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Silenciamento

Processo que impede grupos subalternizados de serem ouvidos, desqualificando sua fala por falta de 'objetividade' ou autoridade reconhecida pela hegemonia.

ComunicaçãoPoder simbólicoDiscursoLinguagemExclusão social

Definição

O silenciamento não é apenas a ausência de som ou de fala, mas um processo político e discursivo onde a voz de certos indivíduos ou grupos é tornada irrelevante, inválida ou impossível de ser ouvida em determinados espaços de poder. Diferente do silêncio (que pode ser uma escolha ou um momento de reflexão), o silenciamento é uma imposição externa que retira do sujeito o direito de ser reconhecido como um interlocutor válido. É uma forma de violência simbólica que mantém as hierarquias sociais ao decidir quem pode falar e sobre o que se pode falar.

No Brasil, a linguista Eni Orlandi é a principal referência sobre o tema através da análise de discurso. Ela diferencia o "silêncio fundador" (aquele que permite o sentido) do "silenciamento política" (aquele que apaga as vozes indesejadas). O silenciamento opera como um mecanismo de controle social que impede que reivindicações e denúncias de grupos marginalizados (mulheres, negros, indígenas, trabalhadores) cheguem à esfera pública com o estatuto de verdade.

Como funciona

O silenciamento funciona através de táticas de interrupção, desqualificação e invisibilização. Em uma reunião de trabalho ou em um debate acadêmico, o silenciamento pode ocorrer através do manterruption (interrupção sistemática da fala feminina) ou do gaslighting discursivo, onde a pessoa é levada a crer que sua fala foi confusa, emocional demais ou irrelevante. Não se trata apenas de calar a boca de alguém, mas de garantir que, mesmo que ela fale, seu discurso não produza efeitos práticos na realidade.

Outro mecanismo poderoso é o silenciamento institucional, que ocorre quando as regras e normas de uma organização são desenhadas para que certas denúncias sejam sufocadas. Isso acontece através de burocracias excessivas, medo de represálias e a criação de uma cultura do "assunto proibido", onde falar abertamente sobre racismo, assédio ou desigualdade é visto como falta de profissionalismo ou "quebra de harmonia", forçando o sujeito ao silêncio para manter seu emprego ou posição social.

Exemplos

  • Manterruption: Um homem que interrompe constantemente uma colega em uma reunião, completando suas frases ou mudando o assunto antes que ela conclua seu raciocínio.

  • Repressão institucional: Uma empresa que possui canais de denúncia mas que desestimula seu uso através de fofocas ou ameaças de demissão veladas a quem "causa problemas".

  • Apagamento de créditos: Um pesquisador sênior que utiliza as ideias de uma assistente ou aluno sem citá-los, silenciando sua contribuição intelectual para ficar com todo o prestígio.

  • Overshining discursivo: Falar por alguém, retirando-lhe a oportunidade de se expressar com suas próprias palavras, sob o pretexto de que "eu sei explicar melhor o que ele quer dizer".

Quem é afetado

As principais afetadas são as mulheres, pessoas negras, populações periféricas e minorias políticas. Na política institucional e nas grandes corporações, o silenciamento é a regra para quem não pertence à hegemonia branca e masculina. O fenômeno atinge também as vítimas de violência, que são silenciadas pela vergonha social e pela descrença dos órgãos de proteção, o que perpetua a impunidade dos agressores.

O silenciamento também atinge as memórias coletivas. Quando a história oficial de um país omite os massacres contra populações indígenas ou a resistência dos escravizados, ela silencia gerações inteiras, impedindo que o trauma seja processado e que a justiça seja feita. Nesse sentido, o silenciamento é uma ferramenta de manutenção da ordem dominante que opera pelo esquecimento forçado.

Por que é invisível

O silenciamento é invisibilizado porque muitas vezes é confundido com "consenso" ou "educação". Em famílias e empresas, o silêncio dos subordinados é lido como concordância, ocultando tensões e opressões profundas. A sociedade tende a ver quem quebra o silêncio como o "problema", tratando a denúncia como um ataque à ordem e não como uma reação à violência prévia.

Além disso, a linguagem acadêmica ou jurídica tecnicista atua como um filtro de silenciamento. Ao exigir que qualquer queixa seja formulada dentro de termos complexos e frios, o sistema desqualifica a fala espontânea da vítima, retirando-lhe a autoridade de narrar sua própria dor. O silenciamento é, portanto, a invisibilidade do conflito; é a aparência de paz mantida pela imposição do silêncio ao Outro.

Efeitos

  • Exclusão de políticas públicas: Grupos silenciados não têm suas necessidades incluídas no orçamento estatal ou nas leis, pois suas demandas nunca chegam aos ouvidos de quem decide.
  • Danos psicológicos: A sensação de invisibilidade e a impossibilidade de expressar a própria verdade geram sentimentos de impotência, ansiedade social e depressão.
  • Perpetuação da violência: Casos de assédio e corrupção continuam ocorrendo porque as vítimas e testemunhas são sistematicamente silenciadas pelo medo ou pela descrença.
  • Empobrecimento cultural: A perda de perspectivas e saberes diversos que são silenciados por não se adequarem ao padrão de fala eurocêntrico ou acadêmico.

Autores brasileiros

  • Grada Kilomba
  • Djamila Ribeiro

Autores estrangeiros

  • Gayatri Spivak

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