Isso tem nome
Voltar para o catálogo

Comida de escravo

Termo pejorativo e racista utilizado para desvalorizar tecnologias alimentares ancestrais e pratos da culinária afro-brasileira. Ao associar a comida negra à escravidão, o termo ignora a riqueza cultural, a capacidade de adaptação e a resistência por trás dessas tradições, perpetuando o epistemicídio culinário e a violência simbólica contra a identidade negra.

CulináriaRacismoHistóriaViolência SimbólicaResistência

Definição

O termo comida de escravo é uma expressão pejorativa e racista utilizada para desmerecer a culinária afro-brasileira, reduzindo tecnologias ancestrais de preservação e preparo de alimentos à condição de "restos" ou "subprodutos" da escravidão. Essa nomenclatura ignora a agência técnica e a sofisticação cultural das populações escravizadas, que transformaram os ingredientes disponíveis em poderosas ferramentas de resistência e identidade, como o acarajé, a feijoada e o vatapá.

A intelectual Lélia Gonzalez e a filósofa Sueli Carneiro apontam esse fenômeno como parte do epistemicídio, ou seja, o apagamento do conhecimento produzido por pessoas negras. Ao rotular pratos complexos como "comida de escravo", a branquitude opera uma violência simbólica que despoja o povo negro de seu capital cultural gastronômico. No Brasil, pesquisadores como Josimar Silva trabalham para desconstruir esses mitos, evidenciando que a culinária negra não foi um acidente de sobras, mas uma sistematização de saberes africanos adaptados ao solo brasileiro.

Como funciona

A expressão funciona por meio de uma inversão narrativa histórica. O mito de que a culinária negra surgiu exclusivamente do que "sobrou da mesa dos senhores" serve para manter a ideia de que o negro era um ser passivo, dependente da caridade ou da negligência alheia para se alimentar. Na realidade, muitas das técnicas (como o uso do dendê e a preservação de carnes) eram conhecimentos trazidos da África que os colonizadores não possuíam.

Ao utilizar essa expressão, retira-se o valor comercial e estético da gastronomia afro-brasileira, relegando-a ao lugar do pitoresco, do barato ou do "pesado". Quando esses mesmos pratos são "descobertos" e refinados por chefs brancos, eles são frequentemente renomeados ou elevados ao status de "gastronomia contemporânea", configurando um processo de apropriação cultural que lucra sobre a mesma tradição que o termo "comida de escravo" visa humilhar.

Exemplos

  • A narrativa da feijoada de "restos": Repetir que a feijoada surgiu porque os escravizados comiam orelha e pé de porco descartados, ignorando que essas partes eram iguarias em várias culturas e exigiam técnicas complexas de preparo.

  • Cardápios "exóticos": Restaurantes que tratam pratos africanos como "curiosidades históricas da época da escravidão" em vez de tratá-los como alta gastronomia com técnica e história própria.

  • Comentários de desdém: Utilizar a expressão para se referir a pratos com ingredientes fortes ou vísceras, associando o gosto pessoal à uma suposta inferioridade de classe e raça dos criadores do prato.

  • Publicidade descontextualizada: Campanhas de turismo que usam a imagem de mulheres negras cozinhando para vender um "Brasil colonial romântico", sem remunerar ou reconhecer a autoridade técnica dessas mulheres.规律。

Quem é afetado

As comunidades negras e os detentores de saberes tradicionais, como as Baianas de Acarajé e os cozinheiros de terreiro, são os principais afetados. O uso do termo gera um estigma sobre seus produtos e saberes, afetando sua autoestima e sua viabilidade econômica. Além disso, a população negra como um todo sofre ao ver sua história de inteligência e criatividade ser reduzida a uma narrativa de submissão e pobreza extrema.

A sociedade brasileira, de forma geral, é afetada por uma educação gastronômica distorcida que impede o reconhecimento da culinária como um pilar de nossa civilização. O racismo alimentar alimentado por essa expressão contribui para a desvalorização de ingredientes locais e técnicas tradicionais, empobrecendo a cultura nacional e mantendo vivo um vocabulário colonial que deveria ter sido superado.

Por que é invisível

A invisibilidade dessa violência reside na sua aceitação como "fato histórico". Muitos livros didáticos e guias de turismo repetiram por décadas a história da feijoada como o prato feito com os "restos de porco que os senhores não queriam", sem nunca questionar a lógica econômica da época — na qual o escravizado era uma "propriedade" cara demais para ser alimentada apenas com resíduos sem valor nutricional. Essa desinformação sistemática fez com que a expressão se tornasse parte do "senso comum".

O termo também se oculta por trás de uma suposta "identidade nacional" que celebra a feijoada enquanto ignora ou despreza o povo que a criou. Ao transformar a comida em um símbolo abstrato de "brasilidade", apaga-se a autoria negra e a dor da escravização, permitindo que a expressão continue circulando como se fosse apenas uma descrição técnica, e não um insulto à memória ancestral.

Efeitos

  • Epistemicídio culinário: Apagamento das técnicas e conhecimentos científicos ancestrais que fundamentam a cozinha brasileira.
  • Desvalorização econômica: Redução do preço e do prestígio de pratos afro-brasileiros em comparação a culinárias de matriz europeia.
  • Dano à autoimagem negra: Reforço da ideia de que a negritude é sinônimo de precariedade e subordinação, mesmo em seus momentos de criação.
  • Apropriação Cultural: Facilitação para que grupos dominantes capturem o lucro e o prestígio da culinária negra após despojá-la de seu nome e história original.

Autores brasileiros

  • Josimar Silva
  • Lélia Gonzalez
  • Sueli Carneiro

Autores estrangeiros

  • bell hooks
  • Claude Lévi-Strauss

Temas relacionados