Pacto da branquitude
Aliança informal e inconsciente entre brancos para manter privilégios e excluir pessoas negras de espaços de poder.
Definição
O pacto da branquitude (ou pacto narcísico da branquitude) é um mecanismo de autopreservação e manutenção de privilégios onde pessoas brancas, de forma consciente ou inconsciente, protegem e privilegiam outras pessoas brancas em detrimento de pessoas negras, visando manter o controle sobre espaços de prestígio, poder e recursos. O conceito define que a branquitude não é apenas uma cor de pele, mas um lugar de vantagem estrutural que se sustenta pela solidariedade mútua entre aqueles que se identificam como brancos, operando como um acordo silencioso de exclusão racial que não precisa de leis formais para ser exercido.
A principal referência nacional é a psicóloga e pesquisadora Cida Bento, que cunhou o termo em sua tese pioneira sobre as relações raciais no mercado de trabalho brasileiro. Ela demonstra que o pacto funciona como uma "fraternidade" que silencia as desigualdades em favor da manutenção do status quo. Internacionalmente, autores como Charles Mills (O Contrato Racial) e Lia Vainer Schucman discutem como a branquitude se estabelece como a norma universal, fazendo com que o pacto seja invisível para quem dele se beneficia, sendo percebido apenas como "mérito" ou "afinidade cultural".
Como funciona
A dinâmica funciona por meio da indicação e da coesão de grupo. O mecanismo opera prioritariamente nos processos de contratação, promoção e ocupação de cargos de liderança: o gestor branco tende a escolher o candidato branco por "identificação", "conforto" ou "afinidade", justificando sua escolha por critérios subjetivos como culture fit (ajuste cultural). Esse processo garante que os postos de decisão permaneçam ocupados por pessoas brancas, criando uma rede de proteção onde erros cometidos por colegas brancos são minimizados ou perdoados, enquanto profissionais negros são submetidos a um rigor e vigilância desproporcionais.
O mecanismo utiliza também o silêncio obsequioso. Quando ocorre um episódio de racismo em um ambiente corporativo ou social, os outros brancos tendem a se calar ou a minimizar o fato para não quebrar a harmonia do pacto ou para não confrontar o privilégio de seus pares. O sistema opera através do "narcisismo": brancos veem a si mesmos como o padrão de humanidade ideal e, portanto, veem a manutenção de seus espaços como algo "natural". O pacto não exige uma conspiração explícita em salas fechadas; ele é exercido no cotidiano através de olhares, silenciamentos e da reprodução automática de protocolos que favorecem quem compartilha da mesma origem racial e cultural.
Exemplos
A indicação por "QI" (Quem Indica) em empresas: Vagas que não chegam ao público e são preenchidas por amigos e parentes de diretores, garantindo que a homogeneidade racial do setor seja preservada.
A defesa de um colega branco que cometeu racismo: Membros de um grupo que justificam a agressão de um par dizendo que "ele é uma boa pessoa", "foi apenas uma brincadeira" ou "ele não teve a intenção", invalidando a vítima negra.
Os critérios subjetivos em promoções: Quando uma pessoa negra e uma branca disputam uma vaga, e a branca vence sob a justificativa de ter "melhor perfil de liderança" ou "presença executiva", termos que frequentemente ocultam o viés racial.
O silêncio em reuniões onde vozes negras são interrompidas: Colegas brancos que percebem a interrupção ou o roubo de ideias (bropriating/mansplaining racial), mas não intervêm para não gerar desconforto com o agressor branco.
Quem é afetado
As pessoas negras e indígenas são as vítimas diretas, sendo sistematicamente barradas em processos seletivos, preteridas em promoções e isoladas em ambientes de trabalho. O pacto gera uma barreira invisível (conhecida como "teto de vidro racial") que impede que a competência técnica de negros seja traduzida em poder real. Além disso, o pacto afeta a saúde mental desses indivíduos, que se veem em ambientes hostis onde sua presença é tolerada, mas sua ascensão é boicotada por uma rede de proteção invisível que eles não conseguem acessar.
A sociedade democrática e o mercado de trabalho são afetados pela mediocridade e pela falta de inovação. Quando a escolha de líderes é baseada no pacto da branquitude e não na competência plural, as instituições perdem a visão crítica e a criatividade que a diversidade traria. O pacto perpetua a desigualdade social brasileira, mantendo o país preso a uma estrutura colonial onde a cor da pele determina o destino econômico. Além disso, o pacto gera uma cegueira coletiva na elite branca, que se torna incapaz de compreender a realidade do país, vivendo em bolhas de privilégio que alimentam tensões sociais e violência estrutural a longo prazo.
Por que é invisível
O pacto da branquitude é invisibilizado por ser tratado como "mérito, rede de contatos ou amizade". Pessoas brancas raramente percebem que suas conquistas foram facilitadas pela solidariedade racial; elas preferem acreditar que seu sucesso é fruto exclusivo de esforço individual. A invisibilidade é mantida pela narrativa da "democracia racial" no Brasil, que prega que somos todos iguais, ocultando as engrenagens de exclusão. Como o branco é o padrão invisível, suas ações de privilégio são lidas como "normais", enquanto qualquer ação de reparação histórica (como cotas) é lida como "privilégio" ou "racismo reverso".
Além disso, a invisibilidade decorre da fragilidade branca. Quando o pacto é nomeado e confrontado, a reação comum é a negação, a culpa ou o ataque defensivo, o que encerra a discussão e mantém o pacto operando. Através de termos como "indicação profissional" ou "confiança pessoal", o privilégio racial é higienizado pela linguagem burocrática. A invisibilidade só é rompida quando se observa os dados estatísticos de quem ocupa o topo das pirâmides sociais em contraste com a composição da base, revelando que a coincidência de todos os chefes serem brancos em um país majoritariamente negro não é acaso, mas resultado de um pacto persistente.
Efeitos
- Manutenção forçada do teto de vidro racial: Limitação do acesso de negros a altos cargos executivos, judiciários e políticos.
- Reprodução da desigualdade de renda: Concentração histórica de riqueza nas mãos de famílias brancas através de redes de proteção econômica.
- Silenciamento de denúncias de racismo: Criação de redes de "proteção ao colega" que impedem a punição de agressores em ambientes institucionais.
- Erosão da meritocracia real: O esforço de pessoas negras precisa ser muitas vezes superior para alcançar resultados que para brancos são automáticos por indicação.
Autores brasileiros
- Cida Bento
- Lia Vainer Schucman
- Lourenço Cardoso
Autores estrangeiros
- Charles Mills
- Robin DiAngelo
- Ruth Frankenberg
