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Vigilância de testosterona

Política discriminatória de entidades esportivas que controla e pune atletas mulheres (majoritariamente negras e do Sul Global) com níveis naturais de testosterona considerados 'altos', impondo intervenções médicas forçadas em nome de uma suposta 'justiça' biológica.

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Definição

A vigilância de testosterona é um mecanismo de controle biopolítico que atua nas fronteiras do gênero dentro do esporte de alto rendimento. Sob o pretexto de garantir o "fair play" (jogo justo) na categoria feminina, federações internacionais como a World Athletics impõem limites arbitrários para a produção endógena (natural) de testosterona em mulheres. Atletas que ultrapassam esses limites — quase invariavelmente mulheres negras, africanas e com características intersexo — são impedidas de competir, a menos que se submetam a tratamentos hormonais ou cirúrgicos para reduzir sua performance.

Essa prática é denunciada por pesquisadoras como Silvana Goellner e Anaïs Bohuon como uma atualização dos antigos "testes de feminilidade". Não se trata apenas de biologia, mas de proteger um ideal de "mulher" construído pelo Norte Global: branca, magra, sem músculos excessivamente definidos e biologicamente "frágil". Quando uma mulher negra desafia esse padrão com desempenho excepcional, seu gênero é colocado em dúvida, e seu corpo torna-se alvo de escrutínio público e intervenção médica.

Como funciona

O processo geralmente começa com a "suspeita visual". Uma atleta tem um desempenho extraordinário e possui traços físicos que fogem ao estereótipo de feminilidade ocidental. A partir dessa suspeita, ela é submetida a exames invasivos para determinar seu cariótipo e níveis hormonais. Se for constatado hiperandrogenismo (produção natural elevada de andrógenos), ela recebe um ultimato: ou abandona a carreira, ou toma medicamentos anticoncepcionais/bloqueadores hormonais para baixar a testosterona a níveis "aceitáveis", ou realiza cirurgias (como a remoção de gônadas internas).

A lógica é falaciosa porque o esporte de elite é, por definição, o lugar da vantagem biológica (como a altura de um jogador de basquete ou a envergadura de um nadador como Michael Phelps). No entanto, apenas a vantagem hormonal natural de mulheres negras é tratada como "injusta" e passível de punição.

Exemplos

  • Caso Caster Semenya: A bicampeã olímpica foi proibida de defender seu título nos 800m porque se recusou a tomar medicamentos para reduzir sua testosterona natural, travando uma batalha judicial de anos contra a World Athletics.

  • Exclusão Olímpica: Nas Olimpíadas de Tóquio, várias atletas namibianas favoritas aos 400m foram barradas dias antes da competição devido aos níveis hormonais.

  • Cirurgias Desnecessárias: Relatos de atletas jovens de países em desenvolvimento que foram aconselhadas por médicos de federações a removerem gônadas internas (clitoridectomia ou gonadectomia) como única forma de continuarem competindo, uma violação grave de direitos humanos.

  • Testes de "Feminilidade": A prática histórica de fazer atletas desfilarem nuas ou terem seus genitais examinados por médicos antes de competições, que evoluiu para o teste hormonal atual, mas mantém a mesma lógica de controle.

Quem é afetado

O alvo é extremamente específico: mulheres negras do Sul Global. Casos emblemáticos como os de Caster Semenya (África do Sul), Dutee Chand (Índia), Francine Niyonsaba (Burundi) e Christine Mboma (Namíbia) demonstram que a regra não atinge mulheres brancas com variações hormonais na mesma proporção. É uma política que afeta mulheres intersexo (que nascem com características sexuais que não se encaixam nas noções binárias típicas) e mulheres cisgênero com hiperandrogenismo, criminalizando sua fisiologia natural.

Por que é invisível

A vigilância é camuflada sob a retórica da "proteção da categoria feminina". O argumento é que, sem esse controle, mulheres "biológicas comuns" não teriam chance de vitória. Isso cria uma falsa oposição entre mulheres, escondendo o racismo científico que embasa a regra. A invisibilidade também ocorre porque os processos médicos e legais correm em sigilo (supostamente para proteger a atleta), mas que na prática isolam a vítima, impedindo que o público compreenda a violência de ter seu corpo dissecado e julgado por um comitê de homens brancos na Suíça.

Efeitos

Os efeitos são devastadores para a saúde física e mental das atletas. A medicação forçada traz efeitos colaterais graves (ganho de peso, depressão, osteoporose, perda de vigor físico). Psicologicamente, a atleta sofre a humilhação pública de ter sua identidade de mulher questionada mundialmente. Profissionalmente, carreiras são destruídas no auge. Em um nível mais amplo, essa vigilância reforça o binarismo de gênero rígido e a ideia colonial de que corpos negros são "bestiais" ou "masculinizados", não merecendo ocupar o lugar de excelência feminina.

Autores brasileiros

  • Silvana Goellner
  • Wagner Xavier de Camargo
  • Katia Rubio

Autores estrangeiros

  • Katrina Karkazis
  • Anaïs Bohuon
  • Caster Semenya

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