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Relacionamento abusivo

Dinâmica interpessoal caracterizada por um padrão de controle, manipulação e desequilíbrio de poder, onde um parceiro exerce violência física, psicológica, sexual, moral ou patrimonial sobre o outro, minando sua autonomia e bem-estar.

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Definição

O relacionamento abusivo é uma dinâmica complexa e insidiosa de poder e controle, onde um indivíduo busca dominar o outro, resultando em danos à saúde física, mental, emocional, sexual, moral ou patrimonial da vítima. Diferentemente de conflitos pontuais ou discussões comuns em qualquer relação, o abuso se manifesta como um padrão sistemático de comportamentos que minam a autoestima, a autonomia e a liberdade do parceiro. A violência pode não ser apenas física, sendo a violência psicológica (como o Gaslighting, a manipulação emocional e o isolamento) uma de suas formas mais difíceis de identificar e combater.

No Brasil, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) foi um marco fundamental ao reconhecer e tipificar cinco formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, incluindo a física, psicológica, sexual, patrimonial e moral. A legislação brasileira e o trabalho de pesquisadoras como Valeska Zanello enfatizam que a raiz da violência em relacionamentos muitas vezes reside em uma construção de masculinidade controladora e em uma socialização feminina que romantiza a dependência e a submissão.

Como funciona

A dinâmica do relacionamento abusivo frequentemente segue o que a psicóloga Lenore Walker denominou Ciclo da Violência, composto por três fases que se retroalimentam:

  1. Aumento da Tensão: Pequenos conflitos, irritabilidade e agressões verbais sutis começam a surgir, criando um clima de medo e apreensão para a vítima, que tenta "andar na ponta dos pés" para evitar a explosão.
  2. Ato de Violência: A tensão acumulada culmina em um episódio agudo de violência (física, psicológica, sexual, etc.), onde o agressor perde o controle.
  3. Lua de Mel ou Reconciliação: Após a agressão, o agressor demonstra arrependimento, promete mudança, é carinhoso e manipula a vítima com a esperança de que "tudo vai melhorar". Essa fase de "reforço positivo" dificulta a saída da vítima do ciclo.

Com o tempo, a fase da "lua de mel" encurta ou desaparece, e os atos de violência tornam-se mais frequentes e severos. O agressor utiliza táticas como o isolamento da vítima de sua rede de apoio, o controle financeiro, a vigilância constante e a desqualificação de seus sentimentos e percepções (Gaslighting) para manter o controle.

Exemplos

  • Controle Financeiro: O parceiro proíbe a vítima de trabalhar, confisca seu salário, controla seus gastos ou a impede de ter acesso a recursos financeiros.

  • Isolamento Social: O agressor critica e desestimula a vítima a encontrar amigos e familiares, controlando suas redes sociais e ligações, até que ela se veja sozinha e dependente dele.

  • Gaslighting: Manipular a percepção da vítima, fazendo-a duvidar de sua memória, sentimentos e sanidade ("você está louca", "isso nunca aconteceu", "você é muito dramática").

  • Ciúmes Excessivo e Vigilância: Checar constantemente o celular da vítima, exigir senhas de redes sociais, fazer interrogatórios sobre onde ela esteve e com quem, o que começa como "cuidado" e se torna controle.

  • Humilhação Pública ou Privada: Criticar, menosprezar ou ridicularizar a vítima na frente de outras pessoas ou em particular, minando sua autoestima e confiança.

  • Desqualificação Profissional/Intelectual: Minimizar as conquistas, ideias ou inteligência da vítima, fazendo-a sentir-se incapaz e dependente.

Quem é afetado

Embora o relacionamento abusivo possa ocorrer em qualquer configuração de gênero e sexualidade, as mulheres cisgênero e transgênero são desproporcionalmente as maiores vítimas, especialmente em contextos heterossexuais. A intersecção com outros marcadores sociais, como raça e classe, agrava a vulnerabilidade: mulheres negras, indígenas, com deficiência e LGBTQIA+ podem enfrentar barreiras adicionais para acessar ajuda e apoio, devido ao racismo, capacitismo e LGBTfobia institucional. Crianças que testemunham violência doméstica também são afetadas psicologicamente, internalizando a violência como um padrão relacional.

Por que é invisível

A invisibilidade do relacionamento abusivo reside na sua complexidade e nas dinâmicas sociais que o cercam. Muitas vezes, a violência começa de forma sutil, com "provas de amor" que se transformam em controle. A vítima é frequentemente desacreditada e culpabilizada por amigos, familiares e até mesmo por instituições (vitimização secundária), que minimizam a situação ou questionam sua sanidade (Gaslighting). A vergonha, o medo das represálias do agressor, a dependência financeira e emocional, e a idealização do amor romântico são fatores que aprisionam a vítima e dificultam a identificação e a denúncia. O ambiente doméstico, visto como "privado", também contribui para ocultar a violência.

Efeitos

Os efeitos são devastadores e podem ser permanentes. Fisicamente, resultam em lesões, fraturas e, nos casos mais extremos, no feminicídio. Psicologicamente, a vítima desenvolve ansiedade crônica, depressão, estresse pós-traumático (TEPT), baixa autoestima e uma perda progressiva da capacidade de tomar decisões. O isolamento social leva à ruptura de laços afetivos e profissionais. A dependência financeira impede a autonomia da vítima, tornando a saída do relacionamento um desafio ainda maior. Crianças expostas a essa violência podem apresentar problemas de desenvolvimento, comportamento e saúde mental.

Autores brasileiros

  • Valeska Zanello
  • Maria da Penha
  • Maria Clara Dias

Autores estrangeiros

  • Lenore Walker
  • Patricia Evans
  • Lundy Bancroft

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