Sportswashing
O uso estratégico de eventos esportivos de grande visibilidade, aquisição de clubes ou patrocínio de atletas por parte de governos, corporações ou indivíduos com histórico de violações de direitos humanos ou outras controvérsias, com o objetivo de 'lavar' sua reputação e desviar a atenção pública de suas práticas questionáveis.
Definição
Sportswashing é a prática intencional de usar o esporte e seus eventos de grande apelo popular como ferramenta de relações públicas para projetar uma imagem positiva, moderna e de boa-fé, enquanto se oculta ou minimiza um histórico negativo de violações de direitos humanos, corrupção, políticas repressivas ou impactos ambientais danosos. É uma forma de manipulação ética que capitaliza a paixão e a universalidade do esporte para distrair a opinião pública e legitimar regimes ou corporações que, de outra forma, seriam condenados.
O termo ganhou proeminência com o escrutínio de países como Catar e Arábia Saudita, que investiram bilhões na aquisição de clubes de futebol, na organização de Copas do Mundo e na Formula 1. Essa estratégia busca, em última instância, silenciar críticas, desviar o foco de abusos e normalizar a presença desses atores no cenário global, muitas vezes forçando atletas, torcedores e patrocinadores a uma dissonância cognitiva moral.
Como funciona
O Sportswashing opera em diversas frentes para construir uma narrativa favorável:
- Sede de Grandes Eventos: A organização de Copas do Mundo, Jogos Olímpicos ou campeonatos mundiais atrai a atenção global para o país anfitrião, que é apresentado como moderno, acolhedor e capaz de grandes feitos. A pompa do evento ofusca questões como condições de trabalho análogas à escravidão na construção de infraestrutura ou a repressão a minorias.
- Aquisição de Ativos Esportivos: A compra de clubes de futebol europeus renomados (como o Newcastle pela Arábia Saudita ou o PSG pelo Catar) ou de ligas esportivas não só gera visibilidade, mas cria um sentimento de lealdade e orgulho nos torcedores, que passam a defender indiretamente os proprietários.
- Patrocínio e Embaixadores: O patrocínio de atletas famosos ou o uso de figuras esportivas como "embaixadores" confere credibilidade e associa a imagem do país/empresa a valores positivos do esporte, como superação e fair play.
Essas ações geram um "brilho" reputacional que dilui as críticas e dificulta o boicote, pois a paixão pelo esporte se sobrepõe à consciência ética.
Exemplos
Copa do Mundo no Catar (2022): O Catar investiu bilhões para sediar o evento, enquanto era amplamente criticado pelas condições de trabalho precárias dos migrantes e pela criminalização da homossexualidade.
Investimentos da Arábia Saudita: O Fundo de Investimento Público Saudita (PIF) adquiriu o clube de futebol Newcastle United e investiu pesado em eventos de golfe (LIV Golf) e Fórmula 1, em meio a críticas sobre violações de direitos humanos e a morte do jornalista Jamal Khashoggi.
Olimpíadas de Berlim (1936): Utilizadas pelo regime nazista de Adolf Hitler para projetar uma imagem de uma Alemanha moderna e forte, buscando mascarar sua política antissemita e expansionista.
Olimpíadas de Pequim (2008 e 2022): A China utilizou os Jogos para fortalecer sua imagem global, apesar das críticas sobre a repressão em Xinjiang e no Tibete, e a falta de liberdades civis.
Grandes Eventos no Brasil (Copa de 2014 e Olimpíadas de 2016): Embora não seja sportswashing no sentido de "lavar" crimes de direitos humanos de regimes autoritários, a organização desses megaeventos foi criticada por desviar recursos públicos de áreas essenciais, remoções forçadas e violência policial, buscando uma projeção internacional que ofuscava problemas sociais internos.
Quem é afetado
As primeiras vítimas do Sportswashing são os grupos cujos direitos são violados pelos regimes ou corporações em questão: trabalhadores migrantes, minorias étnicas e religiosas, comunidade LGBTQIA+, mulheres e dissidentes políticos. Os torcedores são afetados pela instrumentalização de sua paixão, sendo forçados a escolher entre seu time/esporte e seus princípios éticos. Os atletas podem ser transformados em veículos involuntários de propaganda. Por fim, a credibilidade das instituições esportivas e a integridade do esporte como um todo são corroídas.
Por que é invisível
A invisibilidade do Sportswashing reside na sua capacidade de se misturar com o que é percebido como normal no mundo do esporte e dos grandes negócios. A dimensão econômica dos megaeventos é tão avassaladora que críticas são facilmente descartadas como "politização desnecessária" do esporte. A narrativa de "desenvolvimento" e "legado" mascara o custo humano e social. Além disso, a cobertura da mídia muitas vezes prioriza os aspectos esportivos e de entretenimento, relegando as pautas de direitos humanos a um segundo plano. A paixão do torcedor, muitas vezes cega, dificulta a percepção de que seu objeto de adoração está sendo usado para fins políticos e de imagem.
Efeitos
Os efeitos são a normalização de regimes opressores e a relativização de graves violações de direitos humanos. O Sportswashing enfraquece a voz das vítimas e dilui a pressão internacional por mudanças. Ele gera um precedente perigoso onde o poder econômico pode comprar legitimidade e silenciar a crítica. Para o esporte, representa uma erosão de seus valores éticos e um questionamento sobre sua autonomia, transformando-o em uma mera ferramenta de propaganda e desinformação. A moralidade do consumo esportivo é comprometida, criando um dilema ético para fãs e patrocinadores.
Autores brasileiros
- Jamil Chade
- Luiz Carlos Ribeiro
- Clóvis de Barros Filho
Autores estrangeiros
- Jules Boykoff
- Simon Chadwick
- Andrew Zimbalist
