Etarismo digital
Exclusão de pessoas idosas do ambiente digital e da tecnologia, reforçando o isolamento social e obsolescência.
Definição
O etarismo digital (ou aversão tecnológica etária) é o preconceito e a discriminação direcionados a pessoas mais velhas no contexto das tecnologias digitais. Ele se manifesta através da crença estereotipada de que idosos são incapazes de aprender a usar novas ferramentas, da criação de interfaces que ignoram as necessidades desse público e da exclusão sistemática de pessoas 60+ de serviços essenciais que foram digitalizados sem uma transição inclusiva. Trata-se de uma forma de barreira social que isola o idoso da cidadania moderna, tratando a fluência digital como um atributo exclusivo dos jovens.
No Brasil, especialistas como Fran Winandy e Cindia Moraca discutem como o etarismo digital se agravou com a digitalização acelerada de serviços como o INSS, o SUS e as operações bancárias. Em 2024, embora o acesso à internet entre idosos tenha crescido, a falta de letramento digital orientado e o design excludente de aplicativos forçam milhões de brasileiros a dependerem de terceiros para realizar tarefas básicas, o que fere sua autonomia e os torna alvos fáceis de golpes e fraudes financeiras.
Como funciona
O etarismo digital funciona, primeiramente, pelo design excludente. Interfaces com fontes minúsculas, fluxos de navegação complexos e sistemas de segurança que exigem rapidez visual e motora são projetados sem considerar as naturais mudanças sensoriais do envelhecimento. Quando um idoso tem dificuldade em usar um aplicativo, a sociedade costuma culpar o indivíduo pela sua "lentidão" ou "desatualização", em vez de culpar o sistema que falhou em seguir princípios universais de acessibilidade.
Além disso, funciona através de vieses algorítmicos e de mercado. No mercado de trabalho, algoritmos de filtragem de currículos podem penalizar candidatos mais velhos em vagas que exigem "perfil inovador" ou "domínio tecnológico", baseando-se no preconceito de que eles serão mais lentos ou resistentes a mudanças. Na esfera social, o etarismo digital manifesta-se no "paternalismo tecnológico", onde familiares e atendentes tratam o idoso com impaciência ou retiram-lhe o celular da mão com a atitude de "deixa que eu faço para você", impedindo que ele aprenda e ganhe confiança na ferramenta.
Exemplos
A prova de vida digital fallha: Um sistema de reconhecimento facial que não reconhece traços de pele idosa ou que exige movimentos de cabeça rápidos demais, impedindo que o aposentado comprove sua existência e receba seu benefício.
A impaciência do atendente: Um funcionário de banco que fala de forma técnica e rápida com um cliente idoso, revirando os olhos quando ele pede para repetir a instrução sobre como usar o caixa eletrônico.
Exclusão em processos seletivos: Uma vaga de emprego que exige "nativa digital" como requisito implícito, servindo como uma barreira camuflada para impedir que profissionais experientes de 50+ se candidatem.
O design "clean" legível: Aplicativos de transporte ou entrega que utilizam cores de baixo contraste e ícones sem rótulos de texto, dificultando a navegação de quem possui presbiopia ou outras limitações visuais comuns no envelhecimento.
Quem é afetado
As principais afetadas são as pessoas com 60 anos ou mais, especialmente aquelas que vivem em situação de vulnerabilidade econômica e possuem menor escolaridade. O impacto é mais profundo para as mulheres idosas, que muitas vezes tiveram carreiras interrompidas ou menos acesso à tecnologia durante a vida produtiva e agora enfrentam o duplo preconceito de gênero e idade.
Também são afetados os órgãos públicos e as empresas privadas, que deixam de atender de forma eficiente a uma parcela enorme e crescente da população (dado o envelhecimento demográfico do Brasil). A exclusão digital gera uma sobrecarga nos canais de atendimento presencial e telefônico, além de fomentar um mercado informal de "intermediários" que cobram para realizar serviços que deveriam ser gratuitos e autônomos.
Por que é invisível
O etarismo digital é invisibilizado pela ideia de que a dificuldade técnica é um "problema individual" e inevitável da velhice. A sociedade aceita como natural que uma pessoa mais velha se sinta perdida em um mundo digital, não percebendo que essa "confusão" é fabricada pela falta de pedagogia inclusiva e pelo preconceito dos desenvolvedores de software (que são, em sua maioria, jovens). O silenciamento ocorre porque o idoso, por vergonha de expor sua dificuldade, acaba se retraindo e parando de tentar, o que é lido como "falta de interesse".
Outro fator de invisibilidade é a glamourização da inovação. Trata-se o novo como algo inerentemente superior e o antigo como obsoleto, estendendo esse julgamento de obsolescência das máquinas para os seres humanos. O etarismo digital é o ruído de fundo de uma sociedade que valoriza a velocidade em detrimento da profundidade, tornando invisíveis as barreiras que impedem que a sabedoria acumulada pelas gerações anteriores circule nos novos meios de comunicação.
Efeitos
- Perda de autonomia: A necessidade constante de pedir ajuda a filhos, netos ou estranhos para consultar saldos, marcar consultas ou preencher formulários estatais.
- Isolamento de cidadania: Milhões de brasileiros que ficam de fora de programas de governo e benefícios por não conseguirem navegar nos portais Gov.br ou Meu INSS.
- Vulnerabilidade a crimes digitais: A falta de letramento sobre segurança online torna os idosos os alvos preferenciais de golpes de phishing, links falsos e extorsão por redes sociais.
- Impacto na saúde mental: Sentimentos de inutilidade, solidão e ansiedade decorrentes da sensação de estar "sobrando" em um mundo cada vez mais incompreensível.
Autores brasileiros
- Míriam Goldenberg
Autores estrangeiros
- Robert Butler
