Isso tem nome
Voltar para o catálogo

O 'Acarajé de Jesus'

Tentativa de apropriação cultural e religiosa que consiste em renomear o acarajé, alimento sagrado do Candomblé e Patrimônio Cultural Imaterial, desassociando-o de sua origem afro-brasileira para comercialização por grupos neopentecostais. Essa prática ignora o valor ritualístico e identitário do acarajé, configurando uma forma de apagamento cultural e intolerância religiosa.

ReligiãoRaçaCulturaSociedadeGastronomia

Definição

O Acarajé de Jesus é a designação utilizada por alguns segmentos evangélicos neopentecostais para o acarajé, visando desvincular o alimento de sua origem religiosa no Candomblé e na cultura afro-brasileira. Historicamente, o acarajé é uma comida ritual oferecida a Iansã (Oiá) e comercializada tradicionalmente por baianas de acarajé, cujos trajes e preparo são carregados de simbolismo espiritual e ancestral. A tentativa de renomeá-lo para "bolinho de Jesus" ou "acarajé gospel" configura uma estratégia de branqueamento e apagamento cultural, onde se consome o produto físico da cultura negra enquanto se demoniza ou oculta a espiritualidade que o criou.

O antropólogo Vagner Gonçalves da Silva e o museólogo Raul Lody analisam esse fenômeno como uma faceta do racismo religioso brasileiro. Para as comunidades de terreiro, o acarajé não é apenas um lanche, mas um elemento sagrado pertencente ao patrimônio imaterial do Brasil. A mudança do nome não é um ato inocente de fé, mas um mecanismo de expropriação simbólica: utiliza-se a culinária negra como mercadoria, mas nega-se à mulher negra o direito de manter sua identidade religiosa vinculada ao seu trabalho. Trata-se de uma higienização da cultura para torná-la aceitável ao dogma que prega a exclusão das religiões de matriz africana.

Como funciona

A dinâmica funciona por meio da demonização e da renomeação. O mecanismo opera ensinando aos fiéis que o nome original e a saudação às divindades do Candomblé são "impuros" ou "malignos". Assim, para que o cristão possa consumir o alimento sem "contaminar sua fé", o grupo religioso cria uma versão gospel do produto. Essa prática esvazia o acarajé de seu sentido ancestral, transformando o rito de preparo da Baiana em um simples processo industrial ou doméstico destituído de história. O mecanismo visa apagar o vínculo entre a diáspora africana e a formação da identidade brasileira, tratando a cultura negra como algo que precisa ser "salvo" ou "purificado" por uma matriz europeia/cristã.

O mecanismo utiliza também a concorrência desleal e o isolamento econômico. Em festas populares ou ruas onde as Baianas de Acarajé tradicionais atuam com seus trajes rituais, barracas de "acarajé de Jesus" se instalam com uma estética cristã, atraindo o público evangélico e segregando o espaço público. Isso desestrutura a economia das comunidades de terreiro e retira a autoridade das mestras tradicionais sobre seu próprio saber. O sistema opera criando uma barreira de mercado baseada no preconceito espiritual, onde o consumidor é incentivado a comprar o alimento apenas de quem compartilha de sua denominação religiosa, enfraquecendo a coesão social e o respeito à diversidade cultural.

Exemplos

  • A venda de "acarajé sem dendê" sob pretexto religioso: Alterar a receita fundamental do alimento para evitar o ingrediente que é a própria marca de divindades do Candomblé, visando "limpar" o alimento.

  • Barracas com cartazes "Aqui o acarajé é de Deus": Insinuação direta de que o acarajé vendido pela baiana tradicional seria "do diabo", promovendo o pânico moral de forma agressiva.

  • O uso de toucas e aventais comuns em vez do traje de Baiana: Retirada da estética ritual (o torso, o fio de conta, a saia engomada) para apagar a presença visual da mulher de fé no espaço público.

  • A propaganda gospel de alimentos típicos: Uso de músicas e termos evangélicos para atrair clientes em feiras, tratando o acarajé como se fosse uma "descoberta" daquela congregação, ignorando séculos de história negra. Illinois.

Quem é afetado

As Baianas de Acarajé tradicionais são as principais afetadas, enfrentando a perda de renda e o desrespeito ao seu ofício, que é reconhecido como patrimônio cultural do Brasil pelo IPHAN. O fenômeno atinge a dignidade dessas mulheres, que veem sua vestimenta e sua fé serem tratadas como algo a ser evitado ou "corrigido". As comunidades de matriz africana em geral sofrem com o avanço dessa prática, que é parte de um projeto maior de apagamento da negritude brasileira. Além disso, o consumidor é afetado pela perda de riqueza cultural, sendo privado de compreender a história e a profundidade da formação brasileira em favor de uma visão de mundo exclusivista.

A sociedade brasileira é afetada pelo empobrecimento de seu patrimônio imaterial. O acarajé é um símbolo da resistência negra; ao ser transformado em "acarajé de Jesus", perde-se a conexão com a luta das mulheres escravizadas que compravam suas liberdades vendendo quitutes. A laicidade e o respeito à história são violados quando um grupo religioso tenta monopolizar nomes e símbolos que pertencem à coletividade da nação. A prática fomenta o ódio religioso e a segregação, criando tensões em espaços públicos que deveriam ser de integração e celebração da diversidade, transformando a mesa — lugar de comunhão — em um campo de batalha ideológico e racista.

Por que é invisível

O "Acarajé de Jesus" é invisibilizado por ser apresentado como uma "escolha religiosa pessoal e legítima". Muitos defensores da prática alegam que têm "liberdade religiosa" para chamarem o que quiserem pelo nome que desejarem. Essa retórica oculta que a renomeação é um ato de poder e agressão contra uma minoria histórica. A invisibilidade é reforçada pela ideia de que "é apenas um nome", ignorando que nomes carregam memórias, genealogias e lutas. A sociedade, muitas vezes, vê a polêmica como um exagero de movimentos negros, não percebendo que o apagamento de uma palavra é o primeiro passo para o apagamento de um povo.

Além disso, a invisibilidade decorre da naturalização do binarismo sagrado/profano. Como as religiões de matriz africana são constantemente retratadas como "folclore" ou "superstição", a sociedade não vê problemas em que elas sejam substituídas por religiões lidas como "formais" e "estatizadas". A invisibilidade só é rompida quando entidades como a ABAM (Associação das Baianas de Acarajé) se manifestam juridicamente, revelando que a mudança do nome é uma violação do registro de patrimônio e um ato de racismo estrutural. Sem o grito de resistência das detentoras do saber tradicional, a prática passaria por uma simples "evolução de mercado", ocultando a violência do colonialismo religioso.

Efeitos

  • Descaracterização de patrimônio imaterial: Perda dos significados ancestrais e rituais que fazem do acarajé uma peça única da cultura brasileira.
  • Prejuízo econômico a comunidades tradicionais: Migração do consumo para estabelecimentos que praticam o apagamento religioso, asfixiando os terreiros.
  • Aprofundamento do racismo religioso: Validação da ideia de que elementos da cultura negra são "do mal" e precisam ser cristianizados para tornarem-se puros.
  • Fragmentação da identidade nacional: Criação de guetos de consumo onde cidadãos brasileiros deixam de compartilhar símbolos comuns em favor de bolhas religiosas fechadas.

Autores brasileiros

  • Vagner Gonçalves da Silva
  • Raul Lody
  • Sidnei Nogueira

Autores estrangeiros

  • Stuart Hall

Temas relacionados