Racismo bibliográfico
Manifestação do racismo dentro do mercado editorial, da produção literária e do acesso ao conhecimento. Caracteriza-se pela sub-representação, censura ou embranquecimento de autores e personagens negros, e pela reprodução de estereótipos racistas em publicações, perpetuando o apagamento e o epistemicídio de saberes e narrativas não-brancas.
Definição
O racismo bibliográfico é a exclusão sistemática de autores negros, indígenas e não-ocidentais das ementas de cursos, das referências acadêmicas, das bibliotecas escolares e do imaginário intelectual legitimado. Trata-se de uma faceta do epistemicídio (o assassinato do conhecimento do outro), onde a academia valida apenas o pensamento produzido por homens brancos europeus ou norte-americanos como "universal", "científico" e "clássico", enquanto saberes produzidos pelo Sul Global são relegados à categoria de "folclore", "mitologia" ou "estudos específicos".
A filósofa Sueli Carneiro é fundamental para entender esse conceito no Brasil, denunciando como a universidade opera como um aparelho de reprodução da supremacia branca ao negar a existência da intelectualidade negra. Internacionalmente, Grada Kilomba questiona "quem pode falar?" e "quem é ouvido?", mostrando que o racismo bibliográfico não é apenas uma questão de esquecimento, mas um projeto político de manutenção de poder, onde o negro é sempre objeto de estudo, nunca o sujeito que produz a teoria sobre o mundo.
Como funciona
A dinâmica funciona por meio da seleção canônica excludente. O mecanismo opera quando professores montam planos de aula onde 100% dos textos obrigatórios são de autores brancos, justificando que "são os clássicos da área". Estudantes de Filosofia, por exemplo, podem passar quatro anos sem ler um único filósofo africano, aprendendo que a razão nasceu na Grécia e evoluiu na Alemanha, ignorando séculos de pensamento egípcio ou etíope. O sistema ensina subliminarmente que pessoas negras não pensam, apenas têm "cultura" ou "vivência".
O mecanismo utiliza também a guetização dos temas. Quando autores negros são incluídos, eles frequentemente ficam restritos a disciplinas eletivas sobre "Relações Raciais" ou "História da África", como se o pensamento negro só servisse para falar de negritude, e não para falar de economia, matemática, arquitetura ou medicina. O racismo bibliográfico opera como uma barreira de citação: pesquisadores brancos citam outros pesquisadores brancos, criando um ciclo de autoridade que invisibiliza a produção intelectual negra, impedindo que esses autores alcancem altos índices de impacto científico.
Exemplos
A faculdade de Medicina que não estuda anemia falciforme: Ou que estuda apenas como uma nota de rodapé, ignorando que é a doença genética mais comum no Brasil, afetando majoritariamente a população negra.
O curso de História da Arte que começa na Renascença: Ignorando a arte Iorubá, a arte pré-colombiana ou a arte chinesa como sistemas estéticos complexos, tratando-as como "artesanato" ou "arte primitiva".
Citação circular em teses: Alunos sendo orientados a retirar referências de autores negros desconhecidos e substituí-las por autores franceses famosos para dar "mais peso" ao trabalho.
Bibliotecas escolares sem literatura negra: Onde as crianças leem apenas histórias com protagonistas brancos, loiros e de olhos azuis, naturalizando a branquitude como o padrão universal de beleza e heroísmo.
Quem é afetado
Os estudantes negros e indígenas são os mais afetados, pois sofrem uma violência simbólica diária ao não se verem representados no saber que consomem. Isso gera sentimentos de não-pertencimento, insegurança intelectual e evasão escolar. Eles são forçados a "pensar como brancos" para serem aprovados, anulando suas próprias heranças culturais. Pesquisadores negros também são afetados, pois têm seus trabalhos desvalorizados por bancas de concurso e revistas científicas que consideram suas metodologias "pouco rigorosas" ou seus temas "irrelevantes".
A sociedade como um todo é afetada pela ignorância institucionalizada. O racismo bibliográfico produz profissionais (médicos, juízes, engenheiros) com uma formação incompleta e enviesada, incapazes de compreender a complexidade de um país multicultural. A ciência perde inovação ao descartar tecnologias sociais, saberes ancestrais e perspectivas críticas que poderiam oferecer soluções para crises ambientais e sociais que o modelo eurocêntrico criou. É um desperdício de inteligência humana em escala global.
Por que é invisível
O racismo bibliográfico é invisibilizado pelo argumento da "tradição e qualidade". A academia defende que se lê Kant ou Weber não porque são brancos, mas porque "são os melhores". Essa suposta meritocracia dos textos oculta que os critérios de "qualidade" foram definidos pelos próprios europeus para valorizar sua estética e sua lógica. A invisibilidade é mantida pela inércia pedagógica: professores repetem as referências que aprenderam com seus professores, perpetuando o ciclo sem questionamento crítico.
Além disso, a invisibilidade decorre da falta de acesso material. Muitas obras fundamentais do pensamento africano e asiático nunca foram traduzidas para o português ou estão fora de catálogo, o que torna difícil para um professor interessado diversificar sua ementa. O mercado editorial, historicamente, investiu pouco na tradução desses autores. A invisibilidade só é rompida quando coletivos estudantis pressionam por currículos descoloniais e quando novas editoras independentes começam a publicar o "Lado B" da história do pensamento, revelando a vastidão de conhecimento que foi deliberadamente ocultada.
Efeitos
- Baixa autoeficácia acadêmica: Estudantes negros que acreditam serem menos inteligentes porque nunca leem intelectuais parecidos com eles.
- Reprodução de estereótipos em pesquisas: Estudos que continuam retratando negros apenas como vítimas ou estatísticas de crime, sem base teórica crítica.
- Empobrecimento do debate público: Soluções para problemas nacionais que copiam modelos europeus inadequados à realidade tropical e pós-colonial.
- Manutenção da hierarquia racial: A ideia de que o branco é o "dono do saber" e o negro é o "dono do corpo/trabalho braçal".
Autores brasileiros
- Sueli Carneiro
- Djamila Ribeiro
- Lélia Gonzalez
Autores estrangeiros
- Grada Kilomba
- Ngugi wa Thiong'o
- Chimamanda Adichie
