Eugenia
A eugenia é uma ideologia pseudocientífica que defende o 'aprimoramento' genético da população humana através do controle reprodutivo. Historicamente, serviu como base para políticas racistas de 'branqueamento', esterlização forçada e segregação de pessoas com deficiência e não-brancas.
Definição
A eugenia, termo cunhado por Francis Galton em 1883, significa "bem nascido". Como movimento político e científico, buscou aplicar as leis da hereditariedade para melhorar a espécie humana, incentivando a reprodução dos "mais aptos" (eugenia positiva) e impedindo a dos "inaptos" (eugenia negativa). No Brasil, a eugenia teve características próprias, profundamente ligadas ao projeto de construção da nação no início do século XX. Diferente do modelo segregacionista norte-americano, a eugenia brasileira apostou na tese do branqueamento, acreditando que a miscigenação, se controlada e incentivada com a imigração europeia, eliminaria o "sangue negro" em poucas gerações.
Renato Kehl, o pai da eugenia no Brasil, radicalizou o discurso na década de 1920, defendendo medidas extremas como a esterilização e a proibição de casamentos inter-raciais. Historiadoras como Lilia Schwarcz e Pietra Diwan mostram que a eugenia no Brasil não foi um movimento marginal, mas sim uma política de Estado, influenciando a educação, a saúde pública e até a Constituição de 1934, que estabelecia a necessidade de estimular a "educação eugênica". A eugenia brasileira camuflou-se muitas vezes sob o manto do higienismo e da sanidade, tratando a pobreza e a cultura afro-brasileira como doenças a serem erradicadas.
Como funciona
A eugenia opera através da biopolítica, ou seja, do controle estatal sobre a vida biológica da população. Historicamente, ela foi implementada através de exames pré-nupciais obrigatórios para impedir uniões consideradas "degeneradas", além de concursos de "bebês robustos" e "famílias eugênicas" que visavam criar um ideal estético branco e saudável no imaginário popular. No campo das políticas migratórias, funcionou barramdo a entrada de grupos não-europeus, como asiáticos e africanos, para garantir a pureza nacional.
Mais drasticamente, a eugenia manifestou-se na internação compulsória de pessoas com deficiência mental ou física em manicômios e colônias, onde milhares morriam sob a tutela do Estado. Hoje, o fenômeno persiste de forma sutil através de tecnologias reprodutivas que permitem a seleção de embriões ou a eliminação de fetos com deficiência, reforçando a ideia de que certas vidas possuem menos valor social do que outras.
Exemplos
A política de imigração do início do século XX que subsidiava a vinda de italianos e alemães proibindo a entrada de negros, com o objetivo explícito de "branquear" a população.
A esterilização em massa de mulheres pobres e negras nas décadas de 1980 e 1990 no Brasil, muitas vezes realizada como moeda de troca eleitoral ou condição para conseguir emprego (exigência de laqueadura).
O genocídio no Hospital Colônia de Barbacena, onde 60 mil pessoas morreram, a maioria negros, pobres e indesejados sociais, sob a tutela de médicos eugenistas.
Tecnologias modernas de edição genética que prometem "bebês perfeitos", levantando debates éticos sobre o retorno de uma seleção artificial que discrimina corpos com deficiência.
Quem é afetado
Os alvos históricos e contemporâneos da eugenia são as populações racializadas (negros, indígenas), pessoas com deficiência (física ou intelectual), pessoas LGBTQIA+ (historicamente tratadas como degeneradas) e a população pobre. O movimento eugenista sempre associou pobreza e criminalidade à herança genética, culpabilizando o indivíduo por sua condição social e isentando o Estado de responsabilidade. Para a população negra, a eugenia significou séculos de políticas que visavam literalmente o seu desaparecimento físico e cultural.
Por que é invisível
A eugenia torna-se invisível porque se disfarça de "cuidado com a saúde" ou "planejamento familiar". Quando uma mulher negra ou indígena é esterilizada sem consentimento pleno durante um parto, isso muitas vezes é registrado como procedimento médico padrão. A invisibilidade também é garantida pela linguagem técnica e médica que patologiza a diferença. Além disso, o mito da democracia racial no Brasil escondeu por muito tempo o fato de que nossas elites intelectuais e médica planejaram cientificamente a extinção da raça negra, tratando isso como um projeto de modernização do país.
Efeitos
Os efeitos são a naturalização das desigualdades. Se a pobreza e a doença são vistas como problemas genéticos, não há necessidade de reforma agrária, saneamento básico ou justiça social. A eugenia legou ao Brasil um racismo científico que ainda contamina a medicina (ex: a crença de que negros sentem menos dor) e o sistema penal (a ideia de Lombroso do "criminoso nato"). Culturalmente, estabeleceu um padrão de beleza eurocêntrico inatingível para a maioria da população, gerando traumas de autoimagem e rejeição da própria ancestralidade.
Autores brasileiros
- Lilia Schwarcz
- Pietra Diwan
- Renato Kehl
- Vanderlei Sebastião de Souza
Autores estrangeiros
- Francis Galton
- Cesare Lombroso
