Racismo ambiental
Distribuição desigual de danos ambientais que atinge desproporcionalmente comunidades negras e periféricas. Descreve como comunidades marginalizadas (periferias, quilombos, zonas indígenas) são desproporcionalmente escolhidas para receber aterros sanitários, indústrias poluentes ou sofrer com enchentes e falta de saneamento. Não é coincidência geográfica, mas uma política de uso do solo que protege áreas nobres e sacrifica áreas vulneráveis.
Definição
Racismo Ambiental é o conceito que denuncia como a degradação ambiental e a ausência de políticas de proteção afetam de forma desproporcional populações racializadas (negros, indígenas, quilombolas) e de baixa renda. Não é casualidade que lixões, indústrias poluentes e áreas de risco de desabamento estejam localizados majoritariamente próximos a comunidades periféricas. Trata-se de uma política, deliberada ou negligente, de uso do território que cria "zonas de sacrifício": lugares onde a vida vale menos e o lucro ou o bem-estar das áreas nobres vale mais.
No Brasil, pensadores como Ailton Krenak expandem o conceito para denunciar a lógica extrativista colonial que vê a natureza como recurso inesgotável e os povos que a protegem como obstáculos ao "progresso". As catástrofes climáticas de 2024, como as enchentes no Rio Grande do Sul e os deslizamentos no Rio de Janeiro, evidenciaram que, embora a chuva caia para todos, quem morre ou perde a casa tem cor e classe social definidas.
Como funciona
Funciona através da gestão discriminatória do espaço urbano e rural:
- Planejamento Urbano Excludente: Áreas nobres recebem obras de drenagem, saneamento e contenção de encostas. Áreas periféricas são deixadas à própria sorte ou empurradas para beiras de rios e morros instáveis pela especulação imobiliária.
- Localização de Riscos: Instalação de aterros sanitários, incineradores e indústrias tóxicas próximas a bairros pobres, sob a lógica de que ali a resistência política será menor ("o caminho de menor resistência").
- Negligência Estatal: Demora no atendimento a desastres em favelas comparada à agilidade em bairros ricos. Exemplo clássico é o tempo de restabelecimento de luz e água após tempestades.
Exemplos
Enchentes no Rio Grande do Sul (2024): Embora o estado tenha sido vastamente afetado, os bairros mais destruídos e com maior dificuldade de recuperação foram as periferias e áreas ribeirinhas pobres, evidenciando a vulnerabilidade infraestrutural seletiva.
Maceió (Caso Braskem): O afundamento de bairros inteiros devido à mineração de sal-gema afetou milhares de famílias, mas a resposta e a indenização foram lentas e, segundo críticos, insuficientes para a magnitude do dano em uma área densamente povoada.
Crime de Mariana e Brumadinho: O rompimento das barragens de rejeitos atingiu devastadoramente o Rio Doce e comunidades ribeirinhas, muitas delas dependentes da pesca e agricultura, alterando permanentemente seus modos de vida.
Falta de Saneamento: No Brasil, milhões de pessoas não têm acesso a esgoto tratado. Um mapa desse déficit sobrepõe-se quase perfeitamente ao mapa da população negra e pobre das cidades.
Quem é afetado
As principais vítimas são moradores de favelas, periferias, comunidades ribeirinhas, quilombos e terras indígenas. A população negra, que compõe a maioria nessas localidades devido ao histórico escravagista e à falta de reforma agrária/urbana, carrega o maior fardo das mudanças climáticas.
Indígenas e quilombolas sofrem duplamente: com a invasão de suas terras por garimpo e agronegócio (que envenenam rios com mercúrio e agrotóxicos) e com a alteração dos ciclos naturais que inviabiliza seus modos tradicionais de vida (pesca, caça, agricultura).
Por que é invisível
É invisível porque é naturalizado como "acidente" da natureza ou "falta de sorte". A narrativa oficial costuma culpar as próprias vítimas por "morarem em local ilegal", ignorando que a falta de moradia digna acessível é o que empurra essas pessoas para áreas de risco.
Além disso, o movimento ambientalista tradicional muitas vezes foca na preservação de florestas distantes ("salvar a Amazônia") sem conectar a pauta verde com a pauta social urbana, ignorando que a falta de esgoto na favela também é uma questão ecológica urgente. O conceito de racismo ambiental une essas pontas, mostrando que não há justiça climática sem justiça racial.
Efeitos
- Saúde: Aumento de doenças respiratórias, infecções por água contaminada e envenenamento por metais pesados em crianças dessas comunidades.
- Perda de Patrimônio: Famílias pobres perdem tudo (móveis, casas) recorrentemente em enchentes, impedindo a acumulação de bens e a saída da pobreza.
- Êxodo e Desterritorialização: Comunidades inteiras são forçadas a migrar (refugiados climáticos internos), perdendo seus laços culturais e redes de solidariedade.
Autores brasileiros
- Selma Rocha
Autores estrangeiros
- Robert Bullard
