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Censura cultural

Mecanismos de interdição e controle, estatais ou sociais, que visam silenciar, criminalizar ou inviabilizar manifestações artísticas e intelectuais de grupos oprimidos (como a arte queer e o funk), frequentemente sob justificativas morais ou de ordem pública.

CulturaPoderArteSociedadeDireito à expressão

Definição

A censura cultural refere-se aos mecanismos de interdição, silenciamento ou inviabilização de manifestações artísticas, intelectuais e simbólicas de grupos específicos, frequentemente sob o disfarce de defesa da "moral", dos "bons costumes" ou da "ordem pública". Diferente da censura estatal explícita de regimes ditatoriais, a censura cultural nas democracias contemporâneas opera através de cortes de financiamento, pressões de grupos organizados em redes sociais, ações judiciais estratégicas e a criminalização de expressões culturais periféricas ou dissidentes (como a arte queer, o funk e religiões de matriz africana).

O conceito é atravessado pelas obras de Michel Foucault, que analisa o controle dos corpos e discursos, e Judith Butler, que discute como certas vidas e expressões são consideradas "não-vivíveis" ou "indignas" de espaço público. No Brasil, o curador Gaudêncio Fidelis tornou-se uma referência após o fechamento da exposição "Queermuseu", denunciando a ascensão de um autoritarismo social que utiliza a arte como bode expiatório para guerras ideológicas. O pesquisador Danilo Cymrot também contribui ao analisar a criminalização histórica e estética do funk no cenário jurídico e social brasileiro.

Como funciona

A censura cultural funciona através de uma gramática de deslegitimação. O primeiro passo é o pânico moral: grupos conservadores ou o próprio Estado identificam uma obra ou manifestação como "ameaçadora" para as crianças ou para os valores tradicionais. Isso justifica ações administrativas, como o cancelamento de editais, ou ações diretas, como o cerceamento físico de espaços culturais. A censura moderna não precisa necessariamente proibir a obra; basta tornar sua circulação impossível por meio do medo, da asfixia financeira ou do linchamento virtual do artista.

Outro mecanismo comum é a seletividade penal e administrativa. Enquanto manifestações culturais da elite são protegidas pelo direito à liberdade de expressão, manifestações de grupos subalternizados (periferias, populações negras, LGBTQIA+) são tratadas como "questão de polícia" ou "perturbação do sossego". O uso excessivo de decibéis, por exemplo, é invocado para silenciar terreiros e bailes funk, enquanto festivais de música erudita em áreas residenciais raramente enfrentam o mesmo rigor.

Exemplos

  • O fechamento da Queermuseu: O encerramento precoce de uma exposição de arte em Porto Alegre após ataques coordenados de grupos que alegavam (falsamente) apologia à pedofilia, gerando um efeito dominó de censura em outras instituições.

  • A repressão policial ao funk: Operações policiais violentas em bailes funk de periferia sob a justificativa de combate ao tráfico ou perturbação da ordem, enquanto festas de música eletrônica em bairros nobres operam livremente.

  • Ataques a terreiros de Candomblé: A destruição de símbolos religiosos e o impedimento de rituais sob acusações de "barulho" ou "culto demoníaco", operando uma modalidade de censura religiosa e cultural cruzada.

  • Cancelamento de editais para produções LGBTQIA+: A suspensão de recursos públicos para filmes ou peças teatrais com temática de diversidade por decisão direta de governos, sob o argumento de que tais temas não seriam "prioridade do Estado".

Quem é afetado

Os principais afetados são artistas e comunidades que produzem cultura a partir de perspectivas críticas, periféricas ou de diversidade sexual e de gênero. Grupos subalternizados em termos raciais, de classe e de orientação sexual veem seu capital simbólico ser atacado como forma de desumanização. Quando a cultura de um povo é silenciada, sua capacidade de imaginar futuros e de se reivindicar como cidadão pleno é diretamente atingida.

A sociedade em geral também é prejudicada, pois a censura cultural empobrece o debate público e restringe a pluralidade de visões de mundo. Cria-se uma "bolha de conformismo" onde apenas o que é considerado "seguro" ou "tradicional" ganha visibilidade, sufocando a inovação estética e o pensamento crítico necessários para o desenvolvimento democrático.

Por que é invisível

A censura cultural é invisibilizada porque raramente se assume como tal. Ela se apresenta sob a capa da legalidade ("estamos apenas cumprindo a lei do silêncio") ou da ética ("estamos protegendo a infância"). Ao usar categorias vagas como "obscenidade" ou "atentado ao pudor", os censores modernos evitam o rótulo de autoritários, alegando estar agindo em nome da vontade da maioria.

Além disso, a autocensura é um efeito invisível e devastador. Diante do medo de represálias, perda de patrocinadores ou ataques físicos, artistas e instituições culturais passam a evitar temas "polêmicos", resultando em um silenciamento preventivo que não deixa rastros em processos judiciais, mas que aniquila a potência da criação artística antes mesmo dela vir a público.

Efeitos

  • Erosão da liberdade de expressão: Normalização de práticas autoritárias que podem, futuramente, ser aplicadas a qualquer grupo ou ideia dissidente.
  • Epistemicídio e apagamento cultural: A destruição sistemática de formas de conhecimento e expressão de grupos oprimidos, impedindo que sua história seja registrada e valorizada.
  • Asfixia econômica do setor cultural: Destruição de cadeias produtivas inteiras que dependem da diversidade e da experimentação para sobreviver.
  • Aumento da violência social: A criminalização da cultura de um grupo frequentemente serve como prelúdio ou justificativa para a violência física contra essas mesmas pessoas em outros âmbitos.

Autores brasileiros

  • Gaudêncio Fidelis
  • Danilo Cymrot

Autores estrangeiros

  • Judith Butler
  • Michel Foucault

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