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Terceirização do cuidado

Quando mulheres de elite repassam o trabalho reprodutivo para mulheres pobres e negras, mantendo a desigualdade de classe.

TrabalhoGêneroEconomiaClasseGlobalização

Definição

A terceirização do cuidado (ou mercantilização do cuidado) é o processo econômico e social pelo qual as tarefas domésticas e de reprodução da vida (limpar, cozinhar, cuidar de crianças e idosos), historicamente atribuídas gratuitamente às mulheres da família, são transferidas para outras mulheres, geralmente pobres, negras ou imigrantes, em troca de baixos salários. Esse fenômeno permite a "emancipação" das mulheres de classe média e alta, que podem ingressar no mercado de trabalho competitivo, mas às custas da manutenção de uma sub-classe de trabalhadoras que permanecem presas a funções precárias e desvalorizadas.

A socióloga Helena Hirata analisa esse fenômeno sob a ótica das "cadeias globais de cuidado", onde mulheres filipinas ou latinas deixam seus próprios filhos com avós para cuidar dos filhos de mulheres europeias ou norte-americanas. No Brasil, Bila Sorj e Heleieth Saffioti discutem como a herança escravocrata naturalizou que o trabalho doméstico seja barato e disponível, criando uma "libertação feminina" que não questionou a divisão sexual do trabalho, apenas mudou a cor de quem o executa.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da transferência de ônus sem redistribuição de responsabilidade masculina. O mecanismo opera quando, ao invés de homens e Estado assumirem sua parcela no trabalho de reprodução social (creches públicas, licença paternidade real, divisão igualitária de tarefas), a solução encontrada é "contratar alguém". Isso cria um mercado de trabalho doméstico gigantesco e mal regulamentado, onde a força de trabalho é comprada a preços muito inferiores ao valor real que ela gera para a economia (pois sem cuidado, ninguém trabalha).

O mecanismo utiliza também a invisibilidade do vínculo afetivo-laboral. Diferente de um operário de fábrica, a trabalhadora doméstica ou babá opera na intimidade do lar, onde os limites entre "ajuda" e "trabalho" são borrados. A frase "ela é quase da família" serve para mascarar a exploração, justificando horas extras não pagas, ausência de contrato formal e a exigência de disponibilidade total (dormir no emprego). O sistema depende da vulnerabilidade econômica dessas mulheres, que aceitam condições precárias por falta de opções no mercado formal.

Exemplos

  • A babá que "dorme no serviço": Que é contratada para cuidar do bebê à noite, privando-se de sono e de vida social, por um salário que mal cobre o aluguel de seu barraco na favela.

  • A cuidadora de idosos sem formação: Que assume procedimentos de enfermagem complexos (trocar sonda, dar banho em acamado) ganhando salário mínimo e sem insalubridade.

  • A diarista sem direitos: Que trabalha na mesma casa por anos, três vezes na semana, mas a patroa insiste em chamá-la de diarista para não assinar a carteira.

  • A "filha de criação": Menina pobre trazida do interior para "estudar na cidade grande", que na verdade trabalha como empregada doméstica não remunerada em troca de teto e comida, em condições análogas à escravidão moderna.

Quem é afetado

As mulheres racializadas e de baixa renda são as mais afetadas, constituindo a maioria absoluta das empregadas domésticas, diaristas e cuidadoras de idosos. Elas enfrentam longas jornadas de trabalho, muitas vezes longe de suas próprias famílias, vivendo o paradoxo de cuidar bem dos filhos dos outros enquanto seus próprios filhos ficam sozinhos em casa ou sob cuidados precários ("órfãos do cuidado").

As mulheres de classe média também são afetadas, embora de outra forma: elas vivem a culpa e a pressão do "duplo turno", pois a responsabilidade final pelo gerenciamento do lar continua sendo delas, mesmo que a execução seja terceirizada. Os homens continuam isentos. A sociedade perde coesão social, pois o cuidado, que deveria ser um valor ético central da comunidade, torna-se apenas mais uma mercadoria (commodity) acessível apenas a quem pode pagar, aprofundando o abismo entre ricos e pobres.

Por que é invisível

A terceirização do cuidado é invisibilizada pela arquitetura do espaço privado. O trabalho acontece dentro de casas fechadas, longe dos olhos dos sindicatos e da fiscalização do Ministério do Trabalho. O que acontece na cozinha ou no quarto da empregada é considerado "assunto de família". A invisibilidade é mantida pela desvalorização histórica do trabalho reprodutivo: limpar banheiros e trocar fraldas é visto como algo "que qualquer um faz" e "não-produtivo", logo, não merece status de profissão.

Além disso, a invisibilidade decorre da naturalização da servidão. No Brasil, ter uma empregada doméstica é um símbolo de status tão arraigado que a classe média se sente "órfã" quando leis trabalhistas (como a PEC das Domésticas) encarecem esse serviço. A sociedade se recusa a ver a trabalhadora doméstica como uma profissional com direitos, preferindo vê-la como uma "serviçal" cuja função é facilitar a vida dos patrões. A invisibilidade só é rompida por tragédias (como o caso do menino Miguel, filho de uma empregada, que caiu de um prédio enquanto a mãe passeava com o cachorro da patroa) que expõem a crueldade dessa relação.

Efeitos

  • Precarização do trabalho feminino: Milhões de mulheres presas em empregos informais, sem INSS ou FGTS.
  • Déficit de cuidado nas periferias: Mães que saem de madrugada para cuidar dos lares do centro, deixando as periferias desassistidas.
  • Manutenção do patriarcado: Homens continuam sem lavar um prato, pois se não é a esposa que lava, é a empregada, nunca eles.
  • Rompimento de vínculos familiares das trabalhadoras: Mulheres que perdem a infância de seus próprios filhos porque só têm folga a cada 15 dias (no caso de mensalistas que dormem no emprego).

Autores brasileiros

  • Helena Hirata
  • Bila Sorj
  • Heleieth Saffioti

Autores estrangeiros

  • Silvia Federici
  • Nancy Fraser
  • Arlie Hochschild

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