: Pesquisas médicas e testes de medicamentos feitos prioritariamente em corpos masculinos, ignorando as especificidades biológicas e hormonais das mulheres.
Interrupção seletiva (Manterrupting): A frequência muito maior com que homens interrompem falas de mulheres em reuniões, aulas e debates públicos, reafirmando quem tem o "direito" ao discurso.
Legislação sobre o corpo feminino: Homens (majoritários nos parlamentos) decidindo sobre direitos reprodutivos e autonomia corporal das mulheres, tratando o corpo feminino como matéria de interesse do Estado.
Quem é afetado
As principais afetadas são as mulheres (cis e trans) e pessoas com expressões de gênero dissonantes, que têm suas vidas controladas e suas oportunidades limitadas. O patriarcado também impõe o binário de gênero, o que torna pessoas não binárias alvos de apagamento e violência. A interseccionalidade mostra que mulheres negras e indígenas sofrem as formas mais cruéis de subordinação patriarcal, muitas vezes sendo excluídas até mesmo dos movimentos de libertação feminista hegemônicos.
Os homens também são afetados, embora de forma privilegiada. O patriarcado impõe o fardo da "masculinidade tóxica", obrigando o homem a reprimir emoções, performar força constante e envolver-se em comportamentos de risco para provar seu valor. Isso resulta em menores expectativas de vida, maiores taxas de suicídio e envolvimento em crimes violentos entre homens, demonstrando que o sistema exige um sacrifício humano constante para manter a hierarquia de poder.
Por que é invisível
O patriarcado é invisibilizado pela sua antiguidade e pela sua fusão com a noção de "família tradicional". Muitas das suas engrenagens são apresentadas como "ordem natural" ou "vontade divina", o que retira o caráter político da opressão. Quando uma estrutura está presente em todos os lugares (da certidão de nascimento ao sobrenome, da estrutura das cidades à gramática das línguas), ela deixa de ser percebida como um sistema construído e passa a ser lida como a própria realidade.
Além disso, a invisibilidade é mantida pelo controle da produção de conhecimento. Historicamente, foram homens brancos que escreveram a história, as leis e a ciência, o que lhes permitiu definir o que é "neutro" e o que é "justo". Ao silenciar a voz e a história das mulheres, o patriarcado apaga a própria evidência de sua existência como sistema opressor, tratando a desigualdade como um dado imutável do destino humano.
Efeitos
- Divisão sexual do trabalho: Concentração de mulheres em carreiras de cuidado e serviços com menores salários, enquanto homens ocupam cargos de gestão e tecnologia.
- Cultura da violência: Normalização do controle masculino sobre o corpo feminino, resultando em altas taxas de assédio, estupro e violência doméstica.
- Invisibilidade do trabalho de cuidado: O fato de a economia global depender do trabalho doméstico gratuito das mulheres, que não é contabilizado no PIB nem valorizado socialmente.
- Teto de vidro: Barreiras invisíveis que impedem a ascensão de mulheres a cargos de alta decisão, mesmo quando possuem maior escolaridade que seus pares homens.
Autores brasileiros
- Heleieth Saffioti
- Flávia Biroli
Autores estrangeiros
- Kate Millett
- Sylvia Walby
- bell hooks
