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Descrédito da palavra

O descrédito da palavra é um mecanismo de injustiça epistêmica onde o testemunho ou o conhecimento de um sujeito é sistematicamente invalidado devido a preconceitos de raça, gênero ou classe. Esta prática retira da pessoa a autoridade sobre sua própria vivência, transformando suas denúncias em 'delírios', 'exageros' ou 'mentiras'.

Definição

O descrédito da palavra é a manifestação prática do que a filosofia chama de injustiça testemunhal, um dos braços da injustiça epistêmica conceituada por Miranda Fricker e expandida no Brasil por Sueli Carneiro. Trata-se de um déficit de credibilidade atribuído a um falante não pelo conteúdo do que ele diz, mas pela identidade que ele carrega. Em uma sociedade estruturada pelo racismo e pelo sexismo, a palavra do homem branco é tida como a norma da verdade e da razão, enquanto a palavra de mulheres, pessoas negras e outros grupos minorizados é recebida com desconfiança prévia.

Sueli Carneiro define esse processo como parte do epistemicídio: a anulação da capacidade do outro de ser reconhecido como sujeito de conhecimento válido. No contexto jurídico brasileiro, Adilson Moreira aponta como esse descrédito opera institucionalmente, onde juízes e promotores frequentemente ignoram ou minimizam relatos de racismo e injúria racial, reclassificando-os como "meros aborrecimentos" ou "brincadeiras", recusando-se a enxergar a realidade descrita pela vítima.

Como funciona

O funcionamento desse descrédito baseia-se em estereótipos negativos enraizados no imaginário social. Mulheres são historicamente associadas à "emoção descontrolada" ou à "loucura" (histeria), o que serve de pretexto para invalidar seus discursos como irracionais. Pessoas negras, por sua vez, são estereotipadas como "ressentidas", "vitimistas" ou moralmente suspeitas. Quando uma mulher negra fala, ela enfrenta a intersecção dessas duas barreiras: sua palavra vale menos por ser mulher e vale menos por ser negra.

Segundo Valeska Zanello, esse mecanismo é reforçado pelo "dispositivo amoroso" e pela socialização de gênero, que treinam as mulheres para duvidarem de si mesmas (autodescrédito) e buscarem validação externa. O agressor ou o sistema opressor utiliza essa dúvida para manipular a realidade (gaslighting), fazendo com que a vítima precise apresentar provas extraordinárias para fatos que, se fossem relatados por um homem branco, seriam aceitos imediatamente como verdade.

Exemplos

  • Uma mulher que denuncia violência doméstica na delegacia e é questionada pelo policial se ela "não fez algo para irritar o marido", deslocando o foco da agressão para o comportamento da vítima.

  • Pacientes negros que relatam sintomas de dor intensa e recebem menos medicação analgésica do que pacientes brancos, pois a equipe médica subconscientemente acredita que seu relato é exagerado.

  • Funcionárias que apontam práticas racistas no ambiente corporativo e são rotuladas pelo RH como "conflituosas" ou "difíceis", enquanto a denúncia é arquivada sem investigação.

  • A exigência de testemunhas oculares para validar crimes que ocorrem tipicamente no privado (como assédio sexual), ignorando a palavra da vítima como prova suficiente para iniciar uma investigação séria.

Quem é afetado

As principais vítimas são mulheres, especialmente mulheres negras, indígenas e pessoas pobres. No sistema de justiça, isso se traduz em estatísticas onde denúncias de violência doméstica ou sexual feitas por esses grupos têm menores taxas de condenação do agressor. Pessoas com transtornos mentais ou neurodivergentes também sofrem esse descrédito de forma aguda, tendo sua autonomia cassada sob o rótulo da incapacidade.

Por que é invisível

O fenômeno é invisível para quem o pratica porque está naturalizado na cultura como "bom senso" ou "ceticismo saudável". Duvidar da palavra de uma mulher que denuncia assédio é visto como "presunção de inocência" do acusado, mesmo quando essa dúvida é desproporcional e enviesada. A invisibilidade é mantida pela hegemonia branca e masculina nos espaços de poder (mídia, judiciário, academia), que define o que é considerado "objetivo" e "neutro", descartando vivências subalternas como "subjetivas" ou "identitárias" demais para serem levadas a sério.

Efeitos

Os efeitos vão desde o adoecimento psíquico até a impunidade criminal. A vítima que tem sua palavra desacreditada sistematicamente entra em um processo de erosão da subjetividade, passando a acreditar que sua percepção da realidade é falha. Coletivamente, isso gera o silenciamento de grupos inteiros, que deixam de denunciar abusos por saberem que não serão ouvidos. No campo do conhecimento, a sociedade perde saberes valiosos que são descartados antes mesmo de serem compreendidos, empobrecendo a ciência e a cultura.

Autores brasileiros

  • Sueli Carneiro
  • Adilson Moreira
  • Djamila Ribeiro
  • Valeska Zanello

Autores estrangeiros

  • Miranda Fricker
  • Grada Kilomba
  • Patricia Hill Collins

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