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Piso Pegajoso

Fenômeno que mantém mulheres presas em cargos de baixa remuneração e sem perspectiva de ascensão na carreira.

TrabalhoGêneroEconomiaSociedadeDesigualdade

Definição

O piso pegajoso (sticky floor) é um conceito sociológico e econômico que descreve as barreiras estruturais que mantêm mulheres e minorias raciais presas nos níveis mais baixos da pirâmide salarial e hierárquica, impedindo o início de qualquer ascensão profissional. Enquanto o famoso conceito de "teto de vidro" (glass ceiling) se refere às dificuldades de alcançar o topo (diretorias e presidências), o piso pegajoso aborda uma realidade estatisticamente muito mais comum: a impossibilidade de sair da base. São empregos com baixa remuneração, pouca perspectiva de promoção, alta rotatividade e precariedade, onde a força de trabalho feminina e negra é concentrada massivamente.

O termo foi cunhado em 1992 pela socióloga Catherine Berheide, em um estudo sobre mulheres no serviço público americano, revelando que a maioria não estava "batendo no teto", mas sim "grudada no chão". No Brasil, economistas como Hildete Pereira de Melo e Lena Lavinas utilizam o conceito para analisar o mercado de trabalho nacional, onde mulheres negras são a base da força de trabalho em serviços domésticos, limpeza e atendimento, sem acesso a planos de carreira ou qualificações que permitam a mobilidade social vertical.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da segregação ocupacional e da sobrecarga doméstica. O mecanismo opera direcionando mulheres e minorias para setores considerados "extensões do lar" (cuidado, limpeza, educação básica, enfermagem), que são historicamente desvalorizados financeiramente. Uma vez nesses setores, o trabalhador encontra planos de cargos e salários achatados, onde anos de dedicação resultam em aumentos irrelevantes. Diferente de carreiras corporativas "masculinas" (como finanças ou TI), onde a escada de ascensão é clara, nas profissões do piso pegajoso a estrutura é horizontal: não há para onde subir, apenas para onde se mover lateralmente em outros empregos igualmente precários.

O mecanismo utiliza também a falta de rede de apoio. Mulheres que estão no piso pegajoso frequentemente acumulam a jornada de trabalho com a responsabilidade exclusiva pelo cuidado de filhos e idosos. Sem creches públicas de qualidade ou dinheiro para contratar babás, elas são forçadas a recusar horas extras, viagens ou cursos de especialização, o que as torna "menos competitivas" aos olhos do mercado. O sistema "cola" essas mulheres na base não por falta de ambição ou capacidade, mas pela impossibilidade material de dedicar o tempo que a ascensão na carreira exige.

Exemplos

  • A auxiliar de limpeza terceirizada: Que trabalha no mesmo banco há 20 anos, viu dezenas de gerentes serem promovidos, mas seu salário e função permanecem exatamente os mesmos, pois seu contrato é com uma empresa de serviços que não oferece plano de carreira.

  • A operadora de caixa de supermercado: Que não tem permissão para sentar durante o expediente e cuja única perspectiva de "promoção" é tornar-se fiscal de caixa, com um aumento ínfimo de salário.

  • A estagiária "eterna": Profissionais que pulam de contrato temporário em contrato temporário, nunca sendo efetivadas ou absorvidas pela estrutura formal da empresa.

  • A professora de educação infantil: Cuja formação superior em Pedagogia é exigida, mas cujo salário é inferior ao de funções técnicas de nível médio, e que não tem para onde "subir" dentro da escola sem deixar a sala de aula.

Quem é afetado

As mulheres negras e pobres são, estatisticamente, o grupo mais afetado pelo piso pegajoso no Brasil e no mundo. Elas ocupam a maioria das vagas em call centers, redes de fast food, serviços de limpeza e comércio varejista de base. O fenômeno também atinge homens negros e imigrantes em setores como construção civil e entregas por aplicativo, onde a promessa de "crescer na empresa" é inexistente. A juventude de periferia sofre com o "primeiro emprego" que se torna "único emprego" por décadas, devido à falta de pontes educacionais e de networking que permitam a transição para carreiras mais valorizadas.

A sociedade é afetada pela perda de potencial humano e pelo aumento da desigualdade intergeracional. Quando uma mãe está presa no piso pegajoso, a probabilidade de seus filhos permanecerem na pobreza é alta, pois a renda familiar é insuficiente para investir em educação de qualidade. A economia perde produtividade ao manter milhões de pessoas em subempregos que não utilizam seus talentos reais. Além disso, o piso pegajoso alimenta o ciclo da violência doméstica, pois a dependência financeira impede que muitas mulheres deixem lares abusivos, uma vez que seus salários não garantem a subsistência autônoma.

Por que é invisível

O piso pegajoso é invisibilizado pela obsessão midiática com o "teto de vidro". A sociedade discute muito a falta de mulheres CEOs ou presidentes, mas discute pouco a massa de mulheres que limpam os escritórios dessas CEOs. As histórias de "sucesso" e "empoderamento" que ganham destaque focam na exceção (a mulher que chegou lá), criando a ilusão de que o caminho está aberto para todas, bastando esforço. Essa narrativa meritocrática oculta a realidade de quem nem sequer consegue chegar ao primeiro degrau da escada corporativa.

Além disso, a invisibilidade decorre da desvalorização do trabalho manual e do cuidado. A sociedade naturaliza que certas funções "valem menos" e, portanto, é "normal" que quem as exerce ganhe pouco e não tenha carreira. O sofrimento de quem está no piso pegajoso é visto como falta de qualificação individual ("deveria ter estudado mais"), ignorando que o sistema é desenhado para precisar de uma base larga e barata. A invisibilidade só é rompida por greves de setores essenciais ou por estudos demográficos que mostram a estagnação de renda de grupos específicos ao longo de décadas.

Efeitos

  • Feminilizacão da pobreza: Mulheres constituindo a maioria da população mundial que vive com menos de um salário mínimo.
  • Burnout por sobrevivência: Esgotamento físico e mental causado pela necessidade de manter múltiplos empregos precários apenas para pagar contas básicas.
  • Imobilidade social: Famílias que permanecem na mesma classe social por gerações devido à incapacidade de acumular patrimônio.
  • Baixa representatividade real: A diversidade nas empresas fica concentrada na base (faxina, recepção), enquanto a diretoria permanece homogênea, criando uma "diversidade de fachada".

Autores brasileiros

  • Lena Lavinas
  • Hildete Pereira de Melo
  • Mary Garcia Castro

Autores estrangeiros

  • Catherine Berheide
  • Jennifer Laurin

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