Estigma da menstruação
Desvalorização, vergonha e silenciamento associados ao ciclo menstrual, transformando-o em tabu e resultando em discriminação das pessoas que menstruam.
Definição
O estigma da menstruação refere-se ao conjunto de tabus, proibições sociais e sentimentos de vergonha e nojo associados ao ciclo menstrual. Esse fenômeno trata um processo biológico natural como algo "sujo", "impuro" ou "secreto", forçando as pessoas que menstruam a ocultarem qualquer sinal de sua condição. O estigma não é apenas um desconforto individual, mas uma barreira estrutural que afeta a saúde, a educação e a dignidade das pessoas, contribuindo para o que se chama de pobreza menstrual.
No Brasil, o debate avançou significativamente com a sanção da Lei da Dignidade Menstrual e o trabalho de ativistas como Bela Gil, que questionam a medicalização e o lixo gerado por produtos descartáveis, além de denunciar a falta de acesso básico a absorventes. Dados da UNICEF (2024) mostram que o estigma é um dos principais motivos de evasão escolar no país, pois muitas jovens deixam de frequentar a escola durante o período menstrual por medo de "vazamentos" e pela falta de infraestrutura adequada nos banheiros escolares.
Como funciona
O estigma funciona através do silêncio e da linguagem codificada. Menstruar é tratado como "aqueles dias" ou "estar incomodada", evitando-se o nome real do processo para manter a ideia de que o sangue menstrual é repulsivo. Nas famílias e escolas, a falta de educação menstrual aberta faz com que a primeira menstruação seja vivida como um trauma ou um segredo vergonhoso, em vez de um marco biológico saudável. Isso gera uma desconexão da pessoa com seu próprio corpo, tratando a saúde reprodutiva como um fardo.
Funciona também pela exclusão econômica. A falta de políticas de distribuição gratuita de absorventes para populações vulneráveis obriga muitas pessoas a usarem métodos inseguros (como pedaços de pano, papel jornal ou miolo de pão), o que aumenta o risco de infecções graves. O estigma impede que o tema seja tratado como uma questão de saúde pública séria, relegando-o ao âmbito privado e "feminino", o que justifica a desatenção do Estado e o alto custo tributário sobre os produtos menstruais.
Exemplos
Esconder o absorvente na manga: A prática comum de estudantes esconderem o absorvente ao irem ao banheiro, para que ninguém perceba que estão menstruadas, reforçando a ideia de segredo vergonhoso.
Minimizar a dor menstrual: Um gestor ou colega que faz comentários desdenhosos quando uma funcionária relata mal-estar por cólica, tratando o sofrimento físico como "desculpa para não trabalhar".
Falta de lixeiras e água: Banheiros públicos ou escolares que não possuem lixeiras adequadas ou trincos nas portas, impedindo que a troca do absorvente seja feita com privacidade e higiene.
Mitos culturais e religiosos: Crenças de que a pessoa menstruada não pode cozinhar, praticar exercícios físicos ou entrar em templos, restringindo seu direito de ir e vir e de participação comunitária.
Quem é afetado
As principais afetadas são as mulheres cisgênero, homens trans e pessoas não binárias que menstruam, especialmente em contextos de pobreza e vulnerabilidade social. O impacto é severo para estudantes de escolas públicas, mulheres em situação de rua e pessoas encarceradas, que sofrem com a falta crônica de itens de higiene e de água encanada, transformando o ciclo menstrual em um período de punição e humilhação.
Também são afetados os ambientes profissionais, onde as dores menstruais (cólicas severas ou endometriose) são frequentemente minimizadas ou tratadas como "frescura", impedindo que a trabalhadora tenha acesso a repouso ou tratamento sem sofrer julgamentos sobre sua produtividade. O estigma atinge a sociedade como um todo ao perpetuar mitos que restringem a participação das pessoas que menstruam em atividades físicas, religiosas ou sociais durante seu ciclo.
Por que é invisível
O estigma da menstruação é invisibilizado pela própria vergonha que ele produz. Uma pessoa que se sente envergonhada por menstruar não fala sobre o assunto, o que impede a percepção da magnitude do problema. A publicidade de absorventes historicamente contribuiu para essa invisibilidade ao usar líquidos azuis em vez de vermelhos para representar o sangue e ao focar excessivamente na "discrição" e no "cheiro", reforçando a ideia de que a menstruação deve ser mantida oculta a qualquer custo.
Além disso, a falta de dados e de pesquisas sobre saúde menstrual silencia o problema. O Estado muitas vezes ignora as necessidades de saneamento básico nas escolas e presídios por considerar que o cuidado menstrual é um "luxo" ou uma escolha individual, e não um requisito básico de direitos humanos. O apagamento das vivências de homens trans que menstruam também é uma forma de invisibilidade que gera exclusão nos serviços de ginecologia, que são desenhados exclusivamente para o público feminino cis.
Efeitos
- Evasão escolar e acadêmica: Perda de cerca de 45 dias de aula por ano para jovens que não possuem absorventes ou sofrem com o estigma no ambiente escolar.
- Riscos à saúde física: Infecções urinárias e genitais causadas pelo uso de materiais improvisados ou pela permanência prolongada com o mesmo absorvente para economizar.
- Danos à saúde mental: Baixa autoestima, sensação de inadequação e ansiedade constante em relação ao corpo e à possibilidade de "sujar" roupas em espaços públicos.
- Barreiras econômicas: O custo elevado dos produtos de higiene menstrual representa um impacto significativo no orçamento de famílias de baixa renda, forçando a escolha entre comida e higiene.
Autores brasileiros
- Valeska Zanello
Autores estrangeiros
- Emily Martin
- Chris Bobel
