Cosplay de sagrado
O cosplay de sagrado é a apropriação descontextualizada de elementos, vestimentas e ritos de religiões, especialmente as de matriz africana, para fins recreativos ou de fantasia. Esta prática transforma símbolos de profunda resistência e fé em meros adereços estéticos, banalizando o significado espiritual e contribuindo para o racismo religioso através da folclorização das crenças alheias.
Definição
O fenômeno do cosplay de sagrado refere-se à utilização de indumentárias e objetos ritualísticos de religiões subalternizadas — como o candomblé e a umbanda — como se fossem fantasias de lazer, especialmente em contextos como o carnaval e festas temáticas. Segundo o babalorixá e linguista Sidnei Nogueira, essa prática é uma manifestação do racismo religioso que busca esvaziar o poder simbólico das divindades africanas, transformando-as em mercadoria ou entretenimento. Quando alguém se veste de orixá sem pertencer à tradição ou sem a permissão dos detentores desse conhecimento, ocorre uma profanação do sagrado que ignora séculos de perseguição e violência sofrida por essas comunidades para manter seus ritos vivos.
Sueli Carneiro ajuda a compreender essa dinâmica através do conceito de dispositivo de racialidade, onde o racismo não apenas exclui, mas também se apropria e distorce a cultura negra para servir à hegemonia branca. O cosplay de sagrado é, portanto, uma violência simbólica que separa a estética da ética religiosa. Diferente de uma homenagem, que pressupõe diálogo e autoridade compartilhada, o cosplay religioso é um ato unilateral de consumo cultural que reforça a ideia colonial de que as religiões africanas são menos complexas ou menos dignas de respeito do que as religiões abraâmicas tradicionais.
Como funciona
O mecanismo do cosplay de sagrado funciona através da carnavalização da fé. Elementos como contas (guias), roupas de santo, ferramentas de orixás e pinturas corporais ritualísticas são retirados de seu tempo e espaço sagrado para serem usados em locais de profanação. A sociedade branca hegemônica utiliza esses símbolos como "exóticos" ou "pitorescos", despojando-os de sua carga de resistência histórica. O antropólogo Rodney William destaca que essa prática é marcada por estereótipos: muitas vezes a representação é feita de forma caricata ou hipersexualizada, ignorando que cada peça de roupa ou acessório em uma religião de matriz africana possui um fundamento teológico e um tempo litúrgico específico.
O processo de funcionamento também envolve o apagamento da origem. Ao transformar o sagrado em fantasia, a sociedade silencia as vozes dos terreiros que ainda hoje sofrem ataques físicos e demonização por parte de grupos intolerantes. É uma lógica perversa onde o mesmo símbolo que pode levar um praticante a ser agredido na rua é celebrado como "estiloso" ou "ousado" quando usado por uma pessoa fora da religião. Esse esvaziamento de sentido impede que a sociedade reconheça a seriedade teológica dessas crenças, tratando-as como folclore ou curiosidade antropológica.
Exemplos
Utilizar guias de orixás ou colares ritualísticos como acessórios de moda em festas ou blocos de rua, sem compreender que cada cor e conta corresponde a um grau hierárquico e a uma obrigação religiosa.
Vestir-se com indumentárias completas de orixás (como a roupa de Iemanjá ou os paramentos de Exu) como fantasia de carnaval, frequentemente misturando elementos que, na religião, jamais seriam associados.
O uso comercial de símbolos sagrados em desfiles de moda de luxo, onde modelos brancas desfilam com elementos do candomblé sem qualquer vinculação com comunidades de terreiro ou retorno para essas comunidades.
Representações folclóricas em peças de teatro ou filmes que reduzem entidades espirituais a figuras cômicas, místicas ou vilanizadas, desrespeitando a liturgia e o dogma das religiões de matriz africana.
Quem é afetado
Os principais afetados são os povos de terreiro e os praticantes de religiões afro-brasileiras. Para estas comunidades, o uso indevido de seus símbolos sagrados é sentido como uma agressão profunda e um desrespeito à sua ancestralidade. O cosplay de sagrado atinge também a memória coletiva da população negra, uma vez que as religiões de matriz africana foram o principal reduto de preservação da cultura e da dignidade humana durante e após o período da escravidão. Quando o sagrado é carnavalizado, a luta política e espiritual dessas pessoas é diminuída, reforçando-se o estigma de que sua fé é inferior ou meramente decorativa.
Por que é invisível
A prática é invisível como racismo porque o carnaval e a moda são frequentemente vistos como territórios neutros ou de "integração cultural". Existe um mito da democracia racial no Brasil que sugere que todos podem usar tudo de todos sem que isso signifique opressão. A falta de conhecimento teológico da população geral sobre o candomblé e a umbanda contribui para que as pessoas não percebam quando estão cruzando o limite entre o respeito e a profanação. Além disso, a mídia e a indústria do entretenimento frequentemente validam essas apropriações, tratando-as como "homenagens" sem consultar os líderes religiosos que são os guardiões desses símbolos.
Efeitos
Os efeitos do cosplay de sagrado incluem o reforço do racismo religioso e a manutenção de hierarquias culturais. No nível institucional, essa prática dificulta o combate à intolerância, pois se o sagrado é tratado como brinquedo ou adereço, a sociedade deixa de levar a sério as denúncias de violência contra os templos e praticantes. Psicologicamente, gera um sentimento de violação e impotência nas comunidades ofendidas. De acordo com Vagner Gonçalves da Silva, o esvaziamento do sentido religioso para fins de consumo estético contribui para o desaparecimento dos fundamentos das religiões originais, substituindo a complexidade de uma fé ancestral por uma versão simplificada e palatável para o olhar branco.
Autores brasileiros
- Sueli Carneiro
- Sidnei Nogueira
- Vagner Gonçalves da Silva
- Rodney William
Autores estrangeiros
- Stuart Hall
- Edward Said
- Niyi Afolabi
